machismo e língua portuguesa

‹‹As línguas em que há dois gêneros são normalmente “machistas”, porque o gênero não marcado, isto é, aquele que se pressupõe geralmente, é o masculino. Por exemplo, com substantivos que tenham o mesmo radical para os dois géneros, por exemplo, gato/gata, acontece usar-se apenas o masculino quando queremos designar a espécie: falamos de um gato e não de uma gata.›› [ciberdúvidas – Os avós e o “machismo” na língua portuguesa]

‹‹A nossa língua tem vestígios de patriarcalismo? Pois tem, como tantas outras.

Vale a pena investir tempo em tentar purgá-la desses “defeitos”? Em minha opinião, não, e francamente parece-me uma diversão das reais desigualdades entre os sexos contra as quais vale a pena lutar.

Dito isto, acho que cada um é livre de falar como entende. Se quiser promover essas inovações, a ver se pegam, não serei eu a incomodá-la por isso.

Nota pedante: a palavra man, em germânico antigo, tanto servia para homens como para mulheres. Queria originalmente dizer “pessoa”, e não “homem”; aliás como homo››

‹‹Não nego nada disso. Aí está uma injustiça contra a qual vale a pena lutar: a visão machista da história.
Mas, em minha opinião, o facto de a palavra “senhores” poder incluir algumas “senhoras” não está no mesmo patamar de injustiça.›› [masculino plural – wordreference]

Por outro lado, há o argumento de que é nas pequenas mudanças do dia-a-dia que se fazem as grandes mudanças. Soa bonito, e às vezes é verdade, n’outras não. Essa frase não pode ser usada de forma generalizada. Algumas convenções da língua portuguesa que tendem para o uso da forma masculina são, sim, resultado do patriarcado, e ignorá-las ou alterá-las parece um gesto de mudança social significante, mas é apenas o ataque a um sintoma. Não diminuo o valor quando digo isso: atacar sintomas pode sim ser muito importante e ter efeito em mudanças na base das injustiças que se quer combater.

Eu amo a língua portuguesa como ela é, e admito: é por isso e apenas por isso que me recuso, salvo exceções (ocasiões em que, não sei bem por quê, acho válido trocar as formas plurais pra facilitar que o discurso de dirige a integrantes de ambos os gêneros masculino e feminino) a ignorar essa forma que por padrão tendenciona o masculino.

Agora, não venham me dizer que coloco a língua ou como eu a vejo acima das pessoas. Ninguém me conhece o bastante pra supor isso. E mesmo que eu o faça, acho que essa escolha é minha e criticá-la é uma atitude autoritarista.

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