… e pra quê?

Por que não?

J.P. Flores

  Por que não? Essa pergunta tem me ocorrido há algum tempo a cada momento em que a idéia de fazer algo é confrontada com um questionamento em relação à sua objetividade, e ela ganha mais importância quando o questionamento contrário vem de outra pessoa. Às vezes chega a ser irritante quando se ouve aquele ‘Por quê?’ ou ‘Para que?’ que soa não curioso, mas crítico e, muitas vezes, burro.

  Existem incontáveis razões que nos levam a decidir por determinadas atitudes e experimentalismos, como certamente também há um equivalente em número indefinido de motivos para que não os realizemos; a idéia de rachar o crânio de uma pessoa com uma pedra para testar a dureza da pedra, por exemplo, é facilmente debatida pela noção de respeito à integridade física de outrem. Por outro lado, se eu decidir agora me embrenhar de bermuda e chinelo pelos matagais da serra gaúcha, às vésperas do inverno, apenas para desafiar a e aumentar minha resistência ao frio, não há motivos reais e irreparáveis para não o fazer.

  Recentemente percebi que a pergunta se estende além de ímpetos que testemunhei ou executei pessoalmente, servindo também para (tentar) explicar a um ouvinte uma atividade alheia. No caso, um amigo me falava sobre experimentos realizados com macacos para descobrir o alcance de sua capacidade de comunicação. O figurante que inconvenientemente sentara ao meu lado àquela mesa de bar perguntava: “E pra que ficar estudando animais, essas criaturas inferiores a nós?”. “E por que não estudá-las?”, eu respondia, “Por que não aprender algo?”.

  Era inútil tentar explicar as possíveis futuras aplicações que um estudo desse tipo teria para a compreensão de nosso próprio sistema lingüístico a alguém que espera que dois amigos sentados em uma mesa de bar interrompam sua conversa para discutir livros de auto-ajuda. Em nota: não estou sugerindo ler ou criticar esse tipo de literatura, mas a maior parte dos entusiastas de literatura já sabe que ela não costuma ser de grande valia técnica e criativamente. Mas deixemos esse ‘parênteses’ de lado para voltar ao foco.

  Sempre fui adepto do conhecimento pelo conhecimento. Acho louvável estudar uma língua estrangeira sem qualquer intenção presente de trabalhar com ela, assim como acho válido passar horas lendo artigos de física ou matemática mesmo que só se esteja procurando informações básicas sobre hádrons ou seqüência de Fibonacci. De fato, às vezes peço para alguns amigos que me enviem seus artigos de Mestrado, independente da área acadêmica deles. Por serem bons amigos, já não molestam minha paciência perguntando o porquê disso.

  Tudo leva a algum lugar ou se liga alguma futura criação, de uma forma ou de outra. A experiência que tu tem ao pegar carona com estranhos em uma kombi ou o conhecimento que tu adquire estudando autores famosos da literatura histórico-jornalística, o gosto desagradável na garganta ao tomar uma cerveja logo depois de se entupir de doces, enfim, tudo que vivencias ao fazer algo serve, no mínimo, para ser alojado no subconsciente e fazer parte de ti e, portanto, de tudo que vieres a enfrentar ou fazer. Quando olhamos o mundo por fora ou pensamos atemporalmente, nada é realmente desnecessário: tudo resulta em algo mais.

  Resultados, portanto, são inerentes a qualquer tipo de atitude, seja ela calculada ou improvisada arbitrariamente, como cutucar um amigo e dizer: “Vamos filmar?”. Aliás, se ele responder “Vamos!” antes de perguntar “Filmar o quê?”, ótimo: tens aí uma ótima dupla de criação. O resultado, no caso, foi uma viagem bate-e-volta a Tapes, algumas cervejas e muitas, muitas risadas; nossas e dos amigos que, ao assistirem, se sentiram também compelidos a fazer passeios do tipo, planejando de última hora e durante o trajeto.

  O que quero dizer em exemplos pessoais que aos outros talvez pareçam sem importância é que em tudo que se faz sem questionar tiranamente, isto é, sem que censuremos a nós mesmos, há um produto interessante, seja pro mundo, seja pra quem está realizando uma idéia, ou a quem interessar possa.

  Imagine o que tu poderia fazer com um orçamento de milhões para viajar pelo mundo, financiar instituições filantrópicas, filmar um curta, etc. Imagine o que poderia fazer com meia dúzia de pilas no bolso. Garanto que é mais fácil pensar em tudo o que pode fazer com isso do que com o que não pode. Basta ter imaginação e vontade.

  Kombis dirigidas por estranhos potencialmente perigosos, moradores de uma pequena cidade te vislumbrando com curiosidade e receio, pessoas assistindo a um vídeo caseiro improvisado achando que foi feito com um roteiro e boa atuação — pequenas diversões em uma seqüência que começou com um simples “vamos” e não sofreu o terrível corte do “…mas por quê?”.

  Ação e reação, simplesmente. O que quer que alguém faça, pareça bom ou ruim, é no mínimo o precursor de algo. Então se aquela voz na tua cabeça ou o amigo censor te perguntar o motivo de tua idéia inusitada ou apenas inconseqüente em primeira instância, corrija com a simples retórica: “Por que não?” e não deixe que a idéia fracasse antes mesmo de começar. Em suma, vai lá e faz.

“Vai lá e faz” é uma óbvia referência à Perestroika.

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