Acredite ou não, ainda existe gente burra o suficiente pra perder tempo falando mal sobre o twitter.
Então, twitter é isso: uma ferramenta de comunicação. Dizer que o twitter é inútil ou ridículo porque “só serve pra…” é como dizer que MSN não devia existir porque só é usado para exibicionistas na webcam, ou que o IRC é só para adolescentes conhecerem ou, ainda, que email só serve pra repassar piadas e apresentações em powerpoint.
Isso foi só um exemplo, claro. Esta frase, citada por Pedro no post anterior, se aplica ainda a muitas, muitas coisas:
“A gente deve parar de dividir o mundo em coisas que se gosta e coisas que não se gosta e tentar entender as coisas como elas realmente são.”
Todo adolescente acha que descobriu o mundo quando descobre a xoxota.
Todo adolescente acha que descobriu o mundo quando descobre o amor.
Todo adolescente acha que descobriu o mundo quando descobre a desconfiança.
Todo adulto acha que descobriu o mundo quando redescobre o amor.
Todo adulto acha que descobriu o mundo descobre que é homem.
Todos os homens deveriam parar de pensar em tudo que já aprenderam e pensar nas mulheres e em tudo que ainda têm a aprender com elas sobre elas para elas.
“O ser vivo se difere de outras matérias porque temos a percepção do mundo ao nosso redor e nós, humanos, por termos ciência disso. Não há por que questionar se existem outras formas de consciência. (…) Definimos o funcionamento dos astros através observações empíricas proporcionadas a nós pelo próprio universo, mas nossas conclusões se baseiam no que podemos observar apenas ao longo de nossa existência e tendo apenas uma quantidade de exemplos que, segundo nossas próprias teorias acerca do que vai além de nosso campo de visão do espaço extra-terreno, representa um percentual incalculavelmente pequeno de todos os outros. Há um horizonte muito além daquilo que podemos ver, portanto, podemos estar errados nesse aspecto.”
“Também é natural ao ser humano, como ser vivo, proteger a tudo que interessa à sua sobrevivência. A vida é querer viver, da mesma forma que o movimento força o movimento.”
(trecho de “A continuidade inerente à existência”, de J.P. Flores).
*Pedi ao |RATO|, a.k.a. Fernando, que sugerisse um título para um post em meu segundo ou terceiro blog, lá por 2002 (em breve chego ao oitavo e comemoro lá no Batalhão de Logística da Brigada Militar, onde lê-se em uma enorme placa “8º BLOG”). Enfim, o que saiu foi o que segue.
A felicidade nos vem em diversas formas, temos que tolerá-la em cada um como ela vem para cada um. Não adianta me preocupar com uma pessoa a ponto de ficar irritado com seus costumes. Se o fez realmente valeu a pena para ele ou para ela, só posso sorrir-lhe de volta quando ver o brilho em seus olhos e o cumprimento verbal exalando alegria.
Você já se apaixonou hoje?
Cada momento muda muitas coisas. E se a graça da boa fortuna nos for dada, será para melhor. Já amei conversar com uma pessoa, já amei momentos longe de outras, e amei ve-las novamente. E ainda amo cada contato, cada proximidade. Uma conversa rápida, uma discussão agradável, risadas conjuntas. Tudo para que aquele momento, mesmo que esquecido no dia seguinte, seja por ora eterno.
Você já sorriu hoje?
Apaixone-se por uma mulher, por um homem, por seus amigos. Um cachorro que te demonstra carinho atravéz dos olhos, um gato descansando entre suas pernas.O momento no qual tu não se importa com momentos anteriores ou com expectativas, o momento no qual tu nem lembra que houveram e haverão outros.
