apologia a estupro na pucrs

Denúncia de um amigo meu: “As leis são como as mulheres, foram feitas para serem violadas” diz o professor de Direito Empresarial III agora aqui na Pucrs…

Suma da “piada” do professor de Direito Empresarial da PUCRS e sua repercussão: não, ela não foi “tirada de contexto”. Não, ele não estava dando exemplo de como não agir, como alegaram, DIAS DEPOIS do ocorrido, seus defensores. Sim, ele estava contando uma piada machista que perpetua a banalidade da violência contra mulheres, incentivando a mesma. Sim, ele contou uma piada já contada antes por um paralmentar que RENUNCIOU HORAS DEPOIS devido à repercussão do ocorrido. Sim, ele [o professor] riu da piada ao contá-la, como fizeram alunos que agora o defendem.

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Acho que quem ta criticando a denúncia em si deve ter certeza de que o professor fez merda mesmo. Se não, bastaria que entendesse a denúncia como um erro, não é? E se atacam alguém que nada fez além de registrar o ocorrido, é porque já nem podem atacar o ocorrido em si e precisam apelar. Em suma, nada é pior pra situação do professor do que essa corja de pseudodefensores, cujos argumentos chegam à estupidez do “mas ele é um bom professor”. Tenho certeza que aquele professor de piano que levou uma guria de 13 anos prum motel pra ambos se matarem também dava ótimas aulas. Só pra dar um exemplo de por que considero isso uma PÉSSIMA defesa (aliás defender o caráter de alguém acusado de misoginia lembra muito quem difama o caráter de uma vítima de estupro ou homicídio; “teve o que merece” no segundo caso, “não merece que está tendo” no primeiro).

Em momento algum o rapaz do post fazendo a denúncia pediu atenção pra si. Ele chamou a atenção para o ocorrido, e pronto. É bom dar nosso apoio à luta contra a encrustação do machismo nas mentes de dezenas (ou centenas ou milhares) de pessoas se formando. Crtica a piada machista do teu bróder. Critica a piada machista do teu professor. Do teu pai. Do teu tio “engraçadinho”. De ti. Minha. Acho que das coisas mais importantes que conhecidas me ensinaram é o policiar a si e aos machos à volta, e parece que foi o que foi feito naquela manhã durante a aula.

A seguir, alguns dos pontos altos de uma das (provavelmente várias) discussões acerca do que aconteceu nessa aula:

Caroline S.B.: alguém falou algo no momento?

Christine R.: Parece que o constrangimento impõs o silêncio, Caroline Silveira Bauer…

Luan S.: Ninguem falou nada e maior parte riu muito

Laura M.S.: Luan, nós não nos conhecemos, sou aluna de Psicologia na UFRGS e fico grata por tua divulgação.
Nossa atuação é sempre política (tanto para ação quanto para omissão). Colocar esses discursos em debate é impedir que eles continuem se reproduzindo e constituindo verdades na universidade e nos demais espaços sociais.
Que sirva para repensarmos a função de um professor e de que maneira as falas podem ser exercidas em sala de aula.
Algumas falas, antes consideradas cotidianas, hoje já nos doem aos ouvidos. Saber que essa fala doeu nos teus ouvidos é de grande alegria para mim. Que ela possa cada vez incomodar mais ouvidos até que ela deixe de existir.

Ramiro M.: falou algo errado, mas é um grande homem, sério e uma boa pessoa, quem o conhece sabe. E, ainda, colocam uma foto dele, falta um pouco de bom senso.

Lucas B.: “É um ótimo pai” mas bate na mãe todo dia. Já ouvi isso em outros casos. Quem viola os direitos dos outros deve sim ser escrachado, denunciado e deve pagar pelo crime.

Gabriel G.: Olha, quem faz esse tipo de piada não é um grande homem. E quem deu uma aula do nível que ele deu pra mim (sou ex-aluno dele) não é sério.

Gustavo P.B.: Meu Deus! tu não sabes diferenciar uma piada de uma ofensa, só pode ser do PSOL!

