pense na lagosta

“A verdade é que se, comparecendo ao festival o sujeito se permitir cogitar que as lagostas podem sofrer e que prefeririam que isso não acontecesse, o FLM [Festival de Lagostas do Maine] começa a ficar parecido com um circo romano ou um festival de torturas medievais.
Parece uma comparação exagerada? Se for o caso, por quê, exatamente? Ou que tal esta: é possível que as gerações futuras considerem as práticas de agronegócio e alimentares contemporâneas da mesma maneira como hoje enxergamos os espetáculos de Nero ou os experimentos de Mengele? Minha própria reação inicial é achar uma comparação dessas histérica e extremada — todavia, o motivo pelo qual ela me parece extremada é que eu creio que os animais são moralmente menos importantes que os seres humanos, e quando se trata de defender essa crença, ainda que para mim mesmo, preciso reconhecer que (a) tenho um óbvio interesse egoísta nessa crença, pois gosto de comer certos tipos de animais e quero ser capaz de continuar fazendo isso, e (b) não consegui elaborar nenhum tipo de sistema ético pessoal dentro do qual essa crença se torne verdadeiramente justificável em vez de ser apenas uma conveniência egoísta.”

David Foster Wallace, em “Pense na lagosta”, artigo publicado no Brasil no livro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, Companhia das Letras, 2012.

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