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“Seu filhodaputa!”
“…”
“Ce cuspiu no meu olho…”
“Você me chamou de filhodaputa.”
“Depois.”
“Isso importa? Talvez eu soubesse. Multiverso, esqueceu?”
“Não me venha com supercordas!”
“Tooomo um cafeeeé pra não dormiiir…”
“Eu NÃO to falando dessa merda de música. E ce cuspiu no meu olho!”
“Você xingou minha música preferida.”
“Pára de alterar a cronologia da nossa briga!”
“Briga? É isso que ce quer?”
“Não era o que queria quando me cuspiu, desgraça?”
“Eu queria te mostrar algo.”
“O quê?”
“Minha mira tá melhorando.”
“Ein?”
“Lembra fim-de-semana passado, que eu tentei acertar aquela vela com uma cuspida, mas errei por tipo uns dois metros, e acertei seu olho sem querer?”
“Lembro.”
“Pois, então. Tenho treinado. Dessa vez mirei no cabelo… Acertei o olho. Bem perto.”
“Sério? Sério mesmo?”
“Sim, minha mira ta melhorando consideravelmente.”
“Nossa… Isso quer dizer que…”
“Hum?”
“Mirando outras coisas…”
“Sim, tenho treinado quando gozo, também.”
“Então não vai mais acertar meu cabelo com essa coisa gosmenta?”
“Podemos tentar.”
“Então vamos.”
“Onde devo acertar dessa vez?”
“Na boca. Direto na goela, mas se errar nos lábios não tem problema.”
“Feito.”
“Só não acerta no olho, ta?”
“Vou tentar. Mas fecha, por garantia.”
… namoros que acabaram no pior timing possível.
Ele estava pronto para sair do armário.
Ela estava pronta para ser penetrada em um lugar bem desconfortável.
“Quero lhe contar um segredo.”, ela disse. Eu não sabia se estava pronto para aquilo. Sem olhar para ela, caminhei até o chuveiro e tomei um longo banho. Vesti minhas roupas enquanto ela estava na cozinha, fazendo sei-lá-o-quê, e fui embora.
Eu o amava, e não podia esconder dele o que havia feito. E se eu estivesse grávida? Bem, era paranóia, mas me passou pela cabeça. Não estava. Ademais, ele foi embora sem nunca saber, e de certa forma me pareceu melhor assim.
Seria a ignorância uma benção?
Talvez ele pudesse entendê-la e tudo ficasse bem. Talvez perdesse a confiança nela e passassem alguns meses ou anos postergando o fim inevitável. Talvez tudo acabasse ali mesmo, o que aconteceu de qualquer forma.
Uma vida inteira de dúvidas para ambos. Nada de benéfico em tantos desconhecimentos.
Ela cuspiu enojada à primeira tragada do cigarro ofertado pela mulher sentada à direita. Sentiu a ameaça advinda da garganta; não queria tossir em companhia do namorado, então assumiu momentaneamente o deselegante hábito que jamais toleraria nele.
A outra mulher encenou indiferença ao pedido de desculpas dela e deu continuidade à conversa com o grupo em torno de sua mesa.
—
O casal chegara no restaurante havia pouco e optaram por uma mesa na área externa, onde poderia observar a movimentação na rua, conversar despreocupadamente e fumar os cigarros que ele esquecera de comprar. Tão românticos e desesperados lhes pareciam os pares a dividir um guarda-chuva. Risonhos, acalorados e escapistas.
Ela não construíra, em sua mente, uma noite perfeita na qual reuniriam-se todos parentes e amigos dela e todos os parentes e amigos dele a expressarem publicamente o testemunho profético de uma vida perfeita a dois; tinha plena consciência das intempéries do amor em descoberta. Via nele um homem que a impressionava enquanto mistério, que mudaria por detalhes perceptíveis e que a ensinaria tanto quanto o tempo por eles partilhado permitisse.
Ele arrancou dela as perguntas que dispusesse a responder e as vestes que prometeu devolver.
—
Para não decepcioná-la, comprou o cigarro de sua escolha e ignorou o súbito desejo de expelir na calçada saliva pois conhecia como execrável tal atitude. A imagem elegante construída para ela não poderia ser cortada por lampejos da grosseria juvenil que não mais tolerava.
Quando outro membro da mesa ao lado ofereceu-lhes o convite para juntarem-se a eles, o casal decidiu sem troca de palavras num breve mas alinhado olhar e ele agradeceu negando, como era a boa prática.