Regina M.B.: Isso não é piada. Isso é machismo.

Ivana G.: Isso NUNCA será piada. Por que temos que ter bom senso com ELE, quando ele não teve com TODAS as mulheres?

Denise S.: Obrigada por tornar isso público, já abre uma discussão importante e necessária!!

Diego F.: É gurizada, depois ainda se julgam cultos por possuir doutorado. Espero as sinceras escusas deste e um posicionamento bem forte da faculdade.

Eduardo C.: Pois é, ficaram com medo de reclamar na hora que a piada foi feita… E agora fazem esse estardalhaço todo nas “redes sociais”… Bem estranho. Eduardo Camargo Acho que quem estava na sala de aula e escutou a piada nem se sentiu tão ofendido assim, pelos relatos, até acharam graça… Aí depois, na rua, influenciadas pela opinião de pessoas que sequer presenciaram o fato, se indignaram… Indignação tardia essa. Manipular a opinião dos outros é uma coisa bem fácil hoje em dia.

Gustavo V.: Pra quem ta perguntando se quem ficou ofendido se manifestou EM AULA: Aluno nenhum é obrigado a se expor e se complicar brigando com professor dentro da sala de aula, onde o professor claramente tem mais poder. Existem órgãos dentro da PUC que servem pra resolver esse tipo de problema, e é neles que o professor vai se defender e onde os alunos vão se queixar.

Graça C.: Luan, você tem noção de que o professor estava contando uma história que ocorreu na Espanha com um ministro que disse essa frase….e que você nao ouviu o comeco da historia e atribuiu a ele? Você tem noção do que você esta fazendo com um homem de bem como o professor Fabio Azambuja? O professor não requentou. Faz parte do aculturamento do aluno saber também o que NAO deve fazer, o que NAO deve dizer. Não dá pra ser educado alienadamente sem conhecer os fatos – bons e ruins – do mundo do Direito. Um advogado, um juiz é alguém que precisa conhecer o mundo, os homens, a humanidade, a desumanidade. Concorda?
Yesterday at 11:04am · Like · 13

Viviane F.: Graça, discordo. E te sugiro consultar o dicionário sobre o significado da palavra “aculturar”.

Luan S.: Não preciso mostrar um vídeo de um estupro para dizer que não é bacana estuprar ninguém, Graça. Eu nâo fiz nada com o professor, apenas compartilhei a piada que ele fez na sala de aula, ele contou a piada para rirem, não foi condenando a piada ou dizendo que não deve ser reproduzida. Agora o que ocorre em sala de aula é segredo?

Diego M.G.: Ele contou a piada ou contou que o politico espanhol disse e tu pegou só o final por que estava postando no facebook no meio da aula?

Luan S.: Ele contou a piada, Diego, se ele tivesse condenado a piada eu estaria elogiando a sua atitude, mas ele não só contou como foi o que mais riu…

Sil R.: O Luan apenas relatou o ocorrido em sala de aula. Algo público , por natureza, haja vista, que o intuito de uma aula é disseminar informações. Se a repercussão social do seu relato é negativa para o professor, o único responsável por isso é o próprio p…See More

Diego M.G.: Então obrigado por esclarecer Luan.

Gabriel R.G.: Gente oportunista. No dia, admitiram que o professor fez uma piada, ressalvando que não se ofenderam, mas houve a piada. Dois dias depois, para tentarem sustentar a sua posição e defenderem o indefensável (repito: dois dias depois), os mesmos inventam uma história de citação, de critica que não mantinham antes, ou seja, se contradizem completamente.

Luan S.: Pois é, Gabriel, do nada surgem histórias muito bem ensaiadas…

Pati C.: Luan, não te conheço, mas sei muito bem que no meio jurídico essas coisas acontecem com bastante frequencia, esses discursos precisam sair de baixo do tapete, professores tem q entender que não podem sair falando o que bem entendem, mil aplausos pra vc.

Clarice Z.: O discurso que diminui as mulheres reforça uma idéia burra de que as mulheres devem ser submissas, por serem inferiores.

