sessenta-e-cinco (parte primeira)

Sessenta-e-cinco anos – as linhas de seu rosto e o modo de falar não mentiam a idade. Sessenta-e-cinco anos e um cigarro. Fazíamos parte da mesma classe de alunos e Língua Portuguesa e Redação e eu começava então meu segundo ano na Faculdade de Comunicações Sociais. Antes mesmo de sairmos da sala ela veio a mim com o cigarro na mão esquerda e perguntou se eu tinha ‘o fogo’. Peguei o isqueiro do bolso, caminhando ao lado dela, e mesmo tendo pedido direto e unicamente a mim ela pareceu surpresa ao descobrir que eu também fumava. Acendi o cigarro dela e seguimos juntos pelo corredor até a saída, onde acendi o meu.

‘Dubreau.’, lhe disse.
‘Como?’
‘É meu nome, Dubreau.’
‘Isso não me interessa muito, realmente.’
Dei duas tragadas fortes, constrangimento e ressentimento misturavam-se em mim, e ela continuou:
‘Tu és gentil e fumas com classe, isso me importa.’
‘Não sabia que eu tinha classe pra isso.’
‘Mas tem, e é nos pequenos hábitos que se percebe a elegância de alguém. Tu disfarça bem o nervosismo, enquanto muita gente acende e fuma cada cigarro como se estivesse atrasado para um compromisso urgente – e acredite, esse tipo de compromisso nem existe, senão sequer seria agendado. Não sei quanto ao resto mas nisso tens classe.’
‘Bem, obrigado, então.’
‘Clarissa.’
‘Prazer.’

Acenou a cabeça levemente num adeus e saiu caminhando, sem mais palavras.
Não pude deixar de pensar nela durante o resto do dia – e pelos dias que viriam, também. Lembro de chegar em casa, ainda cansado dos cinqüenta minutos dentro do ônibus, metade deles em pé, e ficar imaginando se ela já estaria em sua casa então. Casada? Será? Que homem poderia domar tal iguaria, provavelmente numa idade jovem, e estar ainda ao lado dela depois de algumas décadas? Difícil imaginar quem merecesse. E onde ela mora? No clássico bairro boêmio onde apartamentos de idosos misturavam-se a casas aos poucos tomadas por estudantes e jovens graduados? Ela parecia original demais para isso. Mais importante; poderia ela estar pensando em mim como eu nela? E pronto, percebi a ereção. Mal conseguia conter-me em minhas calças, e talvez durante um segundo tivesse sentido vergonha por isso mas não foi de qualquer importância. Tinha a imagem dela fixa em minha mente, e cada vez que a via dando uma tragada no cigarro preso entre seus lábios já cercados de riscas rugosas, meu pênis latejava ainda mais. Livrei-me de cinto, braguilha, calças em segundos; já massageava o pênis com a mão esquerda enquanto a outra desabotoava a camisa. Mal percebia meu quarto; o rosto dela tomava minha concentração, seu corpo ao lado do meu, a proximidade… Caminhava trôpego em direção à cama e, já despido, deixei-me cair sobre o leito e fechei os olhos.

Em minha mente, ela jogava o cigarro para longe e se movia contra mim num instante prolongado – puxava meu pescoço com uma mão, a outra em meu quadril, e os finos lábios abriam-se para sua língua invadir minha boca. Ela massageava minha língua com a sua vorazmente, tinha a ferocidade de toda sua libido naquele beijo. Chupava, mordia, beijava meu pescoço e voltava para a boca enquanto seu corpo pressionava-se cada vez mais contra o meu – meu pênis já sentia por baixo de nossas vestes sua virilha e tentava em vão encontrar-se com o sexo dela. Agora era eu que me apertava contra ela, acariciava suas costas com ambas as mãos; beijava-a também pescoço, lábios, o peito à altura dos seios. Quando ejaculei, e pareceu ter sido a ejaculação mais prolongada que eu tivera nos últimos anos, ainda respirava sôfrego, perdendo o fôlego. Mal podia acreditar na paixão que se apoderara de mim, e já pensava em quando a veria de novo. Entre muitos goles de água gelada, era tudo em que conseguia pensar.

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