remington

Ao som do piano de Rachmaninoff ele atira o computador contra a parede; cai no chão, a lataria apenas amassada. Junta e atira outra e mais uma vez; nesta terceira, ele cai livre da capa metálica que o protege e algumas peças se espalham no chão, presas umas às outras por fios entrelaçados. Chuta o amontoado de lixo eletrônico; uma placa se separa dos fios e voa contra a parede. Ele ri trincando os dentes, o corpo todo se mexendo, olhando para todos os restos espalhados pelo quarto. Coloca as mãos sobre a cabeça, que verte para cima, e grita, urra, tão gutural quanto satisfeito. Acende um cigarro e se senta à máquinta de escrever.

Encontrara a Remington na casa de um amigo; este viajara e deixara o lugar a seus cuidados. Não se importou: tomou a máquina, esvaziou a geladeira de cerveja e deixou a casa do amigo, destrancada. Agora, em seu próprio apartamento no centro da cidade, fitava a máquina, um pouco enraivecido ainda, mas calmo o suficiente para se concentrar, ou assim pensava.

Começou pelo conto inacabado, para o qual teve a idéia depois de sonhos perturbadores duas noites antes, e percebeu que teria de recomeçar tudo. Tudo na máquina, desde o primeiro parágrafo, a primeira frase (que ainda lembrava com exatidão). Pôs-se a partir daí a escrever. Não lembrava exatamente como estruturara cada frase, mas não se importava; ia relembrando o desenrolar da história à medida em que batia, ora furiosamente, ora com calma, à antiga mas ainda eficiente máquina. O amigo era um jornalista, indigno dela. O texto voltava a ele como só pode surgir na mente e nas mãos de um escritor.

Logo já passara do parágrafo em que interrompera a história; seguida, seguia sua protagonista por eventos que nem podia imaginar virem, e lá estavam. Logo ela já se desencontrara totalmente, enquanto ele se encontrava como nunca antes. Estava vivo dentro daquele conto, estava extasiado em sua hipergrafia e no desenrolar ininterrupto de idéias. Esse poder todo o fascinava, ao mesmo tempo que se deliciava com a impotência diante dos fatos que eram descritos por ele mesmo apenas instantes antes de voarem aos dedos, às teclas e dessas, pelo , ao papel.

Em menos de cinco minutos, o conto estava terminado. Ofegava como ofegara no processo que o levou àquela máquina, àquela cadeira, àquela mesa; não gritou, mas sorriu, desta vez um sorriso aberto, de satisfação plena. Como se acabasse de gozar, como se tivesse expelido tudo que nele crescera ao longo de anos – ao longo de séculos vezes dezenas que formaram a sociedade que o formara.

Lá estava ela, sua protagonista, atirada no chão, no meio de uma rua, aos poucos cercadas de observadores surpresos, nem tão assustados; seu sangue jorrando pela rua e eles fazendo nada senão olhar, tecer comentários sussurrados, especular sobre o acontecido, culpá-la, por fim, pelo fim que tivera; não é sem motivo que alguém é surrada desta forma. O rosto desfigurado, ossos amassados sob a pele, juntas partidas, marcas por toda a parte visível, que era quase todo o corpo, tão pouco sobrara do vestido rasgado. E ele estava satisfeito, matara sua sede, matara sua personagem, destruira a ânsia por escrever que parecia querer destruí-lo.

Ainda fumaria um cigarro antes de se preocupar com a volta do amigo, com a possibilidade de ter que devolver a máquina – mataria-o antes; fumaria um cigarro e esperaria horas até que o torpor literário abandonasse seu corpo.

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