O Prazer

Fazia seis dias que meu corpo estava sedento por drogas. A menos de um metro de mim, um ser cujo esplendor só seria diminuído em qualquer tentativa de homenagem, mesmo que essa fosse expressa pelo mais primoroso hino. Se o homem renascentista tivesse conquistado a universalidade do talento absoluto, ainda teria que fazer referência a ele. E este gênio insuperável dispôs sobre seu livro uma grama de cocaína e me ofereceu uma linha.

Cérebro e coração exaltavam-se; pareciam competir pelo prazer de comemorar o efeito da droga e a presença dele. Jogou seus braços sobre minhas costas e o rosto contra o meu, e encostados assim, não apenas sorrimos, mas quase gargalhamos, como se estarmos juntos então fosse nossa grande piada contra o resto do mundo, uma máquina fria, funcional e, pior do que tudo, um algo que não era nós.

Disse que nada tinha e que me daria tudo. Por que eu duvidaria? Ele se levantou e voltou minutos depois com uma cerveja artesanal, um vinho syrah e cigarros de marcas variadas. Perguntou se eu queria que lhe apresentasse alguém, dizendo que várias garotas lhe confessaram interesse por mim. Eu disse que não. Não estava interessada em sexo mesmo, e lhe ofereci para livre uso meu namorado, que, no que dependia de mim, estava há três meses sem sexo. Pra ele, faz falta. Pra nós, não faz diferença.

Acho estranho que, independente da minha vontade geral de sexo, não deixo de notar pessoas atraentes, de até me interessar, mesmo que brevemente. Apenas um hábito, talvez adquirido por minha construção, tanto pelo modo com que me desenvolvi quanto pelo que a sociedade prega, talvez natural, instintivo, biológico. Talvez ambos. A verdade é que olho pra uma mulher e percebo o quanto ela me atrai e o quanto gostaria de me sentir dentro dela da mesma forma que percebo uma árvore e considero que aquela madeira seria ideal se eu precisasse construir uma canoa.

É preciso fazer o que se quer porque se quer. A maioria das pessoas força ou supervaloriza a sexualidade quando elas têm muito mais a oferecer a si mesmas e talvez raramente percebam. Quando ele disse que a parte do corpo feminino que mais gosta é o coração, assenti. Quem separa o coração do corpo não sabe o que está fazendo.

Meu corpo continua agitado. O dele também. Estamos ambos acordados e já não estamos tão perto. Provavelmente o verei logo, provavelmente compartilharemos drogas, cigarros, bebidas e um acervo de piadas em contínua construção. Ele ama meu corpo, admite, mas confessa ter se realizado quando sentiu em mim a nudez que não se pode ver ou tocar. Tangível é bom, mas é o metafísico que me faz gozar. E só quem goza pela alma entende o que é o derradeiro prazer.

Anúncios
Esse post foi publicado em contos & mini-roteiros, literatura & lingüística e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s