dilemais morais

estava lendo a revista superinteressante e deparei-me não só com a incompetência dos autores de artigos e revisores da revista em manter um texto apresentável (quando eu tinha dez anos de idade e lia a revista, a estrutura beirando o tosco dos textos e eventuais erros gramaticais passavam despercebidos) mas também com uma reportagem chamada ‘o quê você faria?’, nos quais são apresentados cinco dilemas e um estudo a respeito de cada – respostas, significado das respostas etc. decidi ignorar o que dizem os especialistas, e até hoje isso sempre provou-me correto, e apenas responder as questões apresentadas sem ler as interpretações a respeito das mesmas.

“um amigo quer lhe contar um segredo e pede que você prometa não contar a ninguém. você dá sua palavra. ele conta que atropelou um pedestre e, por isso, vai se refugiar na casa de uma prima. quando a polícia o procura querendo saber do amigo, o que você faz?”

tudo depende como desencadeou-se o resto da conversa. como essa prima se comporta, digamos, sócio-sexualmente? há outros aspectos que devem ser levados em conta, claro; a idade e experiência da parente em questão, sua fisionomia e outros aspectos que lhe possam parecer relevantes.

“você é um funcionário da funai, trabalhando na amazônia sob ordem expressa de jamais intervir na cultura indígena. passando perto de uma clareira, nota que ianomânis estão envenenando o bebê de uma índia, que está aos prantos. você impediria a morte do bebê?”

não. essa criança, se fosse mantida viva, cresceria para seguir os mesmos costumes do grupo presente; ou seja, envenenaria, eventualmente, um bebê. melhor é manter o emprego e tirar sarro dando boas risadas daquela galera com os documento de fora! grande léry.

“no seu país, a tortura de prisioneiros de guerra é proibida. você é tenente do exército e recebe um prisioneiro recém capturado que grita: ‘alguns de voces morrerão às 21h35!’. suspeita-se que ele sabe de um ataque terrorista a uma boate. para saber mais e salvar civis, você o torturaria?”

não. na boate só tem drogados e prostitutas – além de degenerados. em uma interpretação mais absurda, ele estava apenas afirmando uma probabilidade que chega a ser considerado o óbvio em qualquer grande
população: alguns de nós morrerão às 21h35.

“um trem vai atingir 5 pessoas que trabalham desprevenidas sobre a linha. mas você tem a chance de evitar a tragédia acionando uma alavanca que leva o trem para outra linha, onde ele atingirá apenas uma pessoa. você mudaria o trajeto, salvando as cinco e matando uma?”

não. um grupo de cinco pessoas tem muito mais chances de desviar um trem de seu trilho do que uma pessoa sozinha. quem nunca quis fazer – ou ver – um trem descarrilhar?!

“imagine a mesma situação anterior: um trem em disparada irá atingir 5 trabalhadores desprevenidos nos trilhos. agora, porém, há uma linha só. o trem pode ser parado por algum objeto pesado jogado em sua frente. um homem com uma mochila muito grande está ao lado da ferrovia. se você empurrá-lo para a linha, o trem vai parar, salvando as cinco pessoas mas liquidando uma. você empurraria o homem da mochila para a linha?”

tá, então o tempo todo eu podia ter salvado os cinco operários (eleições em vista!), mais o pobre solitário da outra linha (não deixe as minorias de lado!) simplesmente parando o trem com um objeto pesado ou um mochileiro à paisana? outra coisa, o que ele tem na mochila? eu não estaria arriscando tirar também a vida de um gatinho, um filhote de labrador ou um bebê recém-nascido, ao empurrar ele? sem contar com possibilidades mais remotas, como a de que ele estivesse portando um explosivo DE ALTO PODER DESTRUTIVO mas Sensível Ao Toque Como O Hímen Da Mais Pura Donzela. em outras palavras, eu empurro e saio correndo – mas procuro um abrigo de onde possa ver o trem descarrilhar.

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5 respostas para dilemais morais

  1. grazi disse:

    haha cara, esses dilemas são impossiveis, mal consigo encara-los como metáforas. tipo, eu até poderia fazer um teste desses, mas me sentiria naqueles testes pré-adolescentes de “será que ele te ama?”, “você pode confiar na sua amiga?” ou “você é ciumenta?”. bem, enfim, talvez eu faça, afinal nunca se sabe no que pode dar o ócio do aeroporto. ;p
    beijos.

  2. Djegovsky disse:

    Não li a super, mas a maioria desses dilemas foram tirados do livro “O porco filósofo”(no original “The pig who wants to be eaten”), do filósofo inglês Julian Baggini. E vou ser obrigado a discordar da Grazi: dependendo da discussão que se faça deles, podemos discorrer sobre teorias desenvolvidas em toda a história da Filosofia. No livro há 100 casos como esses, chamados não de dilemas morais, mas “experiências de pensamento”.
    Agora o meu dilema é: na primeira frase os verbos devem concordar com “maioria” ou com “dilemas”?

  3. coiote disse:

    eu prefiro com ‘maioria’.

  4. oxyghene disse:

    o cara podia estar com uma mochila lotada de mercúrio fulminante [Hg(ONC)2] e se fosse então não destruiria o trem, como a estação, tu mesmo, o cara e provavelmente os estilhaços e a onde de impacto liquidaria também com os cinco manés nos trilhos.

    minha resposta pras perguntas:
    1) eu conto pra polícia. bandido tem que tá preso. podia ser meu irmão que eu contava.
    2) deixava morrer. quanto menos gente melhor.
    3) não torturaria. quanto menos gente melhor.
    4) deixava o trem acertar os cinco, dava ré, trocava de pista e ia atrás de acertar o outro mané. quanto menos gente melhor.
    5) empurraria o cara só se realmente ele tivesse Hg(ONC)2 na mochila ou se eu tivesse certeza de que isso não impediria que o trem, ainda assim, acertava os cinco manés. quanto menos… ah, tu entendeu.

  5. Antonio disse:

    1) Se o cara atropelou um pedestre e quer se esconder com certeza ele não é o tipo de pessoa que eu quero como amigo, muito menos solto por ai só no “hit-and-run”. Eu mesmo chamava a polícia.

    2) Salvava o bebê. Tradição e superstições são bobagens que se repetem sem ninguém questionar o porquê. Vida > Cultura

    3) Torturar me parece errado, mas deixar um monte de gente morrer me parece pior, ainda mais se eu fosse um militar. Se eu tivesse convicção de que o cara realmente ia explodir uma galera, eu faria ele falar.

    4) Sim, desviaria o trem, por um simples questão de utilitarismo.

    5) Não empurraria o cara com a mochila, porque diferente da questão anterior onde a vitima solitária morreria como conseqüência ou efeito-colateral, empurrar uma pessoa é utilizá-la como meio para um fim e isso é mais errado.

    A SuperInteressante a 10 anos atrás era uma revista com artigos científicos (ou quase) onde se fazia o mínimo de pesquisa. Hoje em dia só tem factóides e “verniz cultural” pra ler no banheiro.

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