o jovem dápolo

Hoje é meu aniversário de 6 anos no WordPress. Para celebrar, publicarei aqui um conto que uma amiga recuperou e nem lembro onde tinha sido publicado originalmente.

a enfermidade do jovem dápolo

epílogo: das cartas do pai resumindo a peça

meu caro amigo e fisicista, faz dias que tento escrever-te mas não arranjo tempo. finalmente, sento-me para contar-lhe dos ocorridos e pedir, com todo o carinho e pelos anos de companheirismo, por tua ajuda – entenderá minha situação e perdoará por isso o interesse pessoal desta carta.

é o pequeno dápolo que me preocupa. sei que ele já transcorreu seus vinte anos, mas ainda chamo-o pequeno. sempre compreendi suas excentricidades e, muitas vezes, considerei elas como parte importante de sua individualidade. excepcional na inteligência e no carinho pelas pessoas, também tem o direito a comportamento especialmente próprio, mas ultimamente tem exacerbado-se.

certa terça-feira, vi-o à sala de estar no que parecia ser uma dança alucinada à música de beethoven e dvorak, seus ídolos, tal como ao ouvir as melodias em piano de seu querido compositor junes de goepp. dançava só mas como se tivesse consigo uma dama! essa performance durou menos de uma hora, no entando para ser substituída por outra ainda mais assustadora; enfrentava ele um adversário invisível! ele desferia socos ao ar, esquivava-se, era abatido e levantava-se novamente para enfrentar seu agressor… fê-lo até cansar e retirou-se em seu quarto, onde permaneceu por algumas horas.

passaram-se dois dias. notei marcas em seu pênis, d’onde concluí um desamor próprio sendo descarregado violentamente através da masturbação; passa horas a masturbar-se, com ou sem gozo, até que a genitália sangra ou que seja interrompido por algum outro desejo mundano, como noto quando ele veste suas calças e caminha até a cozinha para tomar café ou preparar a janta mal passadas duas horas desde o almoço. tais costumes não seriam também estranhos não fossem tão espontâneos; por vezes passa horas sem comer e cansando-se em exercícios diversos, outras devora dois pratos de massa e volta a deitar-se em um repouso que nem sequer parece necessitar. o café preto já faz parte constante de seu cotidiano como respirar segundo após segundo ou piscar os olhos. imagino como dorme à noite, e se dorme.

encontrei mais duas garrafas de vinho vazias em seu quarto, sendo que ontem havia apenas uma. não ouso tentar falar-lhe pois sei que isso o afugentaria, posso apenas observar as mudanças em seu comportamento e, apesar de preocupar-me com possíveis exageros na embriaguez, contenta-me que esteja mais calmo nos últimos dias.

durante toda a noite, não levantou-se de sua cama. parece febril em sua ociosidade, mal abrindo os olhos ou balbuciando algumas palavras, mas sua temperatura permanece amena.

quatro dias em cama e escorre suor durante a maior parte da noite! fico imaginando que pesadelos perturbam-no, mas não consigo acordá-lo, não por completo. por alguns momentos chega a segurar minha mão mas logo livra-se dela, dizendo não ser a de… não mencionarei o nome que profere, pois o repete n’outras ocasiões. o nome é balbuciado em meio a seu sono, e embora não compreenda do que tratam-se os sonhos, sei que neles reside sempre essa mesma pessoa, que oras parece uma mortal comum a magoá-lo, ora uma entidade criada por sua mente, obviamente longe de estar sã.

meu amado amigo, agora entendo por que nunca respondeu à carta que enviei-lhe há semanas mencionando o comportamento de meu filho; estavas tu fora de nossa cidade e moradia. não tendo acesso a seu endereço atual, envio esses último escrito em esperança de que lhe seja entregue por quem a receber, em desespero pelo fim do que já foi um dia meu filho e em desabafo e pedido de desculpas por ocupar-te o tempo; és médico do corpo, não do espírito. dápolo não mais sofre entre os vivos, e se houver um deus que cuide de sua alma, que não permita a outro os mesmos dias finais que teve ele – e esses dias, meu caro, talvez tenham sido anos. quanto tempo sofria ele desse mal do coração sem que eu soubesse! de qualquer forma, nada teria podido fazer para impedir a enfermidade. é o destino que se encarrega de fazer a um amar, e é o acaso que se encarrega de fazer do amante alvo do desamor.

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