em 15 anos

escrito às pressas como resposta a uma pergunta enviada pelo formspring.

Em 15 Anos

(escrito às pressas como resposta à pergunta “como você imagina sua vida daqui a 15 anos?)

São 06:05 da manhã quando C., ainda vestido com as roupas usadas na noite anterior, acorda enquanto os primeiros feixes de luz invadem seu quarto pelas frestras da janela veneziana. Normalmente não levantaria tão cedo nos primeiros dias de férias, mas precisava executar alguns reparos finais no seu Jet Hover movido a óleo de girassol antes de flutuar pela Trajetória 520 até a casa de A. e rever a filha que ele já nem sabia quantos anos completaria então.

Antes do final daquela manhã, comeu o último burger de soja que saborearia até o último dia do décimo-primeiro ano desde o Marco Zero e carregou o hover com a coleção de livros impressos, seu único bem guardado depois da Grande Destituição Material do terceiro-ano precedente. Não estava mais habituado ao peso deles e não antecipara, minutos antes, que teria de fazer o carregamento completo em quatro atos. Quatro. Quatro anos tinha a idade da garota a última vez que a viu, então ela deveria estar completando nove ou dez.

Enquanto seguia a Trajetória, o perfume de hortelã que a seguia por quase todo seu percurso enchia-lhe o nariz e lhe tornava grato pelos novos tempos. Alguns anos antes, tão infesto era o ar que ele acreditava sofrer de um caso leve de anosmia. Os eventos passados lhe fizeram concluir que seu próprio senso o protegia do odor desagradável que complementava a poluição das grandes cidades nos anos anteriores.

A cidade de A. se distinguia na transversal que levava a ela pelo grande pórtico de entrada com os letreiros onde lia-se “Bienvenue\Benvindos\Willkommen” e “CRÓPOLE”. Riu imaginando a diversão de crianças fazendo anagramas escatológicos com o nome da cidade.

Sorriu outra vez ao imaginar o sorriso de sua filha ao vê-lo. Assim como temia, claro, não ser reconhecido, também sabia que a mãe a prepararia para a visita e falaria bem do homem que não as via desde que se mudaram. Os tempos de acordo entre as Grandes Confederações, embora pacíficos, tornavam impossíveis quase qualquer viagem, e o relacionamento direto da instituição que C. representava com os diferentes governos o mantinha sempre à disposição para reuniões diplomáticas e debates decisivos no que antigamente chamava-se Nova Ordem. A inaceitabilidade da palavra “Ordem” foi destacada por ele mesmo logo no início das negociações.

Ainda era dia quando chegou à casa. Lá estava ela, sorriso perfeito, iluminada, segundo os pensamentos dele, em todos os sentidos possíveis. Abanava, ao lado da mãe (que mal parecia ter envelhecido) e ele podia sentir, antes mesmo de desativar o hover, o cheiro de erva doce vindo da casa, uma iguaria que sempre agradara A. e lembrava-lhe do breve mas maravilhoso tempo que compartilharam. Ele sorriu e tirou do bolso da calça uma caixa de tabacos enrolados, apenas para jogá-la dentro do hover; nunca fumara e nunca fumaria na presença da filha.

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