douglas adams sobre resoluções de ano novo

Meu presente pra vocês hoje é esse: excerto de um livro de Douglas Adams, inédito em língua portuguesa, traduzido por mim. Você deve estar se perguntando “Mas quem é Douglas Adams?”, e não é por falta de conhecimento sobre a literatura que originou o Babel Fish e precedeu a Wikipedia, sem contar com o fato de nos ter presenteado com a resposta para a vida, o universo e tudo mais; não é por isso. Afinal, você provavelmente sabe quem é Douglas Adams. E provavelmente bebe como ele. Talvez até mais. Provavelmente, muito mais. Então você pergunta “Quem é Douglas Adams?” da mesma forma que perguntaria “Quem é você e o que está fazendo aqui?” para o próprio cônjuge acordar na cama de vocês ou, pior, para um(a) completo(a) desconhecido(a) ao acordar na cama dele.

Esse texto é adequado a vocês que lêem esse blog, adequado aos fãs de D.N.A. e mais do que adequado a um fim-de-semana estendido. E não vou incorrer em falsa modéstia aqui: não existe tradutor mais adequado para trazer à nossa língua a obra de Douglas Adams. Primeiro, porque li e reli tudo que tenho deles vezes o suficiente para achar tudo um saco, sem achar tudo um saco. Segundo, porque, sem desrespeito a outros tradutores do autor, ninguém mais é tão dedicado a pesquisas de cada detalhe incluso no texto original quanto eu. E quando digo dedicado a pesquisas é óbvio que estou usando um clássico eufemismo para distraído e viciado em cafeína.

Em suma, inadequado mesmo, só Douglas Adams, como ele próprio dizia. Deve ser verdade. Afinal, ele escreveu para Monty Python e Doctor Who. Vocês sabem o que é escrever para Monty Python e Doctor Who de décadas atrás? Nem eu, então vamos respeitar o homem. E não ouse sair de casa sem uma toalha. As chances de você precisar de uma e ter uma são infinitamente maiores do que as chances de você sair de casa sem uma e não precisar. Faça o teste.

Agora, ao texto.

CURAS PARA RESSACA
por Douglas Dams

    O que é que todos tentaremos fazer no próximo sábado? Não Resoluções de Ano Novo, se formos metade sãos. Todas falham tão vergonhosamente no início do Ano Novo que poucos de nós vamos querer ajustar nosso senso de futilidade fazendo Resoluções de Milênio Novo para que todas falhem, relativamente falando, mil vezes mais cedo que o usual.

    De fato – se posso divagar um pouco (e se você não quiser que eu divague, então você deve perceber que está lendo a coluna errada), acontece que deve haver uma razão muito boa pela qual falhamos em manter nossas Resoluções de Ano Novo além da óbvia e abjeta fraqueza de vontade. Nós não conseguimos lembrar quais são. E se chegarmos a escrever elas, então provavelmente não conseguimos lembrar onde colocamos o pedaço de papel. Estranhamente, o pedaço de papel às vezes se torna conhecido por reaparecer exatamente um ano depois quando você está procurando por algo onde escrever as próximas tentativas malogradas de colocar sua vida em algum tipo de ordem. Isso não é, ao que parece, uma coincidência.

    Incidentalmente, sou o único que acha a expressão “ao que parece” incrivelmente útil? Ela lhe permite fazer leves, sucintas e autoritárias conexões entre de outra forma aleatoriamente desconexas afirmações sem se dar ao trabalho de explicar qual é sua fonte ou autoridade. É ótimo. É enormemente melhor do que suas predecessoras, “Eu li em algum lugar que…” ou a covarde “Dizem que…” porque ela sugere que qual seja o inconsistente naco de mitologia urbana que você está passando adiante é baseado em novidade, em pesquisa inovadora, mas que é uma pesquisa na qual você por si próprio esteve intimamente envolvido. Mas, novamente, sem nenhuma autoridade notável. De qualquer jeito, onde eu estava?

Parece que o cérebro é afetado pelo álcool. Bem, sabemos disso, claro, e os que não sabem ainda estão todos por descobrir. Mas há diferentes gradacões do efeito, e aí fica o ponto crucial. O cérebro organiza suas memórias como uma espécie de holograma (ao que parece). Para recuperar uma imagem, você precisa recriar as exatas condições na qual ela foi registrada. ,No caso de um holograma, é a luminosidade, e no caso do cérebro é ou pode ser (ao que parece) a quantidade de álcool chapinhando ao seu redor. Coisas que acontecem a você ou, por mais assustador que seja, que você mesmo diz ou faz enquanto sob o efeito do álcool só vão ser reencontradas por sua memória quando você estiver sob o efeito da mesma exata quantidade de álcool novamente. Essas memórias estão completamente além do alcance de nossa mente normal, sóbria. Por isso que, depois de um imprudente fim de tarde, você será a única pessoa que está desinformada a respeito de um comentário berrantemente estúpido que fez para alguém cujos sentimentos lhe são profundamente caros, ou mesmo apenas um pouco. Somente semanas, meses ou, no caso da véspera de Ano Novo, exatamente um ano depois que a ocasião subitamente retorna à sua consciência com um solavanco enauseante e você percebe por que as pessoas tem evitado você ou olhado em seus olhos com um olhar gélido por tanto tempo. Isso frequentemente resulta em você dizendo “Jesus Pai!” para si mesmo em voz alta e procurando um drink forte, o que lhe leva ao próximo ponto de inebriação no qual, é claro, novos choques aguardam para seu prazer.

    E o mesmo vale para o caminho de volta. Há certas memórias que só serão reativadas revisitando o mesmo exato estado de desidrataçãoem que os eventos originais aconteceram. Daí o problema das Resoluções de Ano Novo, que é o fato de que você nunca lembra de fato as resoluções que fez, ou mesmo onde as anotou, até o mesmo exato momento no ano seguinte, quando você é horrendamente lembrado de sua completa falha em se ater a elas por mais do que uns sete minutos.

    Então qual é a resposta para esse terrível, autoperpetuante problema? Bem, obviamente, rigorosa autodisciplina. Uma adesão monástica a um regime de vegetais fervidos, água pura, longas caminhadas, exercícios regulares, dormir cedo, acordar cedo e, provavelmente, algum tipo de unguentos aromáticos ou coisa parecida. Mas falando sério, o que mais vamos querer no dia de ano novo, e e desesperadamente tentando lembrar como fazer, é uma boa cura pra ressaca, especialmente uma que não envolva mergulhar através do gelo no Parque Serpentine. O problema é que nunca conseguimos lembrar delas quando queremos, ou sequer saber onde encontrá-las. E o motivo pelo qual nunca lembramos dela quando as queremos é que ouvimos falar delas quando não estamos realmente precisando delas, o que em nada ajuda, pelas razões destacadas acima. Imagens nauseantes envolvendo gemas e molho de tabasco embriagam seu cérebro, mas você não está realmente em condição de organizar seus pensamentos. Por isso precisamos urgentemente organizá-los agora enquanto ainda há tempo. Então eis aqui um apelo para métodos bons, efetivos de refrescar o cérebro no Ano Novo que não envolvam cirurgia craniana. Curas para ressaca, por favor e portanto, para http://www.h2g2.com. E que os próximos mil anos sejam especialmente bons para você e seus descendentes.

The Independent on Sunday,
Dezembro de 1999

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