lembrando do kevin

Fora ter vindo de Viamão, onde ficou sua família, Kevin não tem uma história. Ou melhor, tem, nós, que não o somos, é que não a temos. Aqueles minutos num encontro aleatório é toda história que alguém tem dele; outro alguém terá outros momentos, de encontros avulsos ou até periódicos. Ia à porta do mesmo pub que eu frequentava, inclusive chamava pela mesma bartender que eu. “Que ele pensa, perturbando *minha* bartender?!”, cheguei a pensar uma vez, enquanto o segurança entrava pra chamá-la. Ela veio, elogiando sua aparência, melhor em relação à última vez que o vira. Ele pedia dinheiro provavelmente porque tinha um vício. Eu pedia um drinque sem dúvida pelo mesmo motivo.

Assim nos conhecemos. Dificilmente eu tinha algum dinheiro pra compartilhar com ele, então sempre oferecia cigarro. Se ele fumava, se ele dava pra alguém em troca de moedas, se usava as cinzas como filtro pra outro tipo de fumo, não importa. Era o que eu tinha à mão e assim que a gente se vira quando está na rua: dá o que tem, aceita o que dão. Não foi à toa que uma vez, caminhando pelo centro depois de uma noite de trabalho, cansado, sob chuva, ele gritou pra mim do outro lado da rua e perguntou se eu queria cigarros, que aceitei prontamente, porque estava sem.

E foi numa dessas que o vi perdendo tempo com um rapaz a discursar pra ele sobre meritocracia. Eu e meu amigo tomávamos cerveja em um bar de esquina, de onde vimos a cena, e fomos até o rapaz em questão pedir que ao menos não ficasse incomodando o guri. O rapaz explicava que ele não devia ficar por aí pedindo, que ele tem que trabalhar pelo dinheiro, e que ele gastaria em crack, se desse algo. Dissemos que não cabia a ele julgar como ele deveria gastar o dinheiro que lhe viesse, enfim. Dei um cigarro pro Kevin, que seguiu caminho, voltei pro bar. Nenhum de nós tinha dinheiro, já que o amigo estava me bancando umas cevas no cartão. Pouco depois, aquele mesmo rapaz veio pedir cigarro pra mim, o que começou outra discussão, já que ele mesmo agora pedia por algo. “É diferente!”, e voltou a história da meritocracia, do malefício que essa ou aquela droga faz, do direito de cada um sobre si, além do fato de que o mesmo que importunava o Kevin por pedir agora me pedia por algo. A discussão foi encerrada quando o Kevin voltou e deu seu cigarro pro rapaz, que voltou quieto pra companhia de um amigo. Não pude deixar de achar sensacional o tapa na cara que ele, magricelo, guri, de rua, deu naquele provavelmente bem abastado homenzarrão duas vezes o tamanho de qualquer um de nós.

Não tenho tido notícias do Kevin. Uma vez ele passou por mim e disse que eu tinha que ir conhecer sua mãe qualquer hora; ele parecia orgulhoso de ter reatado algum nó, ou algo assim. Talvez quisesse mostrar que não preciso me preocupar, talvez só tivesse entusiasmado com algum encontro familiar recente. Os encontros ficaram mais escassos porque saí menos à noite, quando antigamente circulava inúmeras vezes, fosse na entrada e saída de um trabalho, fosse em peregrinações bar a bar como cliente.
Queria escrever um pouco sobre ele e isso foi tudo que pude fazer, em meio a uma aula e, depois, em casa, pra completar o texto. Que não tem conclusão.

E se eu encontrar o Kevin por aí de novo e tiver algo a acrescentar aqui, farei, mas provavelmente o mais importante a fazer vai ser o mesmo de sempre: dispensar alguns minutos de conversa com ele, mesmo que não tenha muito a falar a não ser “se cuida” só pra ouvi-lo dizer que, precisando de algo, é só chamar. Que eu sou parceiro e ele não vai me deixar na mão, nem que ninguém me incomode. É o Kevin, sabe? Não sei de que ajuda ele precisa, mas ele também quer ajudar.

Nos vemos por aí.

maio/2016

Anúncios
Esse post foi publicado em a vida em anexo, mundo real e marcado , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para lembrando do kevin

  1. . disse:

    Belo texto!!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s