Isso foi uma espécie de rascunho que escrevi para eventualmente elaborar um artigo sobre duas das obras de ficção científica mais originais – provavelmente as duas mais originais, de fato – de que tive conhecimento em mais de vinte anos. Como pode ser notado, as idéias básicas foram meio que jogadas no texto, escrito às pressas para não esquecer completamente a idéia. Engavetada, não terei tempo para reler o livro e rever o anime antes de fevereiro, então vou colocar aqui e torcer para que pelo menos alguma pessoa que ainda não tenha lido Gibson nem assistido Lain possa optar por aumentar substancialmente sua base de conhecimento sobre o mundo atual, sobre sua própria existência (vide Lain) e cultural.

Esse artigo intenta observar e analisar os elementos em comum que compõem o livro Neuromancer1, escrito por William Gibson e publicado originalmente em em 1984, e a animação Serial Experiments Lain2, escrita por Chiaki Konaka e exibida inicialmente em 1998 pela emissora TV Tokyo.

O argumento básico de Neuromancer se liga diretamente e facilmente à história que se desenrola ao longo do livro, e por tal não é problemático explicá-lo sem correr o risco de confundir um leitor quanto ao que se pode esperar da obra.

A história começa e se desenvolve em torno de H.D. Case, um entusiasta da computação e ex-hacker impedido, através de ataques ao seu sistema nervoso, de acessar a rede de comunicação digital que, na ficção, Gibson chamaria de Matrix. Uma companhia interessada em suas habilidades consegue reverter o efeito exigindo dele, em troca, alguns favores que envolvem a utilização de seu conhecimento para invadir a rede.

Em Lain, a história começa a partir de uma estudante que, ao contrário da maioria de seus colegas, não costuma utilizar a rede de comunicação conhecida, nesta obra, como Wired. Quando uma aluna de sua escola se mata e, um dia depois, envia emails para todos os colegas, a curiosidade de Lain faz com que esta comece a utilizar o computador que ganha de seu pai e descobre, na Wired, uma possível nova versão dela mesma – uma réplica virtual, digamos.

Muitos dos elementos criados e utilizados em Neuromancer estão presentes em Lain – bem como em quase todas as obras cinematográficas de ficção científica que surgiram depois da publicação do livro. O funcionamento da Wired é uma reinterpretação daquilo que Gibson chama de ciberespaço. O termo, cunhado pelo próprio autor, é utilizado até hoje como referência à internet. Mas a Wired e o ciberespaço de Gibson funcionam como uma simulação hiper-realista na qual o usuário visualiza suas ações, podendo ser utilizada para jogos tridimensionais ou apenas para comunicação casual entre colegas de escola, como é o caso em Lain.

Case e Lain, protagonistas das obras aqui mencionadas, têm poucas coisas em comum, mas o universo que gira em torno deles e sua relação com o mesmo são bastante parecidos – fato justificável pelo supramencionado fato de que Gibson influenciou obras de sua área que surgiram desde a publicação de Neuromancer. Entre essas obras, é importante mencionar Ghost in the Shell e a série de filmes Matrix, que até hoje é motivo de discussões entre fãs do autor de ficção científica quanto a suposição de que seria não uma homenagem, mas um plágio da criação original. Case, ao contrário de Lain, é um adepto da rede de comunicação virtual desde antes da introdução de seu personagem à história contada ao leitor. De fato, ele é um informata renomado em seu meio, e muitos o ridicularizam por ter sido impedido de fazer o que mais gosta. Quando a história começa, ele é uma pessoa frustrada que esconde no hábito de usar drogas sua vontade inegável de voltar à atividade ilegal que exergia anteriormente ao início da história. Lain é ridicularizada apenas por ser a única aluna de sua escola – pelo menos em relação ao que conhecemos de todos os personagens apresentados – que não costuma acessar a rede. Embora o uso de drogas seja constante em Neuromancer, ele não é tão comum em Lain e, portanto, será considerado um elemento menor como comparativo entre as duas obras.

Por ser tão importante para o desenrolar da história que nos é apresentada em Lain, mencionarei primeiro a descobera de sua outra personalidade em versal digital na rede que ela recentemente descobriu quando assistimos aos primeiros episódios da série. Como a Wired é uma simulação hiper-realista de comunicação entre seus usuários, o que estes vêem conectados não são apenas apelidos ou nomes, mas versões digitais de sua própria fisionomia. Lain descobre, através de amigos que conhece na Wired, que ela já é bastante conhecida entre eles por ser uma das pessoas mais populares da rede, o que obviamente lhe causa espanto. Não demora a perceber que as pessoas que a reconhecem na verdade estão familiarizadas com um construto de personalidade3 idêntico a ela que se tornou uma garota popular – quase lendária, por tal – entre os diversos usuários. O que parece uma mera réplica de sua fisionomia descobrir-se-á, ao longo da série, uma personalidade inteira construída na rede.

Em Neuromancer, construtos de personalidade já são caso comum para o protagonista, Case. Um de seus melhores amigos do tempo em que costumava invadir espaços virtuais no ciberespaço falecera há um tempo, mas ele continua vivo em um chip que armazena sua personalidade no que se chama construto. Ao conectar-se a ele, Case consegue manter conversas fluentes tais quais fossem realizadas pessoalmente com seu amigo. Este o auxilia em diferentes missões exigidas pela companhia que permitiu seu acesso à rede. Outra ligação importante entre as duas séries começa aqui: assim como o construct, chamado Flatline McCoy, guia Case por suas missões na rede e seu entedimento sobre o que acontece ao seu redor, o constructo de Lain auxilia a Lain protagonista (ou seja, a versão física, tangível, da mesma pessoa) a entender os fatos que descobre pouco-a-pouco sobre si e sobre o mundo.