decepções na infância

“Uma das poucas coisas da infância no Meio-Oeste que ainda me fazem falta é essa convicção bizarra, iludida porém inabalável, de que tudo ao meu redor existia única e exclusivamente Para Mim. Serei eu o único a ter possuído essa sensação profunda e estranha quando criança? — de que tudo exterior a mim existia apenas na medida em que me afetava de alguma maneira? — de que todas as coisas eram de alguma maneira, por via de alguma atividade adulta obscura, especialmente dispostas ao meu favor? Alguém mais se identifica com essa memória? A criança deixa um
quarto e agora tudo naquele quarto, assim que ela não está mais lá para ver, se dissolve numa espécie de vácuo de potencial ou então �1(minha teoria pessoal da infância) é levado embora por adultos escondidos e armazenado até que uma nova entrada da criança no quarto ponha tudo de volta em serviço ativo. Será que era insanidade? Era radicalmente egocêntrica, é claro, essa convicção, e consideravelmente paranoica. Fora a responsabilidade que implicava: se o mundo inteiro se dissolvia e se desfazia cada vez que eu piscava, o que aconteceria se meus olhos não abrissem?”
-David Foster Wallace, “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”, em tradução de Daniel Galera/Daniel Pellizzari, publicação da Companhia das Letras​, 2009.

Respondendo a pergunta sobre alguém se identifcar com tal memória, sim, David. Tinha péssima sensação, mais do que uma mera frustração, um desencantamento terrível, quando me enganava com a visão de algo feito para mim — um possível brinquedo visto de longe revelar-se não mais do que um objeto de adultos, ou por natureza inanimado e inanimável me jogava em um pasmo introspectivo do qual não sabia como sair, uma tristeza que parecia congelar o tempo em si.

Lembro, mesmo que vagamente, de um momento desses enquanto passeava só pela AABB, onde realizavam-se muitas das festas de minha família paterna. Às vezes eu brincava com primas e primos por lá, nos aventurando pelas diferentes áreas, fazendo tudo parecer novo sempre. Noutros momentos, por desencontros físicos ou das vontades, me obrigava a perambular sozinho pelo clube e suas vastas áreas. E de repente avistava algo, digamos que fosse um carrinho, e ao me aproximar, percebia não ser mais que um banco ou um arbusto, alterados em minha ótica, provavelmente influenciada pela vontade de ser entretido. E sim, é um mundo inteiro que deixa de existir quando o que num momento anterior tu conhecia, o sabia, deixa de sê-lo.

Já não há mais aquela fonte de diversão (e que mais deveria haver senão diversão?): no lugar dela, o tédio de um objeto que não me servia.


#infância #tristeza #davidfosterwallace #literatura #ensaios

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