“Nunca deixe uma mulher esperando.”, meu pai costumava dizer, e completava: “A não ser que esperando seja uma figuração para gravidez. Nesse caso, deixe a mulher.”. Sim, aprendi muita coisa coisa com ele nas poucas vezes em que apareceu desde que saiu para comprar cigarros, quando eu tinha nove anos. Sim, isso mesmo: ele trabalhava no ramo de importação e revenda de cigarros e embora isso o mantivesse ocupado viajando, o trabalho mantinha a família inteira bem alimentada. Éramos nove, eu e meus irmãos, todos trazidos de diferentes esposas para morar com a governanta que nos criou como se fôssemos seus próprios filhos. Ela o teria feito com os próprios filhos, não estivessem eles trabalhando para uma pedreira em algum lugar na região norte do país. Meu pai sempre dizia para ela: “Se todos meus filhos chegarem vivos e saudáveis aos dezoito anos, prometo que tu vai rever tua família.” – ela quase conseguiu, mas um acidente de barco tirou a vida de nosso caçula apenas quatro dias antes de ele alcançar a maioridade. Antes da notícia, eu costumava reclamar que um convite para um passeio desses nunca fora feito a mim ou qualquer um dos outros. Foi essa coincidência infeliz que me obrigou a ver as coisas com outros olhos. Sob uma segunda perspectiva, é melhor refrasear, já que o único da família que realmente foi submetido a um transplante de olhos foi meu primo em terceiro grau Julius. Era um cara fantástico, mas insistia que o olho era o responsável pelos assassinatos que cometera um ano após a operação. Eu e meus irmãos podemos nos orgulhar de nunca termos sido presos por qualquer crime, embora eu tenha sérias dúvidas quanto a inocência de Mithrandir a respeito das acusações de violência doméstica registradas por sua ex-esposa. Porém, é compreensível que uma pessoa nomeada em homenagem a um personagem de O Senhor dos Anéis desenvolva algum tipo de distúrbio, e todos nos demos por gratos por ele nunca ter feito qualquer piada que relacionasse os irmãos à comitiva de nove membros formada no primeiro livro da trilogia.