Satisfeita pelo conjunto da obra social, acariciou a mão dele com a própria, e ele decidiu: casariam-se em breve.
—
Discorreram sobre os encontros e desencontros que os levaram àquele lugar e sentimento conjuntos, concordaram a conclusão de que aquele era o ponto de intersecção de suas vidas e reacenderam a teoria de que entre o bueiro e o paraíso existe apenas interpretação.
À sequência de um entreolhar, aceitaram com sorriso e menear de cabeças o guarda-chuva a eles oferecido por um rapaz da mesa ao lado e caminharam sob a proteção da tela até o carro que os aguardava à frente do restaurante, ambos pensativos e esperançosos.
A vantagem de não se ter uma estação definida é que você não recorre à insignificância de escrever sobre a estação vigente e, com algum esforço, ignorará ímpetos nostálgicos de escrever sobre as belas primaveras da infância. Que diabos é primavera para uma criança? A flor desabrocha e você imagina o que se esconde sob a saia da amiga da prima.
A estação então é puberdade.
Perda da inocência para os simbolistas, puritanos e outros analfabetos funcionais munidos de papel e caneta.
Falarei então dos belíssimos trevos que notei hoje – e como somente os notei? – no jardim que atravesso diariamente em meu trajeto a lugar qualquer. Verde, brilhante sob o sol que atravessa a nublagem com esforço, remetente a momentos letárgicos. Basta um vento para que alguém obedeça ao impulso natural de arrancar do corpo os tecidos que o cobrem e entregar-se à ilusão de ser derradeiramente um com a natureza da qual veio.
Que vento e de onde viria, não sei dizer.
A estação é liberdade, mas o céu está encoberto.
É tempo para a colheia apressada de cevada liquefeita belga. Tempo ideal para andar descalço, de bermuda, saboreando cigarros e companhias refrescantes; época de preocupações momentâneas.
Ouvi vós tango? sem choro, usando os contrapontos ao sabor do ouvido e da alma. Fazei bom uso dos chapéus de palha, escondei o couro cabeludo que cobre o crânio que não cobre as despesas do trabalho dentro dele exercido.
A estação é espontaneidade.
Base de milonga te acompanha enquanto… – entra a percussão suave interrompendo considerações descabidas. Considerai a infinitude de eventos que trouxeram ao momento presente tua percepção do que vives, lês, sentes. Lembras de tudo? De cada estação? Fortuitamente, não. Tamanho reconhecimento de tempo vivido é certeza de uma vida ignorada enquanto acontecia. Toda vida alheia te interessaria e serias dependente de ficção, contemplação ou limitação.
A estação é insanidade.
Absorvemos histórias alheias, bizarras, incomparáveis às nossas. Um rapaz que passara a infância sob a vista de um tarado, outro masturbava-se à companhia da mãe. Logo se percebe a série de lembranças remotas e confessam-se as recentes. Melhor gozada: aquela que virou massagem na qual o creme ejaculado serviu como óleo. Deus quer saber mais. Um michê carinhoso tocou a alma do rapaz (não muito) exigente. Uma garota com fetiche por ânus lambera o heterossexual até sua intimidade. Nomes de celebridades estampados no terceiro olho, marco entre olhos e linha capilar; uma série de adivinhações frustradas e histórias aparentemente desconexas que induzem ao estranhamento conjunto e às gargalhadas.
É a estação da verdade, e a verdade é que tem mais ceva na geladeira.
- Escreve algo engraçado pra mim, Coi!
Enfiei a caneta em seu olho e ela não gostou.
- Desenha algo bonito pra mim, Coi.
Desenhei meu rosto com gozo em seu dorso e ela não gostou.
- Faça algo por mim, Coi!
Comprei passagens pra longe, num barco, e ela não zarpou.
Assim, descobri o Amor.
“I’m the D.B. Cooper of jumping off from relationships.”
-J.P. “Coiote” Flores
‘Droga!’
‘Que foi?’
‘Tenho que ir embora.’
(bocejos, de ambos)
‘Agora?!’
‘Sim, sim. Trabalhar.’
‘Achei que ce não trabalhasse…’
‘Eu? Trabalho… trabalho muito. Justamente hoje tenho que ir mais cedo, resolver umas treta.’
‘Perai, ce mentiu pra mim.’
‘Ein?’