B.H., filho de pai português, cuja mãe, filha de holandesas, nascera no Brasil, teve dois filhos. Um casal. O menino recebeu o nome Kaspar Hauser e a menina, Hellen Keller. Crianças quietas, por acaso, mas um tanto quanto irriquietas; escalavam os móveis quais fossem pequenos montes para aquela dupla de montanhistas iliteratos, corriam pelo corredor do apartamento tendo como sinal de interrupção apenas eventuais quedas e, claro, nunca permitiram ao pai mais do que dez horas sem uma troca de fraldas.
Ao pai só davam merda, mas davam o tempo inteiro.
O que levaria um homem a batizar seu único filho e sua única filha a partir de crianças consideradas desafios lingüísticos e comportamentais estudados gerações além das suas é assunto que apenas a ele cabe, ou caberia, se vivo; B.H. faleceu há não mais do que três dias, deixando a mim a responsabilidade por suas crianças, agora com nove anos, o menino, e sete, a menina. Nenhum deles fala, o que é uma coincidência um tanto quanto engraçada.
Pararam de cagar, mas há menos tempo do que imaginaria o leitor: seis meses atrás, eles ainda competiam com os cães sobre a quantidade de despejos fecais emitidos por cada um. Os cães sempre ganhavam, mas isso jamais impediu que os pequenos tentassem quantas vezes mais fossem necessáriaa.
Hellen Keller e Kaspar Hauser.
Kaspar Keller e Hellen Hauser.
Que bela combinação de nomes!, pensei algumas vezes, jamais ignorando a significância que esses meros fonemas tinham para mim como lingüísta e como ser humano. E que desnecessário devaneio acerca de meras nominações por outro escolhidas àqueles cuja educação dependia de mim a partir do momento em que a tarefa para com tais me foi incumbida! Sim, os teria como meus, os criaria assim e, a meu ver, mais importante, teria por eles o mesmo amor que todo pai tem para com seu fruto germinado. Que não falassem! Que tivessem os nomes que lhes viessem ou que eles mesmos desejassem! Nada mais importava a mim, senão a recém adquiridade paternidade.
Acabei de perceber que meu pior post no twitter é mais criativo, bem escrito e organizado do que qualquer livro de qualquer autor gaúcho que eu já tenha lido.
E não pretendo soar arrogante e tampouco elogiar meu texto; muito ao contrário, acho falhas maiores a cada dia, mas isso constata apenas a péssima qualidade da literatura brasileira sulista.
Temos o terrível hábito de elogiar tudo que é local e, justamente por isso, ninguém prima pela qualidade. Assim como o humor brasileiro é ruim porque os públicos se contentam com o que consideram relativamente bom, a literatura do Rio Grande do Sul não se desenvolve porque as instituições acadêmicas e o bairrismo levam as pessoas a prezar aquilo que deveria ser apenas o rascunho de nossa criação literária. Em suma, não chegamos nem ao estágio de desenvolvimento: nos satisfazemos com a descoberta e a alfabetização e decidimos não ir além.
Enfim.
Já fui xingado por comparar Caio Fernando Abreu com textos meus. Eu quis dizer que, quando eu tinha 14 anos, eu escrevia como ele, mas fui além. Ficaram mais irritados ainda. Por quê? Porque consideram ele bom. E porque consideram ele bom? Porque é daqui.
Como bem comparou um amigo meu, “preferem tomar um vinho gaúcho do que experimentar o de outro lugar.”. O que falta aqui é abertura cultural.
Trechos de minha entrevista (a distância) na convenção anual de membros* do Mensa.
*de uma facção declaradamente nerd e não aceita do grupo, visto que não nos regulamos por resultados em testes padronizados utilizados unicamente para membros inferiores do grupo geral.
Filme mais inteligente que já viu?
Essa é difícil, e por isso vou dar a resposta errada: Adaptação.
Não, não é realmente o filme mais inteligente que já vi, mas a impressão inicial, enquanto eu assistia, foi algo parecido. Sei que existem roteiros muitos melhores, especialmente em curta-metragens.
Filme que assistiu muitas vezes e por quê:
O Corvo.
