relato de sonho: intervalo em boas companhias

Acabei de vir da Terra de Oneiros onde eu improvisava um som no violão com uma galera massa em algum apartamento pelo centro da cidade, onde fui parar depois de ir até uma espécie de depósito seguro do local onde trabalhava (eu estava no intervalo) pra pegar os cigarros e dinheiro que tinha guardados ali.

Chegando no apartamento, pediram pra eu tocar um som e alguém à minha esquerda alcançou o violão e fiz improvisos horríveis e desesperado por tocar mal/errar músicas et cetera. Toquei uma caída Dó-B-Am-G-F-F-G-G7 (umas brincadas com Fm e e Gm) e enfim, só lembro de algo que deveria ser Wonderful World e Crazy, do Aerosmith, quando passei o violão pro Bon Jovi que estava no sofá à minha esquerda, mas não demorou muito pra que o Bowie estivesse ali, todo sorriros (como também o queridíssimo Jovi). Ele parecia estar procurando uma palheta e claro que ofereci uma, aí torci pra que ele achasse a dele porque eu nem tinha uma.

Fiquei preocupado porque minha uma hora de intervalo estava prestes a acabar, mas sabia que ninguém reclamaria quando eu dissesse que tava fazendo um som com o Bowie, mas também queria aproveitar os minutos finais pra tomar um half pint de Black IPA no Armazém Porto Alegre, pra onde estava indo quando encontrei Danny Fields e outras pintas que me levaram até o tal apartamento.

Aliás, a subida em direção ao Armazém foi algo bem estranho e legal. Não era na Borges, mas numa avenida muito mais íngreme, e de vez em quando eu começava a cair, e me esforçava pra seguir subindo. Logo ouvi o som de metais de sopro à esquerda, era a apresentação de algum importante grupo estrangeiro infantil, e diminuí o passo pra ouvi-los enquanto subia.

Bem, o Bowie respondeu algo que significava ter a palheta ou não precisar, e respondeu em português, mas a frase era um pronome mais uma palavra composta de duas de duas sílabas que não me recordo precisamente como soava.

Acordei, aqui estou e tem café passado pra tomar.

Wake up, sleepyhead
Put on some clothes,
shake up your bed

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às(aos) mestres, com carinho

Dia do Professor e penso imediatamente no Professor Ogoid. Professor porque ele muito ensinou a meia dúzia de nós que, ao longo da segunda metade dos anos noventa, começamos a formar nosso grupo de amigos da adolescência. E Ogoid porque seu nome é Diego e, segundo próprio, a frequência com que um Diego é erroneamente chamado de Diogo só é equivalente à com que um Diogo é chamado de Diego. Acabou ficando Ogoid e mais tarde recebeu o título de Professor, embora também o chamassem Xamã, e ele mesmo assinasse como Yoshi.

professor sendo imobilizado por policial militar durante protesto em Curitiba, 2015

Nos conhecemos em 1996, quando, por sorte nossa, ele teve que repetir de ano e foi parar na nossa turma. Não sei quantos dias, semanas ou meses levou até trocarmos nossas primeiras palavras. Éramos alunos quietos, que sentavam no fundo, lendo livros de nossas escolhas, escrevendo desatentos às aulas. Às vezes, eu, ele e CP (agora professor) nos encontrávamos na mesma zaga, quando tinha futebol no período de Educação Físico, os três faziam parte dos últimos a serem escolhidos. E ficávamos parados lá discutindo quadrinhos.

Foi naquele ano que prometi a Ogoid que quando publicasse meu primeiro livro, seria dedicado a ele. É óbvio que não esqueci.

professor ensanguentado cercado de policiais militares em protesto em Curitiba, 2015

Mas hoje é dia do professor, e ele não é, tecnicamente, um professor. Ele foi pra mim. E sei que tem em meus círculos de amigues educadores(as) aos montes — e que bom! Elisa, Gustavo, Natalia, Re, Luan e muita, muita gente mais. Perdoem as poucas citações, a falta de. Tem gente que já lecionou e não leciona mais. E tem gente graduando pra dar aula. Haja fé! Mas sei que é mais do que isso. É é no poder de ensinar e naquilo que vocês amam e querem conhecer o bastante pra passar adiante. Eu mesmo nunca me dei bem na Licenciatura, e já tinha largado as cadeiras lá muito antes de admitir que academicismo não é pra mim. Daí que vem necessidade de pessoas como você as professoras Tomázia e Mariângela (professoras de português no Sta. Dorotéia e no Anchieta, a quem agradeci em segundo livro, já que a logística me obrigou a tirar a página de agradecimentos do primeiro): tem sempre uns aloprado com dificuldade de foco que nem eu. E tem esse ou aquela aluna, sei lá. Não imagino nem de longe os terrores e prazeres desse mundo, mas parabéns pra todos(as) vocês.

Feliz dia do professor!!!

Professora enfrentando cerco de policiais militares protegidos por escudos

PS: não consigo parar de imaginar o Ogoid agora, levantando a cabeça momentaneamente, um braço ainda apoiando o caderno, o outro firme ao lado da cabeça, lapiseira apoiado na mão que completa esse braço, olhando para o lado até pensar em algo e soltar um “Ah!”, dedo com lapiseira em riste, ajeitando uma madeixa dos longos cabelos pretos atrás da orelha enquanto se abaixa, agora com a palavra que lhe fugira devidamente encaixada no texto inacabado, e dando continuidade. Porque desde que o conheci, Diego F. “Yoshi” Jost nunca ficou um dia sem escrever, até onde sei. Obrigado, Professor!

