sartre conseguiu, através de seu existencialismo, colocar em palavras a angústia adolescente, o que coloca ele lado-a-lado com os letristas do my chemical romance.
Março 30, 2008
Março 25, 2008
Lembro de ter passado o final de minha infância, entre meus dez e doze anos, criando histórias nas quais uma criança de uns onze anos assassinava todos seus amigos para depois de matar. Acho que só sobrevivi no Anchieta porque tive a sorte de encontrar pessoas como eu; não dementes revoltados com a existência humana, mas outros que, como eu, não se encaixavam nos padrões comportamentais que a moda impunha à grande parte dos nossos colegas. Você não fazia parte do grande grupo de pessoas consideradas legais se não vestisse roupas caras da moda surf, usasse esteróides ou fumasse maconha – e acredite, tanto os pais quanto o corpo docente querem que você se encaixe. Eles não defendem quem defende a própria individualidade, porque para vencer no sistema você precisa se encaixar nele. Eles não se importam se pra isso é necessário deixar de lado toda a noção de ética que você tenha desenvolvido, contanto que você triunfe na competitividade inerente a uma sociedade capitalista. Tudo que os pais querem é poder dizer para seus amigos e colegas de trabalho: ‘Ah, sim, meu filho se deu muito bem! Foram quatro anos de faculdade vencidos à custa de muita cocaína, e depois de trabalhar das oito às oito ele finalmente foi promovido passando por cima de todos em seu caminho. E claro que ele ainda arranja um tempo para embebedar e meter algumas garotas porque, claro, ele é muito macho que nem o pai e o pai de seu pai’.
Sim, eu estudei num colégio que permite – talvez até incentive – o comportamento competitivo e leviandade entre seus alunos. Dificilmente se incomodavam com os alunos que se envolviam em brigas, compra e venda de drogas ou qualquer outro tipo de comportamente destrutivo fora do horário de aula. Mas se você fosse visto conversando ou discutindo a política docente ou assuntos gerais de temática social, eles ficavam realmente preocupados. E aí não importava se tu era aquele aluno preguiçoso que faltava aula pra dormir ou fumar cigarros ou se tu era o sucesso acadêmico que só tirava notas altas e jogava role-playing-games no tempo livre; o que importava é que você não estava se encaixando. E eles querem que você consiga fazer isso porque é preciso se preparar para o mundo – é com você que eles estão preocupados então. Não com o pagamento. Com seu futuro. Não com a importância, para eles, de sua permanência naquela escola, mas com seu futuro e com o que seus pais esperam de você – eles só querem que você vença neste mundo terrível e brutal que estão lhe dando de presente.
Eles devem me considerar um tanto ingrato.
Março 24, 2008
ch-ch-ch-chooomsky
tenho uma colega muito legal. o nome dela é grazi. ela estuda tradução. ela está alguns semestres à minha frente nos estudos de lingüística, o que na verdade até torna qualquer conversa a respeito do assunto ainda mais agradável, especialmente que ela parece ser a favor do meu recentemente adquirido gosto por chomsky.
‘Tu gosta bastante de lingüística, devia ter começado a estudar há muito tempo.’
‘Verdade, eu já poderia ser monitor nas aulas do próprio Chomsky.’
‘Ele ainda vive?’
‘Sim, há décadas dando aula na M.I.T..’
‘Que legal, imagino ele andando pela faculdade e sendo perseguido por groupies.’
‘Diz que já teve que andar cercado por seguranças, mesmo não gostando disso. Muitas ameaças de morte.’
‘Nossa, dá pra imaginar pessoas gritando Morte ao Gerativismo!‘
‘Aham! Praticamente os Carecas Saussureanos do A-B-C’
‘Estruturalismo tatuado nas costas e tudo.’
Março 23, 2008
gênio.
depois de uma noite de sonhos intranqüilos, acordou ouvindo a mulher chorando de dor.
“se ela reclama de dor no nariz, bate na boca.” (apud SPIFF)
Março 19, 2008
sessenta-e-cinco (parte primeira)
Sessenta-e-cinco anos – as linhas de seu rosto e o modo de falar não mentiam a idade. Sessenta-e-cinco anos e um cigarro. Fazíamos parte da mesma classe de alunos e Língua Portuguesa e Redação e eu começava então meu segundo ano na Faculdade de Comunicações Sociais. Antes mesmo de sairmos da sala ela veio a mim com o cigarro na mão esquerda e perguntou se eu tinha ‘o fogo’. Peguei o isqueiro do bolso, caminhando ao lado dela, e mesmo tendo pedido direto e unicamente a mim ela pareceu surpresa ao descobrir que eu também fumava. Acendi o cigarro dela e seguimos juntos pelo corredor até a saída, onde acendi o meu.
‘Dubreau.’, lhe disse.
‘Como?’
‘É meu nome, Dubreau.’
‘Isso não me interessa muito, realmente.’
Dei duas tragadas fortes, constrangimento e ressentimento misturavam-se em mim, e ela continuou:
‘Tu és gentil e fumas com classe, isso me importa.’
‘Não sabia que eu tinha classe pra isso.’
‘Mas tem, e é nos pequenos hábitos que se percebe a elegância de alguém. Tu disfarça bem o nervosismo, enquanto muita gente acende e fuma cada cigarro como se estivesse atrasado para um compromisso urgente – e acredite, esse tipo de compromisso nem existe, senão sequer seria agendado. Não sei quanto ao resto mas nisso tens classe.’
‘Bem, obrigado, então.’
‘Clarissa.’
‘Prazer.’