Obviamente porque me impressionou mais, dentre todos os filmes de ação que já vi. A verdade é que, em geral, só comédia vale ser revisto. Ação, às vezes. Pra quem é fã, sempre.
O Corvo mistura coreografias de filmes de ação com uma história mórbida muito superior a tudo que havia sido feito até então – até por ter sido adaptado de quadrinhos que, literária e criativamente, sempre estiveram acima de qualquer obra cinematográfica – e acho que esse aspecto inovador atraiu minha atençao muito mais do que o fato de eu me considerar um fã de Brandon Lee. De fato, só me tornei fã depois de assistir o filme, justamente pela boa escolha dele.
Filme que viu mais vezes:
Impossível ter certeza, mas, de memória, eu chutaria “Comando Para Matar” (Commando, com Arnold Schwarzenegger). Não, não tenho vergonha disso. Pelo contrário, não conheço um fã de cinema respeitável que não tenha sido fã da mesma safra de filmes de ação que eu. Qualquer pessoa que não saiba de cor detalhes de cenas desse filme simplesmente não merece se considerar um entusiasta da arte.
Além do mais, todo filme vale a pena ser revisto, se tu tem mais interesse do que entretenimento. Sou parte de uma geração que assistiu filmes dos agora chamados Macho Man analisando cada detalhe da ação, da cinematografia e, enfim, detalhes em geral, que, não fosse por nós, outras pessoas nem saberiam criticar esses filmes.
O pior filme que já viu:
Provavelmente, “Dançando no escuro”. Não existe um segundo desse filme que não pareça amador e pretensioso ao mesmo tempo. Outro chute seria “Requiem para um Sonho”, provavelmente a tentativa de imitação de edição mais patética da história, mas vale lembrar que me falaram tão bem desse filme que acabei por esperar demais. O primeiro nunca pude ver ao todo, tamanha a irritação causada pelo movimento de câmera, e por isso não ouso criticar o argumento; o segundo acompanhei inteiro com as maiores expectativas possíveis e me deparei com uma história tão forçadamente triste e desesperada que parece ter sido escrita por um pré-adolescente de doze anos que acabou de descobrir que às vezes o mundo não funciona da forma que ele quer.
David Lynch?
Parei de odiar. De fato, gosto dele, por vezes. Ele ama aquilo que faz, e isso é algo a ser admirado. Não posso negar seu entendimento sobre cinemática. Por outro lado, é tão burro quanto sempre pensei que fosse; basta ouvi-lo falar ou, como tentei, segui-lo no twitter. Ainda assim, respeito o cara. Espero conhece-lo pessoalmente e descobrir que ele é mais esperto do que minha arrogância deixa pensar.
doença em que o ar, ao passar da laringe para as cordas vocais, sofre alterações de freqüência que resultam na emissão de sons que se assemelham a um instrumento de cordas de aço mimetizando a voz humana; consoantes perdem sua rigidez e adquirem som semelhante ao de vogais.
Acredita-se que tenha sua origem entre fãs de Dub, Ska e Reggae que, frente à inviabilidade de adquirir instrumentos adequados para os efeitos que buscavam nas músicas que compunham, tentavam vocalizar alguns, o que teria gerado uma alteração no funcionamento de seu instrumento vocal natural e essa alteração teria sido transferida para as seguintes geraçoes através de memória genética.
Gostei demais desse vídeo e tive que embebedar aqui. E eu quis dizer “incorporar” (sério, parem de adaptar termos estrangeiros quando já existem traduções perfeitamente apropriadas para seu significado).
O vídeo é um documentário falso (também chamados de “mockumentaries”) mostrando uma visão futurista da existência anterior dos Beatles.
Descobri que a moça que fez essa pichação está sendo processada e corre o risco de não se formar por causa disso. Acho injusto.