Marcelli C.: Ele fez uma piada com uma frase de autoria alheia. A frase é misógina. Ele não a contou para denunciá-la ou critica-la, ele contou para fazer humor sobre ela. Não existe nenhum contexto onde isso é aceitável. Principalmente quando se trata de um professor dentro de sala de aula. Tchê, ninguém vai ouvir uma piada e virar estuprador, não é essa a questão. O fato de a piada existir como algo naturalizado mantém, pela reiteração da banalidade, e promove, pela reprodução através do discurso, a estrutura social que faz com que mulheres sejam estupradas.

Tamiris D.: Existe uma coisa que se chama Cultura. Ela é formada a cada dia, em cada ambiente. Se a pessoa não entende que uma frase desse tipo reforça a posição cultural machista de que a mulher é menos do que o homem, infelizmente, a pessoa está tão imersa que não adianta explicar pelo facebook.

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Reproduzo ainda, abaixo, a Nota de Repúdio da Secretaria da Mulher de Curitiba

Na condição de secretária da Mulher da Prefeitura de Curitiba, enquanto cidadã, mulher, mãe e servidora pública, venho a público manifestar repúdio ao que considero uma “apologia ao estupro”, manifestada em piada machista e misógina, proferida pelo professor universitário Fábio Melo de Azambuja, da disciplina de Direito Empresarial III da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Já anunciando que faria uma “piada” ofensiva, o professor disse em sala de aula: “as leis, assim como as mulheres, foram feitas para serem violadas”.

É lamentável que, no momento em que os poderes públicos e a sociedade civil galgam avanços históricos no enfrentamento da violência contras as mulheres, desenvolvem ações compartilhadas e pactuadas para combater e vencer esse verdadeiro câncer social, que é a violência de gênero, ainda tenhamos de conviver com manifestações bárbaras e medievais como essas. Mais lamentável porque parte da cátedra de um professor universitário, formador de opinião e, o pior, que leciona justamente uma disciplina na área do Direito.

É também na área do Direito que estamos permanentemente lutando, com muita soma de esforços, para enfrentar no dia a dia a violência contra as mulheres. Violência essa que aparece estampada nos noticiários ou ocultada ainda no silêncio da vergonha, da humilhação e da subnotificação das ocorrências. Com muita luta, asseguramos direitos, medidas de proteção e garantimos punições importantes para os crimes de violência contra as mulheres com a Lei Maria da Penha e, mais recentemente, com a Lei do Feminicídio.

Ao falar absurdos como essa apologia ao estupro e outros comentários, postados nas redes sociais por ex-alunas para ressaltar a reincidência do professor nessa má conduta, o docente ancora nossa sociedade no passado tenebroso das relações sociais, o mesmo passado que nos legou as raízes da violência ainda duramente combatida nos nossos dias, apesar dos avanços, das políticas públicas e dos serviços existentes. Basta olhar os noticiários para encontrar exemplos dessas barbáries, desses ódios, desses preconceitos e violências, inclusive nos trotes acadêmicos. Humanizar é preciso!

Reitero os protestos das estudantes, da comunidade acadêmica e da sociedade em geral. “Piadas” como essas não têm graça nenhuma. Têm, sim, responsabilização. A Reitoria precisa ser enérgica e incisiva no tratamento desse caso, sob pena de praticar uma violência institucional, quer seja pelo descaso, impunidade ou desrespeito. Total solidariedade e apoio aos protestos. Avançamos muito – e ainda é pouco diante da violência que enfrentamos – para chegar até aqui e permitirmos que se ensine em sala de aula da educação superior que é natural violar mulheres, que é natural violar leis, que é natural violar a vida e atropelar direitos e a dignidade das pessoas. Porque foram esses os recados transmitidos pelo professor da PUCRS.

Isso é sério! Não é brinquedo. Por isso, nosso repúdio e nossa repulsa.

Curitiba-PR, 24 de abril de 2015.

Roseli Isidoro
Secretária Municipal da Mulher – Curitiba-PR

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