Perto do lago tem uma sombra. Perto da sombra encontram-se pessoas. A presença de pessoas, todas menos uma, sempre me desagrada. Todas menos uma cuja presença me salva do desagrado que tantas vezes é todo meu eu, ou quase todo; sobra aquele resto do eu anterior apenas para sofrer com o desagrado.
E sento sozinho meu apartamento impecavelmente limpo, limpo para mim, para agradar meus olhos e meus pés descalços, e pela primeira vez na vida desejo que o telefone toque. Desejo ouvir a voz dela, mesmo transmitida de longe, desacompanhada da vista de seu rosto, do toque macio de sua pele, daquele abraço que me lembra amor. Odeio telefone, traz vozes de pessoas, mas hoje quero que ele toque e quero que seja ela.
Molho as plantas, toco as sombras sob cada uma, sinto a umidade e sei que as fiz feliz hoje, como elas têm feito por mim. Meu cactus, minha gata e as cachorras estão longe e as novas plantas me cuidam quando cuido delas. Não me trazem sanidade, me trazem a própria vida com suas próprias vidas. Matendo-as vivas fujo da morte que meu apartamento seria sem elas, mesmo comigo aqui.
O telefone toca. Ela também quer minha companhia, também precisa de um abraço. Diz que está triste e diz que está no parque.
-Me espera aí, chego em poucos minutos.
-Te encontro onde?
-Perto do lago tem uma sombra. Me encontra perto da sombra, a sombra é um lugar agradável. Talvez o último deles.

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