notas de um fluxo vivaldiano vago

A vantagem de não se ter uma estação definida é que você não recorre à insignificância de escrever sobre a estação vigente e, com algum esforço, ignorará ímpetos nostálgicos de escrever sobre as belas primaveras da infância. Que diabos é primavera para uma criança? A flor desabrocha e você imagina o que se esconde sob a saia da amiga da prima.

A estação então é puberdade.

Perda da inocência para os simbolistas, puritanos e outros analfabetos funcionais munidos de papel e caneta.

Falarei então dos belíssimos trevos que notei hoje – e como somente hoje? os notei? – no jardim que atravesso diariamente em meu trajeto a lugar qualquer. Verde, brilhante sob o sol que atravessa a nublagem com esforço, remetente a momentos letárgicos. Basta um vento para que alguém obedeça ao impulso natural de arrancar do corpo os tecidos que o cobrem e entregar-se à ilusão de ser derradeiramente um com a natureza da qual veio.

Que vento e de onde viria, não sei dizer.

A estação é liberdade, mas o céu está encoberto.

É tempo para a colheia apressada de cevada liquefeita belga. Tempo ideal para andar descalço, de bermuda, saboreando cigarros e companhias refrescantes; época de preocupações momentâneas.

Ouvi vós tango? sem choro, usando os contrapontos ao sabor do ouvido e da alma. Fazei bom uso dos chapéus de palha, escondei o couro cabeludo que cobre o crânio que não cobre as despesas do trabalho dentro dele exercido.

A estação é espontaneidade.

Base de milonga te acompanha enquanto… – entra a percussão suave interrompendo considerações descabidas. Considerai a infinitude de eventos que trouxeram ao momento presente tua percepção do que vives, lês, sentes. Lembras de tudo? De cada estação? Fortuitamente, não. Tamanho reconhecimento de tempo vivido é certeza de uma vida ignorada enquanto acontecia. Toda vida alheia te interessaria e serias dependente de ficção, contemplação ou limitação.

A estação é insanidade.

Absorvemos histórias alheias, bizarras, incomparáveis às nossas. Um rapaz que passara a infância sob a vista de um tarado, outro masturbava-se à companhia da mãe. Logo se percebe a série de lembranças remotas e confessam-se as recentes. Melhor gozada: aquela que virou massagem na qual o creme ejaculado serviu como óleo. Deus quer saber mais. Um michê carinhoso tocou a alma do rapaz (não muito) exigente. Uma garota com fetiche por ânus lambera o heterossexual até sua intimidade. Nomes de celebridades estampados no terceiro olho, marco entre olhos e linha capilar; uma série de adivinhações frustradas e histórias aparentemente desconexas que induzem ao estranhamento conjunto e às gargalhadas.

É a estação da verdade, e a verdade é que tem mais ceva na geladeira.

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