Basicamente, ela é, obviamente, uma pessoa burra que se deixa levar por qualquer frase que um veterano tenha lhe passado e que parece ser uma forma honesta de protesto socialista contra algo que ela nem sabe se existe. Ela simplesmente repetiu uma frase que viu escrita em inúmeras paredes e mesas de sala de aula e, se achando esperta, repetiu em outras cores na parede do prédio que é dividido entre seu curso e dois outros. Não é preciso ser um gênio para saber que ela estava apenas querendo impressionar algum veterano ou era uma pós-adolescente facilmente influenciável.
Em suma, ela está sendo devidamente processada por vandalismo.
O que me irrita é o fato de que quando um aluno da Letras tentou limpar a mesma parede que ela pichou e foi ameaçado de avarias físicas por membros do DCE, a reitoria da UFRGS se recusou a assumir conhecimento do assunto e, pior ainda, não puniram os membros do diretório que ameaçaram publicamente o aluno que só intencionava manter a parede do edifício limpa.
Muito pelo contrário, mandaram manter a parede do jeito que estava.
Não é preciso ter vinte-e-poucos anos para conhecer essa que para muitos é a verdadeira “era de ouro” do cinema hollywoodiano. Muitos desses filmes já foram vistos e revistos por quem viveu os anos oitenta e muitos ainda são repassados para pessoas mais jovens. Por quê? Porque fazem parte de nossa formação como pessoas. Segue a lista, ainda em construção, das 80 coisas que aprendemos com filmes dos anos ‘80.
Se descobrir que você é um lobisomem, use as novas habilidades para algo proveitoso e divertido, como jogar basquete.1
Não se meta com um veterano de guerra só porque ele parece um mendigo.2
Quando um aluno novo e conhecidamente perigoso aparece em sua escola, não o toque. Especialmente se vocês estiverem no banheiro.3
Se eventualmente voltar no tempo, tente não encontrar-se com sua mãe e fazer que ela se apaixone por você antes d’ela conhecer seu pai.4
Sim, é possível chutar os traseiros de todo um exército sul-americano que seqüestrou sua filha, então vai lá.5
NÃO saia do quarto do hotel antes de calçar uns tênis, ou tu vai se encontrar numa situação bem complicada quando estiver enfrentando os terroristas que tomaram conta do prédio.6
Colocar a Ferrari em marcha ré não vai retornar a quilometragem a uma contagem anterior.7
Se você mora em uma cidadezinha do interior e ver dezenas de homens caindo de pára-quedas no campo de futebol, corra e se esconda nas montanhas, porque eles são indubitavelmente russos e cubanos.12
Sempre verifique a presença de formas de vida menores antes de entrar em um pod de teletransporte.13
Menor de idade gostosa + Cadillac roubado = problemas. Problemas sérios.14
Confira se tem dinheiro para pagar a garota de programa antes de chamá-la, ou esteja pronto para compensar o cafetão com um caríssimo adorno da família.15
Sim, é possível colocar uma Mercedes no porta-malas de um cadillac.16
Don’t get all excited about meeting your old pal when you both find yourselves locked in a videogame. You still might have to compete with each other to death.17
Não se entusiasme muito se encontrar um velho amigo quando estiver trancado em um jogo de videogame. Vocês ainda vão ter que competir entre si até a morte.17
Abrir um buraco na testa com uma furadeira lhe dá a abilidade de explodir os cérebros das pessoas.18
Para se livrar de uma criança-incômodo, deseje em voz alta para que ela desapareça e David Bowie cuidará disso.19
Uma criança sempre deve carregar uma arma de fogo quando estiver procurando por um cadáver.20
Antes de comprar uma casa, sempre verifique com seu agente imobiliário se o terreno costumava ser um cemitério.21
Se quiser que seus filhos durmam bem, não queime o vizinho perturbado.22
.:só usar sabonetes neutros ou da Pheebo
.:gostar de depilação – apenas peito, barriga e, bem, cês sabem. recentemente li sobre as vantagens de depilar axilas. aguardo opiniões femininas a respeito.
