dos diários recentes…

Foram três dias. Três dias em trinta e três anos, dentre os quais soube ler e escrever desde os meus quatro ou cinco. E não lembro de jamais ter ficado três dias impossibilitado– não! Proibido de escrever. Acredito que anarquistas russos em cárcere e o Marquês de Sade tenham tido menos dificuldades em conseguir meios de escrever enquanto confinados. O motivo? Eu poderia me matar com uma caneta. Bem, até entendo. Mas a regra se estendia até à carga da caneta. A carga de tinta.

Numa olhadela em volta em cada ambiente deste instituto já pensei em mil outras formas de agredir, fatalmente ou não, a mim ou a outrem. A burocracia é burra. A burrocracia não cura vícios, nem trata quais males de saúde mental. A burocracia emperra a arte.

Foram também três dias até receber os livros que trouxe comigo para ler. Note: eles já estavam comigo quando vim. Só precisam passar pela “checagem”, num prédio próximo ao que eu seria direcionado tão logo me permitissem receber baixa hospitalar. Ou seja, os livros nunca deixaram o perímetro do complexo de “casas verdes”1. Três dias sem nada pra fazer exceto dormir, comer, usar drogas induzidas por eles sem indicação de composição ou utilidade. Na verdade, eu nem sabia o que estava tomando até perguntar.

Eis a vida sem drogas institucionalizada!

1referência a “O Alienista”, de Machado de Assis

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