“O Feio”, uma resenha

Porque cada segundo sem mim é um segundo perdido.

Adicionei a essa resenha alguns comentários de meu amigo, que também parece ter se entusiasmado com a peça e seus elementos, Jai T. Júnior.

O FEIO,
em apresentação da ATO Cia. Cênica no Instituto Goethe, em Porto Alegre, durante a Semana do Teatro Alemão.

O culto à beleza e a perda de si

Poderia dizer que a peça é sobre estética e sua futilidade, mas isso seria vulgarizar ou diminuir o que vivi.

O que aconteceu hoje, em minha primeira sessão de “O Feio”, foi uma experiência. Uso essa palavra porque foi a palavra que se fixou em mim desde o momento em que li alguns livros sobre cinema indicados por minha produtora e que me fizeram perceber que cada filme deve ser uma experiência, independentemente do filme ser “ruim” (o que é facilmente relativizável) ou bom. Ele deve proporcionar uma experiência, o que também depende do espectador.

E digo que a apresentação de hoje foi, de fato, uma experiência porque as impressões que ficaram em mim foram sensoriais. Poderia falar sobre a estética e harmonia do figurino ou, claro, sobre a atuação, fenomenal, mas o resultado geral do que senti durante e que ainda permanece em mim horas depois me parece ter mais valor quando me disponho a escrever a respeito da peça.

Retomando: mencionei estética como a possível temática da peça porque assim imaginei antes de assistir. Esqueçam essa palavra, ou conceito, se puderem: trata-se, se for perdoável a ousadia de falar sobre o texto alheio quando nem os meus sei explicar, de uma sátira da relação indivíduo x sociedade do indivíduo. Explicando o que acabei de complicar, ela retrata o indivíduo confrontando a percepção que se tem sobre ele. Vi a extinção do “eu” ali mais do que vejo em toda minha obra, que batalha constantemente pra livrar-se do pronome.

fotos - o feio

fotos por Diego Bregolin

Jai T: Expressou bem a visão do conceito da peça. A desconstrução do ‘eu’ é provavelmente a coisa mais gritante ali, embora seja levada com infinitas piadas e atuação caricata.

“O Feio” provoca. E provoca muito: pra mim, o tema é trágico. E é mostrado assim. No entanto, toda a peça é demonstrada entre trocadilhos, caricaturas, movimentação etc. comédicos; chamaria de grotesco, até, a perfeita sincronia de tema tragédio com visual comédico.

Jai T: Expressou bem a visão do conceito da peça. A desconstrução do ‘eu’ é provavelmente a coisa mais gritante ali, embora seja levada com infinitas piadas e atuação caricata.

E pra me aprofundar ainda mais na minha forma confessional de resenha, acho que isso define sucinta e justamente minhas impressões à frente do palco hoje: houveram momentos em que tive vontade de rir, mas pouco antes do final da peça eu lacrimejava.

Por dentro da apresentação:

“A partir do momento que se projeta um quadro em cima deles, e se esmagam na parede, tu muda o conceito de dimensão. Porque o quadro acinzentado te força a compreender aquilo como algo contemplativo. Logo é mais um quadro ou uma foto do que algo de carne.” (Jai T.)

fotos - o feio

fotos por Diego Bregolin

Não falei sobre o elemento visual, pra mim importantíssimo, que é excelente e me deu visualizações que nunca tive antes em teatro. Ver, ao vivo, um quadro bidimensional foi sensacional, e isso é usado perfeitamente na estrutura narrativa. O timing deles é impecável.

Quando todos usam mascaras e fica tenso, só um deles chegar perto de mim já me fez ir pra trás — não pra enquadrar o palco na minha visao, mas por medo de olhar o ator nos olhos.

J: Pois é. Achei o momento das máscaras extremamente perturbador, também. Repetições inexpressivas mexem com o imaginário de uma forma bem intima. Porque tu está acostumado a compreender a individualização por base nas expressões.

Teaser

O vídeo abaixo é de 2012, portanto, as datas são referentes às apresentações de então. Esse ano a peça viaja o Brasil, passando por Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Assim que eu souber as datas dou uma divulgada por aqui.

Ficha Técnica
Direção: Mirah Laline
Autor: Marius Von Mayenburg
Elenco: Danuta Zaghetto, Marcelo Mertins, Paulo Roberto Farias e Rossendo Rodrigues.
Figurinos: Marina Kerber
Criação de Luz: Lucca Simas e Luciana Tondo
Operação de Luz: Luciana Tondo
Cenografia: O grupo
Vídeos: João de Son Ny e Mauricio Casiraghi
Operação de vídeos: João de Queiróz
Trilha sonora pesquisada: Mirah Laline
Operação de som: Manu Goulart
Foto: Diego Bregolin
Classificação etária: 14 anos
Duração: 1h30min

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