iuzomismo

Tava lendo o terrível drama dos rapazes que “não se sentem representados” em certos textos feministas (!!!). Sim, isso mesmo: homens que vão lá e reclamam porque, afinal, não dá pra generalizar quando existem eles, os que estão lá reclamando, como exemplo de bom moço que respeita as mulheres (mas não o bastante pra aceitar que não sejam representados num texto de uma mulher para outras mulheres, sobre feminismo, sobre a libertação individual da dita ‘feminilidade’) e que não merece sofrer (que dó!) com essas caracterizações do homem como um todo porque as mesmas atingem o indivíduo, ou seja, aquele rapaz que não se sentiu representado e agora reclama pra essas feminazi (sic) “Iuzomi?!”.

Inclusive acho que devido a essas generalizações os ~homens de bem~ acabam sofrendo por crimes que não cometeram quando na verdade deviam ganhar cafuné, biscoitos e chocolate quente por seu esforço [o que seria das feministas sem caras legais como esses né???!] e por também sofrerem com o machismo vítimas de expectativas criadas a partir dos estereótipos masculinos. Inclusive acho que deveríamos instituir o Dia Nacional de Visibilidade Iuzomista: marcharemos pelas ruas com nossas canecas à mão coletando nossas lágrimas num claro protesto contra essas 'radicais' que se alimentam de Male Tears e vestindo camisetas com os dizeres BUT NOT ALL MEN

O texto a que se referiu inicialmente a discussão é Os homens que não amavam as mulheres e recomendo a leitura, mesmo para rapazes, desde que entendam que o texto não é para nós, cromossomos Y.

Segue o baile:

V.[mascu]: Texto bem escrito, mas como um homem que sempre esteve disposto a renuncias pelas mulheres, não me senti representado. Ok, não era pra se sentir representado em um texto sobre as inseguranças femininas mesmo. Só me preocupa que, em prol de uma assimetria que pese em favor da mulher (algo que para mim sempre foi a ordem das coisas), não se enxergue que o homem contemporâneo não é mais o mesmo do início do século. Assim com as mulheres mudaram e conquistaram um status mais igualitário (ainda há barreiras a vencer), os homens também mudaram. Também temos nossas inseguranças e carências; em nós também pesa um papel social de provedor ao qual é difícil de escapar. Olho minhas irmãs, minhas amigas, e todas elas dominam seus relacionamentos e não se sujeitam a homens que tolham suas liberdades. É certo que os ogros ainda estão por aí, bem ativos e, diga-se de passagem, muitas vezes preferidos pelas mulheres, mas também há muitos de nós, os novos homens, que não são culpados do pecado original do machismo, que sempre entenderão as fragilidades e admirarão a força incrível das mulheres, os homens que as amam de verdade.

C.B.: Ai, Deusa, sempre tem um boy que vai vir comentar chateado que ele não está sendo representado porque ele também sofre. Gente, ninguém aqui tá dizendo que homem não sofre. O sofrimento é inerente a todo ser humano. O que as feministas discutem é a opressão que sofrem enquanto classe. E sofrimento individual é completamente diferente de opressão de classe. Os homens mudaram um pouco desde de o início do século? Pode até ser que sim, mas as estruturas opressoras não. É uma mudança deveras cosmética que só tem uma utilidade: sequestrar a subjetividade das minas pra que elas se culpem ainda mais, pra que fique com ela o papel de vítima e de algoz. Não há nada de novo o front, isso acontece o tempo todo no capitalismo que ressignifica diversos discursos e lutas pra expandir ainda mais o modo de produção. É basicamente mudar pra continuar igual. E se tu é beneficiado pelo sistema que oprime uma classe, se tu tem uma porrada de privilégios dessa estrutura opressora chamada machismo, ainda não é o momento de chorar porque tu não tá sendo contemplado pelo feminismo. É uma pena eu estar atrasada, porque gostaria muito de discutir o que é esse “amor de verdade” dos “novos” homens pelas mulheres.

V.: Não sou um “boy” querendo ser representado pelo feminismo, e acho que sim há estruturas machistas em nossa sociedade, mas é preciso ter cuidado para que a demonização de um sistema não acabe por incorrer na demonização generalizada dos indivíduos. Não se pode lutar contra a generalização generalizando. Se queremos evoluir, que seja com diálogo e inclusão, não com preconceito e exclusão. Quem sou eu para contestar a escolha de alguém em ficar sozinha como resistência ao patriarcado, cada um sabe de si. Tenho sorte que minha mulher não coloca essa disputa “capitalista” de vítima e algoz acima do nosso relacionamento. Mas não te preocupa, estou tirando meu cavalinho da chuva; já deveria saber que homens não são bem vindos nessa pauta.

C.[mascu]: na estrutura machista ta cheio de mulheres machistas. cuidado, generalização é sempre complicada e passível de interpretações equivocadas. ah, e “boy” pra mim é pejorativo e preconceituoso, o que não ajuda em nada a causa. […] Interpretação de texto não é pra todo mundo mesmo. ninguém pediu pra ser tratado por senhor ou mestre em momento algum e tu me chamar de “boy” ou qualquer outro termo não vai fazer diferença alguma pra mim. penso que a questão é bem maior que colocar termos para A ou B e foi isso que de uma forma sucinta eu tentei colocar. mas enfim…

F.F.: ah meo chamar voces de “senhor” ou “mestre” entao. Brigada pelos ensinamentos sobre generalizacao, nós MINAS realmente nunca havíamos pensado a respeito. So boys mesmo pra no meio de uma discussão sobre feminismo, cheia de nuances imprescindíveis, poderiam se ofender com “boy” HAHAHA

M.[mascu]: eu só posso responder por mim: não fiquei chateado.