.:tratar todas as mulheres como deusas, seja amiga, pegada, ex-pegada ou mulheres-com-quem-não-podemos-ficar-em-hipótese-alguma* *categoria que, todo homem sabe, se resume apenas a familiares e namoradas de amigos(as).
.:me importar com meus cabelos. não me fresqueio com eles, mas são tão naturalmente bonitos que chego a ter orgulho.
.:não dirigir. simples assim. não tenho carro e não dirijo.
.:medo de insetos. pronto, falei. pavor mesmo. antes isso do que medo de pussy, mal que aflige muito homem metido a machão por aí.
.:cumprimentar amigos com beijo. às vezes é mais higiênico do que um aperto-de-mãos, por motivos que prefiro não explicar.
.:sempre abaixar a tampa da privada. é isso. peguei o costume de tanto freqüentar casas de amigas. confio cegamente nos hábitos femininos, especialmente nos que se referem a cuidados com o lar e com o corpo que, se tiveres sorte, pode vir a ser um lar para alguém.
.:sempre levantar da mesa para cumprimentar quem está chegando, independente de gênero ou idade. não que seja frescura, mas não é tão comum como em tempos mais civilizados. na verdade só coloquei aqui porque gosto de ser um dos últimos gentlemen vivos.
O cigarro pende de teus lábios enquanto me olha e pensa:
“Que que esse babaca tá olhando?”
Desvio, escrevo algumas linhas e olho de novo.
Prestes a acender o cigarro, tu me fitas e murmura:
“Qualé a tua, ein?”
Abaixo a cabeça, escrevo mais um pouco e penso:
“Iria ela gostar desses versos sem métrica ou rima?”
E quando te olho de novo, seguras o cigarro e grita:
“Meu, se tu virar pra cá mais uma vez eu vou aí te dar uns tapas”
Escrevo mais um pouco, já contente:
basta um olhar pra que venhas até mim.
Os tênis de desenho setentista, seus preferidos, batiam sobre a calçada molhada com a força resultante da velocidade com que ela movimentava canelas e joelhos afim de não permitir que a caminhada demorasse. Ela tinha pressa e não porque precisava escapar da chuva; precisava escapar da verdade que a seguia, dos sentimentos que lhe tomavam os pensamentos durante as terríveis vinte-e-quatros por dia em que costumava estar acordada. Cada passo dado lhe dava a motivação para pensar no seguinte, e quanto mais rápido fosse, mais tinha de se concentrar na caminhada em si, deixando para trás, para os alojamentos mais obscuros da mente, todos os temores e ânsias que normalmente lhe perturbavam. Seguia em frente porque não podia ser interrompida; bastava uma voz para que retomasse sua linha de pensamento costumeira e essa era atrelada apenas dos sentimentos negativos que desde a infância lhe faziam pensar diariamente na idéia de que morrer era a única solução para a desventura que estar viva normalmente lhe parecia ser.
As vozes eram um problema para ela. Como membro da espécie humana, precisava sobreviver em grupo. Como indivíduo, não podia permitir que o grupo ameaçasse sua sobrevivência. E as emissões sonoras de qualquer indivíduo de sua espécie eram intervenções contrárias a seu método de sobrepujação dos desafios que a mente lhe impunha; quanto mais próximas de sua linha genética fossem, mais terríveis lhe soavam e mais fortemente se punham contra sua sobrevivência. Ela precisava estar livre e ficar parada significaria expor-se não só aos próprios pensamentos mas ao perigo de ser encontrada por essas vozes que se aproximavam como os predadores que envenenam suas vítimas e esperam que agonizem até a morte.
Eles tentariam fazê-la parar, seus inimigos.
Sua própria mente lhe prepararia armadilhas do tipo.
Tais eram os perigos e os conhecia bem, sabendo assim que precisava estar em constante movimento.
