You are currently browsing the tag archive for the ‘contos’ tag.
É eu na estrada com o dedão pedindo carona e na outra mão uma placa que diz “OS BRAÇOS DELA”…[ao som de Adagio, de Albinoni, Werner Müller Orchestra]
Se acreditava vencedor, mas a contagem de pontos apontou o desafiante como novo detentor do título.
Um neurocirurgião, um anestesista e um médico residente entraram em um bar… Nem preciso mencionar o processo que a viúva do paciente meteu contra o hospital, né?
Também pudera ser tão sociável; foi concebido durante um grande Gang Bang. Praticamente um universozinho moderno, o guri.
“Estava eu a pensar…” -e veio a mosca lhe incomodar!, gritava-lhe sempre a filha telepata, espirituosa que só.
Por não ter onde cair morto, convencionou-se imortal.
Suspira. Pergunto se está bem, ela diz que não sabe. Você venceu, garota. Estás acima de competição alheia e conquistou minha admiração.
Não, não é o bastante. Tome mais um drinque, mi casa es su casa. – Façamos desta a nossa, então.
Há uma praça aqui perto onde podemos aproveitar o sol, mas não agora. E depois, nós nos esconderemos dele em celas de vidro e concreto.
Mas me dá um abraço, é frio aqui fora. Voltemos?
Não, é preciso zarpar. Congelemos um pouco, tenho um cobertor extra pra ti.
Acendo um cigarro. Fumo metade, jogo a bituca fora. Sujei minha cidade.
Na lixeira, uma pichação: jogue aqui seu lixo, sua mágoa, seu rancor…
No blog da tiele b., ilustrações de alguns dos contos que escrevi às pressas no twitter e republiquei aqui.
De fato, somos todos artistas.
Os adesivos e pichações outrora comuns por postes, lixeiras e traseiras de placas diziam que JESUS VOLTARÁ.
E eu também voltarei.
B.H., filho de pai português, cuja mãe, filha de holandesas, nascera no Brasil, teve dois filhos. Um casal. O menino recebeu o nome Kaspar Hauser e a menina, Hellen Keller. Crianças quietas, por acaso, mas um tanto quanto irriquietas; escalavam os móveis quais fossem pequenos montes para aquela dupla de montanhistas iliteratos, corriam pelo corredor do apartamento tendo como sinal de interrupção apenas eventuais quedas e, claro, nunca permitiram ao pai mais do que dez horas sem uma troca de fraldas.
Ao pai só davam merda, mas davam o tempo inteiro.
O que levaria um homem a batizar seu único filho e sua única filha a partir de crianças consideradas desafios lingüísticos e comportamentais estudados gerações além das suas é assunto que apenas a ele cabe, ou caberia, se vivo; B.H. faleceu há não mais do que três trimestres, deixando a mim a responsabilidade por suas crianças, agora com nove anos, o menino, e sete, a menina. Nenhum deles fala, o que é uma coincidência um tanto quanto engraçada.
Pararam de defecar de forma irresponsável e exacerbada, mas há menos tempo do que imaginaria o leitor: seis meses atrás, eles ainda competiam com os cães sobre a quantidade de despejos fecais emitidos por cada um. Os cães sempre ganhavam, mas isso jamais impediu que os pequenos tentassem quantas vezes mais fossem necessárias.
Hellen Keller e Kaspar Hauser.
Kaspar Keller e Hellen Hauser.
Que bela combinação de nomes!, pensei algumas vezes, jamais ignorando a significância que esses meros fonemas tinham para mim como lingüísta e como ser humano. E que desnecessário devaneio acerca de meras nominações por outro escolhidas àqueles cuja educação dependia de mim a partir do momento em que a tarefa para com tais me foi incumbida! Sim, os teria como meus, os criaria assim e, a meu ver, mais importante, teria por eles o mesmo amor que todo pai tem para com seu fruto germinado. Que não falassem! Que tivessem os nomes que lhes viessem ou que eles mesmos desejassem! Nada mais importava a mim, senão a recém adquiridade paternidade.
Era preciso, ainda, que eu tivesse alguma ajuda. Por mais que me esforçasse, não confiava plenamente na minha capacidade de educar, sozinho, dois infantes voluntariamente emudecidos. Não, era essencial a presença de uma figura feminina na vida deles. Admito, na minha também.
Foi no Departamento de Pesquisa Lingüística da Universidade Estadual localizada nos arredores da cidade que busquei a mãe perfeita para o casal de crianças, e foi em uma esquina movimentada à noite que encontrei e paguei a mulher ideal para me dar, por uma noite, o alívio que eu precisava depois de um longo dia de negações e ameaças de processo por parte de jovens acadêmicas que não compartilhavam do meu interesse em que morassem comigo. Poucos minutos depois de iniciado o coito, vi-me forçado a expulsar a prostituta que parecia ficar excitada com o choro das crianças vindo do outro quarto. Até mesmo eu tinha algum limite na área da parafilia.
Depois de atravessar desertos, corredeiras, a proximidade da morte nos dentes de uma cobra que, mais tarde percebeu, era uma espécie de rato mal-sucedido, ele chegou ao auge da montanha. Sim, passara também por todas as intempéries de escalar uma montanha, o que inclui frio, artrito queimando a palma da mão, canelas arranhadas (saiu de casa de bermuda pra procurar a paz espiritual, deu nisso) e todas essas coisas típicas do sofrimento e esforço que permeiam o caminho do herói em busca da resolução final.
Chegando lá, encontrou o sábio, que nada lhe disse. Dias se passaram assim, até perceber que sua visão turva pelos meses de sofreguidão o enganara: não era um sábio, mas um pico de rochedo deixado ali pelos milhares de anos de corrosão que formaram aquela paisagem. Não, não iria descer e percorrer todo aquele caminho novamente. Decidiu ficar ali mesmo, no alto da montanha. Um dia alguém viria a ele em busca de iluminação, e ele estaria lá para surpreender o incauto com enigmas, charadas, desafios absurdos e o que mais pudesse criar para satisfazer seus próprios caprichos.
Paunocu do segundo a chegar.
