porque pobre é bandido

Ce vem falar em segurança… Quem não tem segurança é o pobre. Pobre e negro não tem segurança. Porque pra polícia e outros criminosos, ele não só não precisa ser protegido como pode ser atacado e executado. Eliminado. Aliás, não só a polícia e crime organizado, mas a nossa sociedade, da qual fazem parte eu e você, vê o pobre assim. Porque pra tirar bandido da rua vale espancar e vale socar num presídio desestruturado que não tem qualquer intenção de educar as pessoas. E pobre é bandido. Ce vai dizer que não pensa assim, que entende que tem “pobres bons” ou qualquer falácia do tipo, mas ce ta mentindo. Talvez mentindo pra si antes de mentir pros, mas ta. Você vai atravessar a rua quando ver um pobre, e não vai achar errado porque, afinal, é só por garantia. Mas isso significa que você associa pobre a bandido. Significa, então, que pobre é bandido. E aí pode espancar, executar ou jogar numa cela apertada com outras dezenas de pobres bandidos. Eliminar o problema antes que ele se torne um problema seu.

Reproduzo, na íntegra, esse texto do deputado Jean Wyllys a respeito:

Hoje, 23 de abril, o laudo do IML atestou que o dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, um rapaz de apenas 25 anos, dançarino do grupo Bonde da Madrugada, que faz parte do programa “Esquenta”, morreu devido à hemorragia interna provocada por um objeto transfixante, que perfurou o seu pulmão, talvez um tiro. Ainda de acordo com o laudo, o rapaz sofreu corte no supercílio, afundamento no crânio e soco no nariz.

Até então, a versão oficial da polícia é que Douglas fora encontrado morto dentro de uma creche, após cair ao tentar pular o muro. A versão de alguns moradores já acusava a morte violenta por espancamento. Douglas engrossa o número de jovens negros da periferia, das comunidades, que são mortos e encontrados mortos dia após dia, em um Estado que negligencia parte de sua população. Jovens anônimos em sua quase totalidade, invisibilizados pelo senso comum que associa diretamente a pobreza à violência.

Um senso comum alimentado por uma política de guerra às drogas que atinge apenas os mais pobres, os mais jovens, e em especial, os jovens pobres e negros. Uma política que esconde execuções sumárias, como o caso de Amarildo, bastando apenas relatar tais mortes como “autos de resistência”. Quem se preocupará em investigar?

Após a morte de Douglas, moradores foram às ruas em protesto e assistimos a mais violência: durante a manifestação um homem foi morto com um tiro na cabeça. As versões, como sempre, são conflitantes, o que fica realmente desta história é a lembrança diária e amarga do alijamento de tantas pessoas dos direitos civis básicos que deveriam ser garantidos a todos os cidadãos, como a segurança pública, por exemplo. O que fica é a perda. A perda de um jovem inocente, de um dançarino dedicado e sonhador, de um pai de uma menina de apenas 4 anos, do filho de uma mãe que terá de lidar com a dor da perda de seu filho, como tantas mães de tantos Douglas mortos, assassinados, anônimos.

Enquanto o Estado não assumir sua parcela de responsabilidade, se prestando à discussão séria e não-eleitoreira, que passa diretamente pela revisão da política de combate às drogas, do fim da marginalização, da presença real dos serviços do Estado nas comunidades, continuaremos presenciando massacres diários como este, seja por parte das polícias, seja por parte do crime organizado, que funciona com a conivência do próprio Estado às custas da corrupção de seus agentes públicos.

Anúncios
Esse post foi publicado em mundo real e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s