em cárcere e em paz

“O que surpreende é a capacidade de compreensão da sociedade cubana perante este tipo de circunstância, pois a comunicação nos trabalhos comunitários, nos quais civis não reclusos também participam, é muito boa. Não há divisão social entre os reclusos e os não reclusos. Ao contrário, o espírito de camaradagem predomina nos trabalhos, no regimento (entre os guardas e os detentos) e nas ruas.”

Isso é o que acontece neste presídio em Cuba. Estamos falando de outro país, com outra realidade social e um sistema nacional bem diferente do nosso, mas ainda vejo isso como um exemplo que poderia [eu digo que iria e pronto] funcionar no Brasil. Mas aqui, infelizmente, os não-reclusos quase nunca vêem presos como pessoas, apenas como uma mazela social – como se eles fossem os únicos responsáveis, os únicos criminosos, como se tivessem escolhido, ao longo de sua vida, que seriam “ruins” e pronto.

“As pessoas no brasil acham que trancafiar alguem num cubiculo com mais varias outras pessoas vai fazer alguem repensar suas atitudes. É a logica da faxina mal feita; sabe, quando a mãe pede pra varrer a casa e a pessoa vai lá e esconde tudo debaixo do tapete? Sumiu a sujeira, não t6o mais vendo, mas uma hora alguem pisa no tapete e suja tudo de novo.” (Fergs)

Em um evento de uma manifestação “PELA PAZ”, me deparo com as seguintes propostas: “acabar com o regime semi-aberto ( ressocialização é para quem foi socializado – isto não existe), proibição de visitas íntimas, penas mais duras e mais presídios, além, é claro, de polícia motorizada nas ruas.”

VERGONHA DE TODOS VOCÊS, amigos, que participam do evento de “manifestação pela paz” que concorda com essas reivindicações:

Bando de reaça, o criador do evento e todos que se identificaram com o mesmo. É por culpa de gente assim que as pessoas saem piores dos presídios, sabe? É por culpa de vocês boa parte da violência que tanto (dizem que) querem combater.

E não adianta fingir querer inclusão social em meio a propostas desumanizadores como essas, então não vem como “escrotice meio-a-meio”porque não estamos tentando chegar a um acordo sobre o que teremos pra janta ou qual o melhor bar pra galera. Ces tão é apoiando uma detonação completa de um sistema que já é cruel e obviamente nocivo não só aos diretamente afetados por ela, os presidiários, mas à toda sociedade.

Acho que no fundo o que querem mesmo é meter balaço na cara de cada um, não é? Diz aí, diz aí. Aniversário do Massacre do Carandiru mal passou e vocês querem mais Pavilhões 9 e menos “dessa gente” de volta às ruas.

Abaixo, uma matéria sobre um presídio-modelo que Mikki, um amigo, me passou.

Acho que uma sociedade que não age em defesa de seus prisioneiros não tem como melhorar. Os tratamos como párias, como escórias; ou melhor, não os tratamos. Como minha amiga sugeriu na analogia alguns parágrafos acima, os escondemos de nossos próprios olhos, como se resolvesse aí o problema. Fala-se em educação mas não se fala em melhoria das condições dos encarcerados, o que, pra mim, é paradoxal; eles fazem parte do povo que mais precisa de educação, de uma melhoria em sua qualidade e visão de vida em sociedade.

“Eles vão presos e voltam piores” – é cara, então é porque tem que melhorar os presídios. “Bom mesmo é pena de morte” – já pensei o mesmo sobre muitos casos, e se o argumento de que muitos inocentes já foram condenados à morte não lhe basta, apelo a uma frase que me persegue há 15 anos que tem muito a ver com a nossa incapacidade de julgar q quem se deve aplicar pena de morte ou não:

“Merece morrer? Ouso dizer que sim! Assim como muitos que morreram merecem viver… Você pode lhes devolver a vida?” (Gandalf, em “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien).

Se cito uma ficção escrita há mais de meio século pra tratar de um assunto real em nossa atualidade, é porque de lá pra cá nada melhor foi dito ou feito.

Post relacionado: Lei de Execução Penal

E sobre o mesmo assunto, Bruno Pommer:

“Acho massa como essas manifestações pela paz acontecem quando dá uma merda com alguém com grana. Aí todo mundo quer redução de maioridade penal, mais presídios, penas mais rigorosas, mais puliça, desce o pau nos vagabundos, esses aí têm mais é que morrer mesmo. Afinal, é um absurdo a gente viver numa situação assim.

Agora, contra a violência diária que gera esse tipo de situação ninguém dá um pio. Contagem de mortos fora dos bairros nobres é mensal, pra jogar na estatística e dividir por trinta pra fazer a média. Mas não é um absurdo.
Ninguém acha um absurdo a PM descer o cacete em estudante, se for da perifeira.
Ninguém acha um absurdo a falta de infraestutura básica nas cidades, o sistema carcerário completamente fodido, as Fase que são depósitos de adolescentes em condições degradantes.
Ninguém quer discutir penas alternativas, papel (e a própria existência) da polícia, ressocialização de detentos, drogas como problema de saúde pública, etc, etc.

É óbvio que a nossa segurança é extremamente deficiente, que falta policiamento, que tá foda sair na rua. Mas se tu acha que só pedir pro Cassiá aumentar o número de brigadiano na tua rua, prender guri de 16 anos ou acabar com visita íntima no presídio vai melhorar alguma coisa, tu não tá pensando em segurança. Tu tá pensando, de uma forma elitista, retrógrada e ineficiente, em como proteger o teu rabo.”

PS: não me fale em redução da maioridade penal antes de ter havido uma reforma em todo sistema e estrutura carcerários!<

Outra vez cito um amigo, o Quico:

“Primeiro vão contruir presídios decentes, porque não sei se temos ao menos isso pros nossos jovens prodígios.”

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