Que as vozes não interrompessem sua concentração e que os pensamentos não interrompessem seus passos.
Depois de atravessar desertos, corredeiras, a proximidade da morte nos dentes de uma cobra que, mais tarde percebeu, era uma espécie de rato mal-sucedido, ele chegou ao auge da montanha. Sim, passara também por todas as intempéries de escalar uma montanha, o que inclui frio, artrito queimando a palma da mão, canelas arranhadas (saiu de casa de bermuda pra procurar a paz espiritual, deu nisso) e todas essas coisas típicas do sofrimento e esforço que permeiam o caminho do herói em busca da resolução final.
Chegando lá, encontrou o sábio, que nada lhe disse. Dias se passaram assim, até perceber que sua visão turva pelos meses de sofreguidão o enganara: não era um sábio, mas um pico de rochedo deixado ali pelos milhares de anos de corrosão que formaram aquela paisagem. Não, não iria descer e percorrer todo aquele caminho novamente. Decidiu ficar ali mesmo, no alto da montanha. Um dia alguém viria a ele em busca de iluminação, e ele estaria lá para surpreender o incauto com enigmas, charadas, desafios absurdos e o que mais pudesse criar para satisfazer seus próprios caprichos.
O quase é a proximidade com algo que não chega a esse algo;
É chegar perto de um objetivo, ou seja, de alcançar esse objetivo; de obter sucesso.
É portanto, a proximidade ao sucesso. É um não-sucesso, ausência deste; é fracasso.
O quase é fracasso.
Usos da palavra:
“Quase comi aquela mina ontem, cara, quase.”
Note que há uma incoerência nesta frase. O fracasso é admitido, mas o quase está sendo usado indevidamente para dar a idéia de que houve um quase-coito; um semi-coito, digamos. Tal coisa não existe: ou aconteceu, ou não aconteceu. No caso, o sujeito não só admite que foi incapaz de conseguir o que queria, mas ainda usa desnecessariamente a palavra quase para enfatizar o seu fracasso.
Outros exemplos:
“Eu quase passei na prova.”
“O Brasil quase foi campeão.”
“Meu filho quase nasceu.”
‘alguém tem que tomar as rédeas no nosso relacionamento… ‘
‘também acho.’
‘então, te dispõe?’
‘não sei não… não curto a responsabilidade. tu parece ser mais sensato.’
‘não, não. sou muito desligado com essas coisas.’
‘melhor desistir enquanto temos tempo então…’
‘é… mas foi bom te conhecer.’
a alga foi pro seu canto, o mesmo com o fungo. nem todos os líquens dão certo.
´às vezes acho que tu não me ama mais.’
‘ah, é?’
’sério, amor. tô falando contigo uma coisa séria.’
‘urrum.’
‘tu pode parar de ler o jornal enquanto a gente conversa?’
‘desculpa, sobre o que tu quer conversar?’
‘tu não me ama mais?’
’se eu disser que não, a conversa acaba aqui?’
‘acho que sim, né. é isso? tu não me ama mais?’
‘mais que o quê?’
‘ein?’
‘ah, desculpa. eu achei que cabia um comparativo ali.’
‘tu tá me enrolando, né?’
’sim.’
‘por quê?’
‘pra não estragar a surpresa.’
’surpresa?!’
‘é, mas, sério. amanhã, amanhã.’
‘e o que tem de tão especial amanhã?’
‘tu não sabe que dia é amanhã?’
‘não…’
‘nossa… depois dizem que homens é que esquecem as coisas.’
‘desculpa, amor, mas…’
‘tu realmente me ama?’
‘claro que sim! mas que dia que…?’
‘ah, deixa pra lá. olha, vamo dormir? não quero que a gente brigue, ainda mais com o que planejei pra amanhã. te amo demais pra isso. tá bom, amor?’
‘tá certo…’
reverter dá um pouquinho de trabalho, mas depois o cara pode voltar em paz ao que quer que estivesse fazendo.