não há nada de político no mundo e não há nada de político em mim. se um dia eu vir a mandar uma mensagem, ela será clara e não ser aterá algum tipo de protesto banal, mas um clamor de ódio a toda a existência. talvez seja o único meio de ser justo, realmente. mas de certo morrerei com um sorriso cínico estampado no rosto, e se houver um pouco de respeito ainda no mundo meu túmulo será um lembrete distante - talvez encoberto nas matas de uma ilha ou afundado em meio ao oceano. que importa agora é suportar, se é que suporto, os dias correndo um após o outro, com seus estúpidos compromissos, ansiedades, coisas a fazer e pensar. os dias que não correm, mas se arrastam, um empurrando o outro fazendo com que o seguinte seja sempre mais vagaroso. só percebemos o tempo que passou quando vemos o que perdemos nele, mas enquanto o transcorremos, perdendo nossas vidas minuto a minuto, ele prefere vagar lentamente.
essa aula transcorre segundo-a-segundo, e fico feliz em não ver um relógio de parede à minha frente, saber que durante as próximas duas horas estarei sentado onde agora estou causa uma angústia difícil de suportar, e sinto-me compelido a verificar o horário em momentos randõmicos; às vezes a descoberta anima, na maior parte do tempo frustra. imagino se alguém se diverte lá fora, mas durante a manhã isso seria incomum. aliás, o prédio está tomado de zumbis como eu presos às suas cadeiras por sabe-se-lá que forças. talvez devêssemos todos, nós os insatisfeitos e entediados, levantarmos e nos encontrarmos lá fora. acenderíamos nossos cigarros e conversaríamos. talvez sobre as aulas, ou talvez fosse melhor nem pensar nisso. mencionaríamos livros e filmes que nos interessam, contaríamos histórias de nossa infância ou da boemia. eu mencionaria os planos para hoje, outro falaria sobre o próximo fim-de-semana. e quão pouco demoraria para que sugerissem cerveja! daí, já não haveria muito o que ser discutido, a não ser onde. bem, tenho um compromisso. lá perto, lá é possível! sigamos então, e fique para trás a instituição, a sensação de trancafiamento, as cadeiras presas a nossos traseiros antes incapazes de fuga.