limpando a geladeira

3 vodcas

aqui estou pra mandar uma mensagem do inferno que é a mente humana. decidi limpar a casa, começando pela geladeira, tão cheia de garrafas e as garrafas, nem tão cheias. abro uma vodca com maracujá, deliciosa como poucas bebidas prontas conseguem ser, mas ela não me diz para escrever, não, não tem o mesmo poder de outras iguarias alcoólicas. não como o uísque, já chamado de melhor amigo do homem. o cachorro engarrafado, já disse vinícius. o de moraes. trabalhando no mais moderno dos tempos com um editor de texto cuja lentidão deixaria um usuário do editor de texto do mac no início dos anos oitenta irritadiço vejo que até o computador está contra mim. paranóia, vá-te embora! que a vida não é pra quem procura culpados pela inércia invés de caminhar. e pra que é a vida, já nem mais importa, mas que dá pra jogar com ela, mesmo que ela jogue contra ti, já não tenho dúvidas. de fato, quando ela vem contra, com mais força tu pode bater de volta, e por isso vez que outra vale se entregar ao desafio.

é aldir blanc que toca e os goles recém começaram. a bebida é enjoativa, mais do que gostosa, e fico pensando como diabos deixaram que sobrasse apenas duas doses aqui. deixaram… sim, outros trouxeram, outros beberam, eles se foram e agora eu fico com os restos, porque é de restos que toda a alma se alimenta. se consumíssemos o pleno, que mais precisaríamos? vivemos de restos porque é a busca por mais que nos motiva a seguir em frente. e é a desistência de encontrar algo mais que nos motiva a estagnar. esperar. definhar. perecer. há os que digam que é preciso ter um objetivo claro para seguir em frente… pois vos digo que isso é bobagem; alienar-se em uma direção pode apenas privar-nos de outras, como pode nos levar a algo que realmente queríamos o tempo inteiro. mas, de qualquer forma, todos temos uma busca. e basta seguir.

a vodca ficou fora da geladeira e foi para o congelador nos últimos momentos, assim como a próxima da lista. nem é preciso o primeiro gole para lembrar que os caminhos pela frente são tão confusos quanto certeiros — há decisões às quais dar continuidade, e certos aprimoramentos artísticos fazem parte. escrever e ler mais, sempre; é uma constante promessa que só traz benefícios. e conversando com aquela artista que ofereceu aulas de desenho lembro que tudo é possível, mesmo que por momentos tanta coisa pareça confusa e que deixar para trás algo de que se gosta cause uma sensação de vazio. faz parte da busca sentir falta de algo, e quando tu precisa fingir estar completo é porque há muito faltando, há muitos restos a serem colhidos.

o amor não há, dessa certeza tenho há algum tempo, e não é por rancor que penso e digo isso. ao menos encontrei alguém que entendeu isso o suficiente para me lembrar que tudo depende de como encaramos o amor. as pessoas insistem numa mentira a respeito dele que acaba jogando elas contra si mesmas, fazendo separações entre pessoas e relacionamentos e situações que, infelizmente, sujam o nome do que é, na verdade, um bom sentimento. retifico, então: o amor, essa devoção e afeição interpessoal, existe, sim, mas ele não pode ser confundido com o direcionamento tolo que alguns fazem dele para com alguém específico — e normalmente o fazem por conveniência. o que temos é um sentimento de união entre o indivíduo e outro, seja este outro aquelas pessoas com quem tu toma umas cervejas no fim do expediente, ou com quem tu joga uma partida de pôquer entre conversas e risadas ou com quem tu tira a roupa e, bem, faz o que quiser fazer. se atirar no mar, por exemplo. ah! o devaneio, sempre aparecendo entre uma linha e outra. e ainda estamos no primeiro de dois copos dessa garrafa.

e que prova esse mundo tem de que eu lhe fiz mal? dele vim sem opinar por tal, nele fico sem fuga; se usurpasse, ainda poderia registrar queixa de desdém, extorsão, agressiva tomada, mas não! desse mundo peço apenas o que é meu de direito: ele todo para ser meu brinquedo visual. da perspectiva certa, é um belo cenário, esse mundo, e ainda dá pra interagir com o elenco quando tal de nosso agrado for.

não quero privar ninguém da companhia de outrém, jamais; admiro, por vezes, os mais românticos. só aviso que a enganação do amor afasta todos de sentirem verdadeiramente qualquer coisa e qualquer pessoa; é somente na percepção da irrealidade da paixão amorosa e da certeza do amor e da paixão que temos contato uns com os outros. no mais, nos debatemos em corpos e almas continuamente sem nunca termos estado juntos.