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me poupem

Faz pouco mais de um ano desde que decidiram que Nobel de Literatura não deve ser sobre literatura, mas sim, agradar fãs. (e fãs de Dylan, que somam na Escala Beatles de Fãs Insuportáveis um 7/10).

Me poupem. Inclusive tava defendendo a escolha até perceber que é uma trouxice sem tamanho e que pra literatura não tem valor alguém, que era a única coisa legal do prêmio nobel.

Não é por nada, mas pelo que li em “Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo”, de David Foster Wallace, o Federer comprova cada loucura teórica física jogando tênis (e mesmo pra quem vê pela televisão, que praticamente perde todo o jogo). Mas não quer dizer que mereça o Nobel de física. Não enquanto for um jogador de tênis, pelo menos. Nunca conversei com o rapaz sobre seus planos pro futuro.

Que há valor literário nas letras do Bob Dylan, não tenho dúvidas. Espero que não tenha sido só na música que tenha sido uma influência positiva pra muita gente.

Mas de que vale dar a ele o prêmio Nobel da Literatura, que sempre foi dado a nomes da literatura? Como isso vai ser bom para a literatura? O mercado vai vender livros dele ou sobre ele, beleza. Então é bem o que eu tava pensado: essa premiação é pra fãs de literatura que são fãs de Bob Dylan. É pra agradar seus fãs, que são muitos, ou pra agradar a indústria fonográfica, que é outra, e nada tem a ver com o mercado editorial-literário e divulgação da literatura.

Portanto, ano que vem não vai ter escritora polonesa traduzida direto para o português. E sabe-se-lá-quando tu vai ler ou ouvir falar de alguém da Belorrúsia (ou Belarus) de novo! Mas tudo bem. Vai que o Dylan aparece na próxima FLIP e só isso já valeu porque “wow E*L*E vem pra FLIP”.

Okay. Seria hipócrita falar mal de endeusamento de ídolos porque eu fiquei assim ao saber que o Welsh vinha pra FLIP desse ano e queria vender tudo só pra ir conhecê-lo. Mas ele, ao menos, é um grande escritor e mostrou pro mundo inteiro várias realidades (e sotaques!) da Escócia através da literatura. Algo parecido com o que o Dylan fez, com a história dos E.U.A., mas através da música.

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to fascinado!

quem não assiste rick e morty e não quer assistir rick e morty está se negando a um prazer, se alienando da mais alta produção em animação humorística da história e, claro, se entregando deliberadamente a uma vida de miséria e merece por tudo isso todo sofrimento que lhe vier e pelo qual optou.

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lembranças da infância

Minha infância foi marcada por não entender como gostavam daquelas fitas cassete que eu via pelos quartos de irmão, primos e primas, e porque ro-que-se-te se escrevia com aquele X e um T a mais; por um culto a uma série que eu assistia provavelmente também ser entender muito mas querendo saber quem matou Laura Palmer, mesmo sem ter a menor idéia de quem fosse a moça; por Brandon, Brenda, Dylan e Donna ganhando toda a atenção nas tardes de domingo quando eu ainda preferia esperar pelos acessórios maneiros e as histórias talvez nem tão maneiras de Changemen, Jaspion, Flashman, Cybercop e Jiban; pela minha fita do Julio Iglesias que eu dizia gostar porque me sentia à parte do mundo sem saber o que gostava e precisava ter algo, mesmo que aleatório, e não entendo a tristeza do meu pai em relação a mim quando a mesma foi roubada junto com seu carro, quando a emprestei pra ele.

Pra ser honesto, pouco lembro de minha infância, exceto a alegria de ganhar o Mega Drive que substituiu o velho Atari 2600 e o companheirismo das locadoras com as quais trocava fitas, além de poder jogar pessoalmente com outras pessoas em uma, cujo dono também me emprestava suas fitas e cujos caras mais velhos eram legais comigo, então uma novidade, visto meu irmão estar indo pra adolescência e já não ser mais tão frequente o convívio com primos.

Lembro de andar pela rua e às vezes imitar personagens dos filmes que gostava, tipo O Policial em Apuros ou algo parecido, pulando com os braços pra cima, e ser criticado e xingado pela família por comportamentos ditos inadequados.

Lembro da sensação de solidão antecedendo à puberdade, além de problemas sérios de bullying que envolviam agressões física e psicológica, além do desrespeito a tudo que chamava meu, de bens materiais a gostos pessoais, e da omissão da família. Lembro de ser outra vez resgatado por pessoas mais velhas que deliberamente me faziam companhia e se tornavam minhas amigas e me faziam sentir admirado e bem quisto.

Lembro de ler Stephen King e ter na literatura aquele mesmo prazer que eu descobrira suceder os pesadelos, de como o medo é uma sensação incrível, ao menos quando nós o escolhemos,

Lembro dos tênis Redley e longas bermudas e skates, dos quadrinhos da Marvel que me foram apresentados por um primo mais velho, que viria a ser desenhista e devem ter dito alguma influência na minha vontade de contar histórias.

Lembro de nenhum de voces estar lá e lembro de toda minha infância, mesmo o melhor dela, sem qualquer saudade porque o que foi, foi, e nenhuma angústia ou decepção da vida que seguiu a infância vai me fazer querer menos esta e mais aquela.

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A Cidade é Minha Tumba

do livro O Diabo Belisca Meus Calcanhares, de Cristian Verardi, publicado pela Editora Artes & Ecos, 2017.

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Contos Curtíssimos: especial Bíblia

“E meu plano teria dado certo se não fosse esse casal de velociraptors enxeridos”, disse Noé logo antes de ser devorado.

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