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Enquanto seus olhos corriam pelas páginas do livro, suas mãos confusas tateavam a folha para apanhá-los sem ferir as córneas.
Esse ano devo republicar mais textos de antigos blogs. Não ando sem idéias, mas às vezes encontro umas coisas interessantes nos meus arquivos e seria um meio bacana de relembrar em comemorações a uma década escrevendo em blogs. Segue um que achei meio visceral, enquanto totalmente fictício. sim, eu só escrevia em minúsculas. era um bom costume, na época, mas para leitores inexperientes isso era costumeiramente e erroneamente creditado à influência de bukowski.
quando a revolução começou, eu estava em meu quarto, lendo um livro do ken follet. não tinha televisão, por tanto demoraria até saber do que se passava, já que tudo se organizara em extremo sigilo. eu não fazia parte daquilo, sequer fazia parte dessa merreca de país onde por algum motivo o destino me condenou a nascer. a viver. e, presumo, a morrer. com ou sem homens fardados no poder, eu odiava essa espelunca, mas não desejava sair dela. lá fora a espelunca muda de nome, costumes, bandeira, mas o odor é o mesmo. por isso, quando a notícia veio a mim, nada me ocorreu senão voltar para aquele pequeno apartamento no sul da capital e continuar folheando qualquer amontoado de páginas que pudessem me entreter. e assim descobri-me em um mundo cheio de histórias, divagações, aventuras, dramas, dissertações logísticas e inquisitvas sobre o que há e o que não há, indiferente à pilha de corpos amontoada ao longo das extensões de terra que circundavam meu bairro, minha cidade, e terminavam nas encostas daquela pequena ilha. meu nome não foi e nem será explicitado nos anais da história, deste ou de qualquer outro país. acomode-se em sua espelunca, cuspa o amontoado de saliva amarelada no cinzeiro, e em meio à masturbação leve à boca algumas vezes o copo de vodka para os devidos goles.
Hoje vi o sol a sorrir pra mim!
E é por isso que digo, com clamor:
nunca misture diazepam com álcool.
Depois de atravessar desertos, corredeiras, a proximidade da morte nos dentes de uma cobra que, mais tarde percebeu, era uma espécie de rato mal-sucedido, ele chegou ao auge da montanha. Sim, passara também por todas as intempéries de escalar uma montanha, o que inclui frio, artrito queimando a palma da mão, canelas arranhadas (saiu de casa de bermuda pra procurar a paz espiritual, deu nisso) e todas essas coisas típicas do sofrimento e esforço que permeiam o caminho do herói em busca da resolução final.
Chegando lá, encontrou o sábio, que nada lhe disse. Dias se passaram assim, até perceber que sua visão turva pelos meses de sofreguidão o enganara: não era um sábio, mas um pico de rochedo deixado ali pelos milhares de anos de corrosão que formaram aquela paisagem. Não, não iria descer e percorrer todo aquele caminho novamente. Decidiu ficar ali mesmo, no alto da montanha. Um dia alguém viria a ele em busca de iluminação, e ele estaria lá para surpreender o incauto com enigmas, charadas, desafios absurdos e o que mais pudesse criar para satisfazer seus próprios caprichos.
Paunocu do segundo a chegar.
