estudos e filiação

    Lembro de ter passado o final de minha infância, entre meus dez e doze anos, criando histórias nas quais uma criança de uns onze anos assassinava todos seus amigos para depois de matar. Acho que só sobrevivi no Anchieta porque tive a sorte de encontrar pessoas como eu; não dementes revoltados com a existência humana, mas outros que, como eu, não se encaixavam nos padrões comportamentais que a moda impunha à grande parte dos nossos colegas. Você não fazia parte do grande grupo de pessoas consideradas legais se não vestisse roupas caras da moda surf, usasse esteróides ou fumasse maconha – e acredite, tanto os pais quanto o corpo docente querem que você se encaixe. Eles não defendem quem defende a própria individualidade, porque para vencer no sistema você precisa se encaixar nele. Eles não se importam se pra isso é necessário deixar de lado toda a noção de ética que você tenha desenvolvido, contanto que você triunfe na competitividade inerente a uma sociedade capitalista. Tudo que os pais querem é poder dizer para seus amigos e colegas de trabalho: ‘Ah, sim, meu filho se deu muito bem! Foram quatro anos de faculdade vencidos à custa de muita cocaína, e depois de trabalhar das oito às oito ele finalmente foi promovido passando por cima de todos em seu caminho. E claro que ele ainda arranja um tempo para embebedar e meter algumas garotas porque, claro, ele é muito macho que nem o pai e o pai de seu pai’.
    Sim, eu estudei num colégio que permite – talvez até incentive – o comportamento competitivo e leviandade entre seus alunos. Dificilmente se incomodavam com os alunos que se envolviam em brigas, compra e venda de drogas ou qualquer outro tipo de comportamente destrutivo fora do horário de aula. Mas se você fosse visto conversando ou discutindo a política docente ou assuntos gerais de temática social, eles ficavam realmente preocupados. E aí não importava se tu era aquele aluno preguiçoso que faltava aula pra dormir ou fumar cigarros ou se tu era o sucesso acadêmico que só tirava notas altas e jogava role-playing-games no tempo livre; o que importava é que você não estava se encaixando. E eles querem que você consiga fazer isso porque é preciso se preparar para o mundo – é com você que eles estão preocupados então. Não com o pagamento. Com seu futuro. Não com a importância, para eles, de sua permanência naquela escola, mas com seu futuro e com o que seus pais esperam de você – eles só querem que você vença neste mundo terrível e brutal que estão lhe dando de presente.
    Eles devem me considerar um tanto ingrato.

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2 respostas para estudos e filiação

  1. grazi. disse:

    não sou daquelas pessoas “contra o sistemaaaa!!!!”, mas essa coisa de perder sua individualidade para “vencer” na vida nunca me convenceu.
    “…you’re not how much money you’ve got in the bank. You’re not your job. You’re not your family, and you’re not who you tell yourself…. You’re not your name…. You’re not your problems…. You’re not your age…. You are not your hopes. ”
    por isso que eu amo fight club.

  2. fórã disse:

    vocÊ que não se enquandra nos padrões comportamentais da sociedade aristocrata adolescente: pô, valeeeu, hein!

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