‘Disse que tinha o dia livre, ontem mesmo.’
‘Sim, tinha o dia livre ontem. Foi bom, tive a honra e o prazer de te conhecer, guria.’
‘Ontem ce disse que tinha o dia livre HOJE, meu.’
‘Olha, eu me enganei. Che, que é isso?’
‘Ce é um canalha. Só queria minha cama.’
‘A gente dormiu no sofá.’
‘Não, eu dormi no sofá. Por causa do seu ronco, lembra?’
‘Ah, sim. Foi mal, mas aquele seu narguille me estorou as via.’
‘Sei. Vai com essa camisa do Emperor pro trabalho?’
‘É, quando se tem as responsabilidades que eu tenho, bem, sabe como é. Que diferença faz a camisa?’
(bocejo dela)
‘Guria, posso te ligar quando sair do escritório? Adorei te conhecer.’
‘Pode.’
‘Fui!’
(beijo nela)
‘Cê não vai nem anotar meu nu…?’
(pula da janela)
Mãos ao teclado.
Tela do computador.
Corta para ele, o rosto iluminado pelo brilho da tela.
Close na tela.
Ao lado da figura de uma menina, um post breve: Finalmente posso dizer que sou uma mulher completa. Agora sei que sou realmente amada. E foi o <Protagonista> que me ensinou isso.
Corta para o rosto dele, olhos arregalados. Close no suor deslizando pela têmpora.
Corta para uma mão buscando um casaco. Outro para a touca sendo vestida frente ao espelho.
Exterior. O homem corre.
A trilha? Lust for Life, é claro.
De suas delicadas feições, de como tentou me ensinar a dançar, de algumas lágrimas causadas, segundo ela, por mim, lembro.
Lembro até de seu nome – prefiro não mencionar – e se alguém quiser saber, lembro da camisinha que estourou.
Meritíssimo, lembro de tudo, mas anotei seus dados bancários e endereço em um pedaço de papel que ficou no bolso de trás da calça que ficou no apartamento de alguém cujo nome, feições e gênero me fogem completamente à memória.
Se não fossem essas insistentes audiências, talvez eu pudesse memorizar tudo com mais facilidade. Toda essa burocracia me deixou confuso e sou obrigado a dizer que, se há algo ou alguém a quem culpar diretamente por minha suposta negligência, não sou eu ou meus atos.
Sugiro, pois, que agendemos uma nova data para discutirmos os termos do compromisso…
(excerto)
“Quando abri os olhos, ela passou a mão entre meus cabelos e sorriu para mim. Nos abraçamos e ficamos imóveis e semiacordados por alguns minutos, então pedi a ela que me permitisse preparar seu café.
Ela sorriu novamente, disse que eu não deveria ser tão gentil com todas as mulheres a entrarem em minha casa e finalmente confessou desejo de tomar um chá.
Ao entrar na cozinha, o reflexo do hábito me fez estender a mão sobre a mesa em busca de um maço de cigarros que, obviamente, não estava lá. Eu parara de fumar duas semanas antes e os últimos pacotes comprados haviam sido distribuídos casualmente entre amigos em visita.
Quando terminei de preparar o chá, tudo voltava à memória: a experiência da namorada, o modo como ela me tratava, o sexo; o agente que a indicara a mim, nossa breve negociação por escrito, o preço nunca mencionado. O fim-de-semana chegava ao fim e ela encerraria sua atuação. Eu voltaria a passar os dias sozinho escrevendo artigos para uma coluna razoavelmente interessante no jornal local e, alguns dias depois, me esforçaria, em vão, a ter por outras mulheres a paixão e carinho que dedicava a ela.
Não sabia como me referir a ela. Uma prostituta, uma atriz visceral interpretando atitudes cotidianas, uma amiga? O fato de que havia um preço a pagar não torna o relacionamento menos verdadeiro. Há mais honestidade em nosso arranjo do que em boa parte das amizades que vivenciei ou testemunhei, todas sempre em busca de algo em troca, de um companheirismo por necessidade, de algum tipo de favor ou apenas de uma ocasional sensação de segurança em meios sociais.
Aquela mulher merecia muito mais do que o módico pagamento intencionado por mim, mas certamente não deveria assustá-la ou ofendê-la resumindo nossa relação a uma entrega de presentes caros tal qual o fazem tantos homens ao tentarem dobrar o espírito de uma mulher para fazer dela seu pertence, um novo item em uma coleção de adornos.