é o último copo de popokelvis e ainda não pensei em como começar outro parágrafo. sei que o medo é a sensação humana que mais me atrai, embora ele seja um tanto egoísta. o sentimento supracitado, bem pelo contrário, vem da nossa relação com outros seres. o medo, mesmo que seja causado pela preocupação com seus entes, é apenas uma desinteriorização de algo completamente nosso, e quando digo que admiro o medo é porque gosto da sensação que temos pelo impossível, ou seja, a sensação imediata do perigo iminente e, em especial, do irreal. por isso, na infância, gostava de ter pesadelos com freqüência. o alívio ao acordar era simplesmente inigualável, e quando se chega ao ponto de ter medo de dormir (assunto cabível, pois agora mesmo discutia insônia com alguém, e meus problemas com falta de sono parecem ter sumido há algum tempo) tu sabe que os pesadelos estão realmente criativos e se já se tornaram tua parte comum. imagens surgindo em tua mente durante o dia são um bom sinal de que tua mente é voltada para a criação daquilo que desperta essa sensação tão profunda e, creio eu, ligada ao nosso eu mais primitivo. sim, acredito na herança genética e no instinto do medo. lembro de assistir ao lado de um amigo meu um filme que poucas pessoas levaram a sério e que, por ser baseado na obra de stephen king, já merece um tanto de respeito: 1408. ele lida com a situação mais aterradora que um ser humano pode sofrer, e se as pessoas pensassem nisso ao assistir talvez conseguissem se colocar no lugar do personagem e vivenciar ela junto. de fato, foi o que fiz, e estar acordado havia alguns dias provavelmente ajudou bastante. claro que o filme não me causa o pavor que causou à primeira vez, mas me colocando cuidadosamente no mesmo lugar do personagem, ainda é possível reviver um pouco da mesma situação, e isso já basta, um pouco. enfim, o medo é uma sensação incrível e deve ser abraçada. o homem superior não se preocupa em vencer um medo, mas sim em aproveitar o que tem para sentir cada momento dele e, por conseqüência, aproveitar melhor cada momento de alívio. agora imagino se é possível controlar o próprio sono até livrar-se dele naturalmente… espero que sim.

[nota da edição] Esse texto foi escrito há tempo tempo atrás e, relendo agora, me dói. Falar sobre medo e pesadelos (não lembro em que momento foi esse em que minha insônia tinha sumido, mas agora tudo já se reverteu e tenho poucas horas de sono por dia) e parar no meio para mudar de assunto foi uma péssima idéia. Ainda bem que anotei tantos sonhos depois de ter escrito esse texto. Voltemos ao exato ponto de onde parou:

de volta à realidade, estava assistindo aos simpsons quando vi uma cena em que lisa simpson tenta explicar ao homer que ele não precisa continuar matando buffalos, mesmo sabendo de sua extinção iminente (é um episódio alternativo), pois é possível buscar uma fonte de alimentação renovável — no caso, ela pega algumas maçãs e decide não só comer as maçãs, mas plantar sementes. é criticada, a princípio, mas prova-se certa quando os buffalos estão todos mortos e as outras pessoas estavam já decididas a virar canibais para sobreviver. claro que isso me fez pensar em vegetarianismo. não chegamos ao ponto em que se tornou uma necessidade abandonar o consumo de carne, mas como a humanidade inteira é completamente incapaz de criar animais e consumir sua carne ao mesmo tempo em que garante sua sobrevivência – muito pelo contrário, eles são eliminados em uma progressão tão absurda que a escassez até das espécies cultiváveis que mais procriam é iminente – já chegamos ao ponto em que, sim, privar-nos dessa iguaria é a única solução viável. um amigo meu costuma dizer que faz parte da natureza humana comer carne, ao que um primo meu rebateu muito eloqüentemente: esse argumento é tão infeliz que chega a ser quase ilógico; parte da natureza é evolução e parte da evolução é mutação. só porque temos caninos não significa que devemos usá-los. o ser humano desenvolveu a caça como forma de sobrevivência, e a partir daí aprendeu a usar os próprios costumes dos animais para garantir a caça. o que acontece é que nosso organismo está, sim, preparado para diferentes formas de alimentação e, portanto, não precisamos da carne animal para sobrevivência. é uma questão de preferência, não mais do que isso. agora parte de cada um manter esse costume ou não. como eu disse, não existe, ainda, a obrigação de abrirmos mão da carne, mas tenho quase certeza que existirá, eventualmente, a não ser que sejamos burros o suficiente para apelarmos ao canibalismo em prol do anti-vegetarianismo – como foi sugerido, como referência à burrice de tal atitude, na animação que mencionei algumas linhas atrás. em outras palavras, coma carne, se quiser, mas não finja que é parte obrigatória da natureza humana.

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2 respostas para limpando a geladeira

  1. desenheira disse:

    aiaiai.. aaamo-te =] [e sem confusões]

  2. soyheart disse:

    em outras palavras, coma carne, se quiser, mas não diga que eu não avisei quando for atacado por canibais.

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