na estrada, segunda parte

continuando na estrada

Cheguei a Gramado, e dali deveria rumar até Porto Alegre ou pelo menos a Nova Petrópolis, onde poderia conseguir um abrigo. Claro que, estando em Gramado, resolvi aproveitar meu tempo. Fotos de Gramado no final do post anterior, em meio à série de fotos de flores. Parei para observar o Lago Negro, embora não por muito tempo, e a custa de muitas informações pedidas na rua, fui parar em diferentes locais propícios a caronas a Porto Alegre, sendo o melhor deles a saída pela BR-115, via Nova Petrópolis, o que facilitava. Muitas pessoas sugeriram que eu fosse até o posto da Polícia Rodoviária onde eles poderiam me indicar para um motorista apto a dar carona.

Chegando na Polícia Rodoviária, antes de lhes pedir qualquer tipo de favor, a primeira coisa de que fui informado é de que eles não indicam caronas e caroneiros. Esperei no pórtico da cidade até anoitecer, e não consegui carona. Retornei ao posto rodoviário para informações sobre a distância até Nova Petrópolis e eles disseram que, àquela hora, à noite, eu dificilmente conseguiria carona. Caminhei até o centro de Gramado, onde por algum motivo um senhor na rua comentou o tempo e me deu uma bala de menta. A única pessoa gentil e educada que já vi em Gramado até então (funcionários de hotel que conheci quando criança não contam).

Isso mesmo: não contam. Pode me chamar de monstro.

na Serra, a pedra também rola solta

Finalmente tive uma idéia genial: embarcar, explicando a situação para o motorista e/ou atendentes de caixa, e pedir para um amigo me buscar na rodoviária de Porto Alegre e pagar a passagem. Uma vez na rodoviária de Gramado, relativamente otimista com minha engenhosidade logística de viajante sem dinheiro, descobri que não havia mais ônibus.
Ótimo. Depois de caminhar pela cidade pensando e tentando aproveitar a noite e a beleza local – já que a antipatia da mais desagradável cidade da Serra Gaúcha enquanto reduto de seres humanos não me apraziguava tanto quanto as flores ornamentais ou o ar gelado nos dias de sol, voltei até a rodoviária para pedir mais uma informação a quem-quer-que-fosse. Olhei as pessoas que entravam e saíam. Havia alguém parado, fumando um cigarro, e pareceu-me o tipo de pessoa que poderia ajudar.

-Com licença…
-Hum? – olhou-me nos olhos, atencioso.
-Sabe se tem algum albergue ou casa de estudantes por aqui?
-Tu precisa de uma casa de estudantes? Que eu saiba não tem.
-É, fiquei preso na cidade…
-Poisé, mas aqui em Gramado, acho difícil.
-Imaginei, não é uma cidade universitária, nem nada.
-Pois é, tu precisaria ficar quanto tempo?
-Só essa noite, de dia já volto pra estrada.
-Pode ficar ali em casa então.

Simples assim. Ele esperava uma carona de um amigo – tinha um pacote enorme de tapetes enrolados, além de mochila, para carregar —, mas esse estava demorando. Caminhamos até a entrada do condomínio, onde esperamos o amigo para nos levar até a casa, longe de entrada do condomínio, aparentemente um dos maiores – ou o maior – da cidade.

Uma vez na casa, me ofereceram maconha, água, comida, água, cama e banho. Aceitei os três primeiros de bom grado. Não podia verbalizar minha tamanha sorte, e a gentileza de Ricardo, meu anfitrião, e seu irmão Gabriel. Ricardo insistia para que eu comesse, mas nem precisou insistir muito. O melhor arroz-com-feijão da história. Feijão vermelho e picante, como gosto. Água, claro, muita água. Gabriel ainda me deu uma garrafa de água gelada para eu levar para minha cama improvisada em uma das (muitas) salas da casa. Este ficou em casa enquanto os outros saíram, e logo reclamou: “Aquele amigo dele é um milionário local, daí eles saem pra louquear, cheirar, tomar ácido.”. Imaginei imediatamente se havia algo para beber na casa, já que não me convidaram para à noite — talvez até por não saberem se eu me sentiria ofendido com esse tipo de comportamento vil pelo qual pareciam compartilhar gosto.