(…)”
-os caminhos cósmicos que levaram ao encontro de nossas almas…
-como?!
-estou me referindo à sincronização perfeita do universo que levou ao nosso encontro, entende?
-ah…
-é maravilhoso que tenhamos tantos agentes, de todas as forças ligadas a uma força maior, favorecendo o nosso amor…
-também acho, meu bem, também acho.
-nossa união não está selada, ela é selada, pois vem desde os princípios dos tempos, desde os primórdios que antecedem a própria criação.
de fato, alguns líquens dão certo.
-não desiste, ces têm que continuar juntos.
-por quê?
-porque ainda há tanto pelo que lutar, pensa nas coisas boas…
-hum…
-em todas as vezes em que vocês se apoiaram, todas as vezes em que, depois das águas passadas, tudo acabou bem, nos dias em que ela alimentou-te quando precisavas e nas noites em que tu deu abrigo a ela…
-olha, eu pensei muito nisso, e sei o que to fazendo.
-tem certeza?
-tenho.
nem todos os líquens dão certo.
-eu só queria alguém em quem pudesse confiar, alguém para quem pudesse dar e de quem pudesse receber, alguém que…
-olha, eu só quero ficar quieta aqui na minha, escorada e aproveitando o que vier, tá bom .
-sua indie fodida e insensível.
nem todos os liquens dão certo.
-mas porque?! achei que a gente tinha um lance legal…
-é, gosto de ti, mas esse relacionamento não vai nos levar a lugar nenhum.
se fungos e algas se locomovossem, a lisergia teria tomado rumos completamente diferentes. e alguns líquens teriam dado certo.
-uma mão lava a outra, certo?
-hm não é bem assim…
-como não?
-to caindo fora, pode me chamar de parasita
-malditos transgênicos
alguns líquens não dão certo.
-ainda podemos ser bons amigos
-não sei não…
-como não?
-olha, tu mesma disse que mesmo que tua sobrevivência dependesse de mim, tu não ficaria comigo. e agora, quer me tirar pra amiguinho?! vai se f…er sua …dia!
nem todos os líquens dão certo.
-quero sentir teu corpo contra o meu…quero sentir você dentro de mim…quero que juntos sejamos um
-foi mal, mas teu estilo de vida não me atrai
o fungo ficou ali no seu canto, a alga se foi. nem todos os líquens dão certo.
-alguém tem que tomar as rédeas no nosso relacionamento…
-também acho
-então, te dispõe?
-não sei não…não curto a responsabilidade. tu parece ser mais sensato
-não…sou muito desligado com essas coisas…
-melhor desistir enquanto temos tempo então
-é…mas foi bom te conhecer.
a alga foi pro seu canto, o mesmo com o fungo. nem todos os líquens dão certo.
‘tenho certeza que tu não me ama mais.’
‘e o que te faz pensar que amei um dia?’
‘por que tu age assim comigo?!’
‘já pensou que talvez o problema não seja eu?’
‘fiz alguma coisa errada?’
‘o que é certo? o que é errado? sinceramente, como saber qual é qual quando…’
‘quer saber? desisto de ti. eu devia ter ficado com o pedrinho mesmo.’
ah, a retórica! método infalível para escapar de uma enrascada.
A mulher ao lado me olha, meio de canto. Parece interessada, tenho quase certeza que quer alguma coisa comigo.
Ela passa a mão próximo ao seio, sobre a blusa, rapidamente. Olho de canto e desvio o olhar.
Volto com outra cerveja, sento no mesmo lugar de antes. Há algo de diferente nela. Sim, desabotou pelo menos um botão da blusa. Não prestei muita atenção antes, mas disso tenho certeza. Talvez tenha ajeitado o vestido para mostrar um pouco mais as pernas.
Ela vira a cabeça levemente, deixando o pescoço à vista por alguns instantes. Depois volta a olhar para a frente, fingindo que não sabe que já notei o que está fazendo.
Aproxima-se de mim até estarmos a menos de um centímetro de distância, perna-a-perna. Virando-se levemente para mim, ela coloca uma das mãos sobre minha coxa e aproxima o rosto de meu ombro.
Com um movimento rápido, usando apenas uma mão encostada em sua cabeça eu a empurro de volta para o outro lado do sofá e retomo o joystick.
O que diabos eu tava pensando quando pedi essa mala em namoro?