Fiz algumas perguntas absolutamente sinceras e nada retóricas, porque sinceramente achei a reação ao que Vicente escreveu completamente desproporcional, agressiva e matando qualquer possibilidade de diálogo que ele propunha. Me perguntei se isso se deve ao meio que estamos fazendo isso ou a capacidade de se colocar e problematizar certas questões. Sobre tua afirmação “ele não propriedade alguma de falar sobre a opressão das mulheres porque não é o local de fala dele.” Me desculpe, mas ele tem propriedade de falar, sim, tudo que for da opinião dele. Que pode muito bem ser desconstruída em forma de argumentos, alguns dos quais tu utilizou nesse teu último comentário. O V., homem, heterossexual, pode opinar sobre o texto que foi postado, sim. Vai ser uma opinião limitada pelo fato dele ser homem, heterossexual. Muitas vezes, num diálogo, me interessa muito as partes que não são limitadas, em vez de acusar as limitações do outro. Agora, se estamos no terreno dos dogmas, aí é outra coisa. Só me resta desejar boa sorte aí na luta de vocês.

C.B.: Vocês ficaram chateados porque eu chamei o V. de boy e disse que ele ficou chateado? Não retiro uma única palavra. O V. quer uma medalha porque ele não é um completo idiota com a namorada dele (coisa que ninguém aqui tem como afirmar que é verdade, mas enfim essa discussão não me compete). Isso foge da vontade dele porque a gente tem que discutir é a socialização dele enquanto homem e, de novo, os privilégios e benefícios que ele tem por ser lido socialmente como homem e é por isso que não, ele não é especial, ele não merece medalha. M., ai que tá, ele não [tem] propriedade alguma de falar sobre a opressão das mulheres porque não é o local de fala dele. Ele nunca vai conseguir ter noção da real complexidade de negação de direitos que uma mulher sofre. Que inclusive as diversas opressões que diversas mulheres sofrem, porque há ai recortes de raça, de classe, de orientação sexual que precisam entrar na roda. Inclusive né gente a indireta maravilhosa dele de “tenho sorte que minha mulher não coloca essa disputa “capitalista” de vítima e algoz acima do nosso relacionamento” só mostra que ele é o estereotipo machista desse “novo homem” que vocês tão tentando fazendo a gente engolir aqui nesse debate. Ele quer uma medalha por dizer que mulheres são incríveis, mas continua tentando perpetuar um modelo de mulher. É só um novo jeito de um homem ser machista. E Jason a gente constrói a nossa individualidade na relação com o outro, somos sujeitos sociais, embora essa socialização seja sim cheia de nuances é possivel sim apreender os movimentos mais gerais da dominação patriarcal. Qualquer que seja a opressão, a gente nunca poderá discutir ela no âmbito individual, mas de resto concordo plenamente contigo.

Coiote [eu, mascu]: Opinar (e deixando claro sua limitação em capacidade opinativa no caso) sobre o texto é uma coisa, mas se o texto fala em geral de homens e relacionamentos hetero, mas houver uma exceção, ainda não é desculpa pra fazer mimimi por “não ter sido representado” no texto. Esse “But not all men…” já é muito like all men: isso não é sobre ti, mas tu vai lá e sente TUA falta no texto? É, sim, a reação automática (já o fiz e tive discussões que me foram produtivas pra me ensinar a “me colocar no meu lugar”, o que, em muitos casos, é longe) de quem foi educado como o centro do mundo: eu, tu; nós, cara. […] É como reclamar que ~aquele coletivo de lésbicas feministas negras nunca me convidou pras suas reuniões justo eu que super apoio lesbicas questiono o machismo e odeio racismo~, saca? desculpa a analogia exagerada, mas achei a ver.

C.B.: M., que bom que tu não ficou chateado. Parece desproporcional pra ti porque tu também fala a partir dos limites impostos pelo teu local de fala. Que diálogo seria possível com um cara que só quer ter o reconhecimento de ser completamente diferente de todos os outros sendo isso nem é possível? Como é possível um dialogo com um cara que lê um texto que fala sobre opressão estrutural e personifica a relação dele? Como é possível diálogo com um cara que acha que pode dar indiretas sobre ele ter sorte por possivelmente não namorar uma guria como eu e ainda apenas não entendo a analogia que eu fiz com o capitalismo enquanto sistema de opressão tal qual o patriarcado? HAHA Desculpa, há um problema bem grande nisso de leitura da realidade. E, vamos lá, é sempre mais fácil enxergar a “violência” (porque meninas não podem nunca ser agressivas! imagina que horror uma mulher que não seja sempre delicada? imagina que péssimo uma mulher que se recusa a exercer a maternidade compulsória de boy que ela quer pariu? tu entende como isso é sim reproduzir um discurso machista?) de quem é oprimido do que a violência daquele que é beneficiado e perpetua a opressão.

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