três minicontos

ou menos.

Onde quer que estivesse, estaria incompleto, pensava enquanto olhava para o toco de onde costumava sair a dobra do antebraço. “Irônico”, pensou, “que eu jamais sonhei em ser um arremessador e, pasmem, eu jamais vou ser um em realidade.”. Em seguida pensou: “Isso é realmente irônico?” aí lembrou que, se de fato fosse um arremessador, e tivesse o antebraço direito arrancado em um acidente de esqui, seria trágico, talvez cômico em um nível otimista ou schadenfreude, e com algum esforço consideraria-se o fato até tragicamente cômico, mas não seria de fato irônico. “Sim, é irônico que eu jamais tenha sonhado em ser um arremessador, e agora…”

Ao pisar na poça grudenta deixada na cozinha, blasfemou contra a poça em si, para depois contra qualquer-que-fosse-o-líquido que tornou-se ela, então culpou as cervejarias e confeitarias e produtoras de líquidos-com-tendências-grudentas-em-geral, e somente num ultimo momento lembrou de culpar, nos xingamentos esbravejados mentalmente, o marido, que provavelmente derrubara ali na pressa de sair para o trabalho e nem se incomodou em limpar o piso antes de ir embora. Era sua culpa, que precisasse sair apressado, não precisava ser ela castigada por isso. Quando finalmente se dispôs a limpar o chão, lembrou-se do copo de leite que servira durante a madrugada, ainda com sono, para o gato, e como sempre derrubava um pouco quando virava o leite naquele pequeno pote. Fez silêncio; o orgulho não permitiria que se desculpasse, mesmo mentalmente.

Quatro carros, cinco carros, seis, oito, logo mais de dez e parara de contar. Quantos carros chegariam até ali antes que fosse sua vez? Sim, a empresa oferecia um manobrista; mas de que adianta poupar-lhe o trabalho de caminhar os quase trinta metros até sua vaga privativa se for preciso esperar quase cinco minutos até ter o carro à sua frente? “Eu devia voltar a fumar, aí sim toda espera seria agradável!” – e olhava em volta para ver se alguém fumava. Muitas vezes sim, mas continha seu impulso por alguns segundos e logo estava lá o carro. Mais vinte-e-cinco minutos até sua casa, vinte-e-cinco minutos suados em determinadas estações do ano, pois um dos poucos prazeres que ainda tinha era dirigir de janelas abertas. Uma vez em casa, tinha a esposa. Às vezes amável, às vezes irritava-se por bobagens, mas sempre a mesma. Isso não incomodava até pouco tempo atrás. E aí lembrava de cumprimentar o filho, entrando em seu quarto, como sempre, abraçando-o ou apenas trocando algumas palavras rápidas. E desistia, pois se recusava a vê-lo. Não, ele nunca foi dedicado aos esportes, não mais do que a maioria dos garotos de sua idade, mas a certeza que o acidente trouxe de que jamais seria o orgulhoso pai de um grande arremessador destruiu a relação entre os dois. Então ele se fechava no quarto com a esposa, quando não sozinho, e tentava pensar apenas no trabalho.

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