Antes de dormir, aceitei algumas tragadas no baseado. Não é minha droga de escolha, bem pelo contrário, qualquer pessoa que já tenha passado alguns minutos comigo sabe que odeio maconha (o que diz muito sobre meus pais, que tanto insistem em me acusar de maconheiro que acho que querem que eu fume, talvez pra lhes abrir a cabeça e forçá-los a experimentar e levar uma vida melhor), mas àquele momento, depois de tantas caminhadas, parecia uma boa idéia.

Dormi. Dormi. Dormi. Dormi mais. Acordei, dormi, acordei. Dormi. Chovia incessantemente.

Ainda pela manhã, Ricardo fez café e improvisou, com uma tira enorme de plástico (provavelmente o mesmo que cobria os tapetes que carregava na noite anterior) uma capa de chuva para mim. Despedi-me, agradecendo-lhes outra vez a quase inacreditável gentileza, e segui em direção ao pórtico onde pretendia continuar pedindo carona, fosse a Porto Alegre, fosse a Nova Petrópolis, onde, como confirmara através de telefonema, meu pai estaria e, creio, poderia me receber.

Na estrada, retomei a leitura de Ana Karênina. Enquanto me deliciava com as histórias de Vronski e seus colegas de regimento, e percebia a crescente paixão da personagem título, acenava para caminhoneiros que ora acenavam educadamente com a cabeça, num educado “sinto muito, mas não”, outros apenas seguiam caminho, felizes por ignorar, de dentro de suas confortáveis caçambas, a presença de outro ser humano.

Área Destinado ao Silly Walking*

*de Ministry of Silly Walks, do Monty Python

Na estrada, parei para pedir água em uma casa. A princípio, as moradoras pareciam assustadas, mas foram educadas, e uma delas me deu uma garrafa de água mineral cheia. Depois de poucas horas de caminhada, um Monza branco parou, muitos metros adiante. Corri na emblemática cena do caroneiro que corre sorridente até o carro que parou no acostamento, e disse ao motorista que eu precisava ir até Nova Petrópolis. Ele assentiu com a cabeça e entrei no carro. Disse-lhe que agora eu devia algo aos gremistas (ele vestia uma camiseta do segundo maior time de Porto Alegre), trocamos poucas palavras. O rádio foi conveniente para evitar conversas desnecessárias, tímidas, embaraçosas até.

De onde ele me deixou, caminhei tranqüilamente até o centro da cidade, lendo Tolstoi, parando apenas para dar uma ligada para meu pai, que me buscaria na rodoviária. Logo, eu tinha uma carona com um fumante (cheguei lá com meu último cigarro no maço), uma casa para ficar e, pasmem, uma carona até Porto Alegre no dia seguinte, visto que ele viria pra trabalhar no restaurante da família.

Outra andarilha abrigada na casa em Nova Petrópolis

Então, revi a família da serra, que há tanto não via. Comi, comi como um rei, comi incessantemente; dormi em uma cama enorme, cuidadosamente preparada por minha irmã para mim. Esta dormiria na casa de uma amiga para ir até Capão da Canoa, onde competiria pelo concurso Garota Verão. Quase invejei a ida para a praia, mas eu não podia estar mais satisfeito. Tinha 4 computadores com acesso à internet à minha disposição, tinha janta e boas companhias, tinha cigarros (meu pai ainda me comprou um maço, a meu pedido, quando fomos ao mercado) e tinha uma cama grande e confortável só para mim.

Um dos pequenos mini-lagos artificiais para peixes de nossa casa na serra.

Dormi e acordei cedo pra aproveitar a carona com meu pai. Chegamos ao bairro Bom Fim e finalmente ele perguntou se eu tinha dinheiro para a passagem pra casa. Não querendo admitir que estava quebrado e e mendigando desde Canela, menti que sim e caminhei os 8 quilômetros restantes até minha casa.

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