Acenou a cabeça levemente num adeus e saiu caminhando, sem mais palavras.
Não pude deixar de pensar nela durante o resto do dia - e pelos dias que viriam, também. Lembro de chegar em casa, ainda cansado dos cinqüenta minutos dentro do ônibus, metade deles em pé, e ficar imaginando se ela já estaria em sua casa então. Casada? Será? Que homem poderia domar tal iguaria, provavelmente numa idade jovem, e estar ainda ao lado dela depois de algumas décadas? Difícil imaginar quem merecesse. E onde ela mora? No clássico bairro boêmio onde apartamentos de idosos misturavam-se a casas aos poucos tomadas por estudantes e jovens graduados? Ela parecia original demais para isso. Mais importante; poderia ela estar pensando em mim como eu nela? E pronto, percebi a ereção. Mal conseguia conter-me em minhas calças, e talvez durante um segundo tivesse sentido vergonha por isso mas não foi de qualquer importância. Tinha a imagem dela fixa em minha mente, e cada vez que a via dando uma tragada no cigarro preso entre seus lábios já cercados de riscas rugosas, meu pênis latejava ainda mais. Livrei-me de cinto, braguilha, calças em segundos; já massageava o pênis com a mão esquerda enquanto a outra desabotoava a camisa. Mal percebia meu quarto; o rosto dela tomava minha concentração, seu corpo ao lado do meu, a proximidade… Caminhava trôpego em direção à cama e, já despido, deixei-me cair sobre o leito e fechei os olhos.
Em minha mente, ela jogava o cigarro para longe e se movia contra mim num instante prolongado – puxava meu pescoço com uma mão, a outra em meu quadril, e os finos lábios abriam-se para sua língua invadir minha boca. Ela massageava minha língua com a sua vorazmente, tinha a ferocidade de toda sua libido naquele beijo. Chupava, mordia, beijava meu pescoço e voltava para a boca enquanto seu corpo pressionava-se cada vez mais contra o meu – meu pênis já sentia por baixo de nossas vestes sua virilha e tentava em vão encontrar-se com o sexo dela. Agora era eu que me apertava contra ela, acariciava suas costas com ambas as mãos; beijava-a também pescoço, lábios, o peito à altura dos seios. Quando ejaculei, e pareceu ter sido a ejaculação mais prolongada que eu tivera nos últimos anos, ainda respirava sôfrego, perdendo o fôlego. Mal podia acreditar na paixão que se apoderara de mim, e já pensava em quando a veria de novo. Entre muitos goles de água gelada, era tudo em que conseguia pensar.
Março 17, 2008
o Romantico e o Guri
Porra! é a mulher que me chama
vos largo a vós e me corro
que se não for para a cama
é que é hora de esporro
Caralho! como é que tu aceita
mulher dando ordem de volta?
Faz pros amigos desfeita
‘inda corre pra levar de chicota!
Te fode! que a mulher é minha
De lá sei eu e de cá sabe tu
Sofro pra meter na frestinha
senão gostasse dela gostava é de cu!
Pica! qu’isso não é desculpa
largar dos amigo e ir pras amarra
mulher não precisa ternura
se reclama apanha, só não pode na cara
Teu cu! é que precisa laço
não sabe delas e quer ser professor
tõ achando que tu é cabaço
não sabe de xota quem não sabe de amor
Boceta! eu gosto também
vai lá, pega a tua, faz que tu quer
eu tenho meu jeito e ele me faz bem
e tu, segue o rumo pra tua mulher.
Março 16, 2008
não perturbe
difícil não lembrar de bukowski quando se tenta escrever mas é constantemente interrompido por algum empecilho humano externo (ler ‘doze macacos alados não conseguem trepar sossegados’). então, meu personagem acabara de apaixonar-se, ou acreditava tê-lo feito, sofrido, o que for. agora é preciso dar continuidade à essa pequena introdução e…
‘com licença, preciso de ajuda’
‘todos precisam, beibe.’
talvez eu deva contar sobre como ocorreria o segundo encontro deles, mas isso é uma seqüência um tanto irritante. ele vai pra casa, pensa a respeito do que aconteceu. não! melhor ainda, o segundo ato é um poema. um poema escrito por ele, isso ficará claro, e mostrará suas primeiras sensações no encontro com o demônio em suas vestes femininas.
‘oi, eu tô precisando de uma informação’
’só uma?! se tu chegou tão longe não sou eu que vou te ajudar a realizar o MEU sonho!’
quais anjos, a mim demônios, privaram-me até ora de tal visão?
que caiam céus e infernos sobre mim se for errado amar assim
que amo e trocaria cada pedaço, cada toque,
cada beijo e cada desprezo que compôs minha existência
por toda infinitude de momentos que vivi essa noite
pois que nela tive…
‘onde é que paga estacionamento?’
‘final do corredor.’
’só lá?’
’si. dó.’
pois que nela tive no molhar de um beijo
a tempestade dos mil anos num relampejo
vá-te, memória de mim!
vá-te deus que me criou, mulher que me amou
pai que me educou e mãe que gerou
vá-se tudo e fique apenas ela a quem hoje conheci
ela há quem hei de devotar-me
esteja onde estiver e pr’onde formos…
em sorrisos bobos, como os sorrisos recheados de ópio, permitiu-se dormir, sonhando acordado em sonhar inconsciente com a amada.
‘você sabe me informar que horas chega o próximo vôo de buenos aires?’
’sorry, miss?’
‘ahnm habla portugues?!’
‘pardon, mais je ne pas compreende-vous!’
‘ai’
‘you…?’
‘esquece.’