aquela carta

um conto sobre deus, papai noel e o velho-do-saco

“Faz tempo, não? Não lembro quando foi a última vez que pensei em ti como algo além de histórias inventadas para moralizar os filhos, para aceitarmos perdas e tristezas… Nada faço além de criticar as Escrituras, toda a cultura que girou em torno de Ti, enfim, tudo que a Ti está relacionado. Talvez, talvez, isso nos tenha separado ainda mais. Quem sabe? Mas estou disposto a crer. Crer de novo.

Os motivos que me levaram para longe de Ti talvez sejam vários, talvez nenhum em especial… Eu questionei. Duvidei. E acho que isso é o bastante, não? Não, não Te culpei pelo sofrimento do mundo, ou do meu, que seja. Só perdi minha fé. Quando a tinha, tinha certeza, simplesmente sabia: Tu estavas comigo. Agora, não sei. Mas pelo menos estou questionando, não? De certa forma, é como se eu tivesse fé na fé.

Pai, apenas apelo que venhas. Pra mim, pro mundo, mas mostra-Te. Como puderes, mostra-Te. Eu quero tornar a crer, eu quero que tu “exista”, usando o termo tanto debatido. Existe pecado? Pecadores? Se sim, espero que não me julgues um homem ruim por ter me tornado ateu. Antes a falta de fé do que a má fé que assola esse mundo.

Nos protege. Te faz presente e protege a nós.”

Finalizou a carta com o nome à margem direita. Abaixo da assinatura, completou: “seu (outrora) fiel seguidor”. Para simbolizar o apelo, colocou a carta em um envelope, que ainda lacraria com tinta e assinaria com o próprio nome e endereço para resposta no lado destinado aos dados do remetente da carta. Não tendo a quem endereçar, deixou o outro lado em branco.

Não devia.

Sem endereço para envio, a carta foi extraviada. Perdido no caos da burocracia de tantas remessas por enviar, a carta escrita com tanto carinho para Ele em um momento de desespero acabaria rumando para o norte, além das fronteiras das terras mais populosas.

Passaram-se algumas semanas até que aquela figura levemente curvada, carregando às costas uma enorme bolsa, que aparentava murcheza, visto que ali havia um, e somente um, presente, destinado a um homem que perdera sua fé. O presente, embalado cuidadosamente, só deveria ser aberto depois da partida deste senhor de barbas esbranquiçadas, que ainda tinha em seu rosto um certo brilho sorridente, apesar das vestes sufocantes, que além das botas incluíam calças e casaca vermelho-escuro. Tudo perfeitamente adequado à sua morada, mas não mais do que agentes para o calor em seu percurso.

A imagem daquele velho trouxe ao autor da carta lembranças, mas não boas lembranças — muito pelo contrário. Eram noites de agravada ansiedade que vinham à sua mente, sempre à espera dele. E não foi o único; do outro lada da rua, também fora despertado de pensamentos introspectivos um vizinho.

Ambos partiram em direção ao velhinho, ainda apreensivos, mas determinados. O primeiro colocou o velho no chão com um único golpe, dado com as duas mãos fechadas uma por dentro da outra, jogando o braço à nuca dele. O segundo o chutou tão logo seu rosto encontrou o chão. Não tendo dúvidas de que era o lendário Velho-do-Saco que espreitava por sua rua à noite, certamente pronto para carregar dali uma criança tão inocente quanto antes de provocar qualquer-que-fosse a suposta maldade pela qual ele a levaria, chutaram e pisotearam-no ainda por muito tempo depois que sua respiração não mais se percebia. Os vizinhos, arfando, olharam-se por alguns segundos em respeitoso silêncio, e rumaram em direções opostas, cada um para sua casa.

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