excertos de “Dance Dance Dance, de Haruki Murakami

(1º capítulo)

“(…) há pessoas que são atraídas pela minha SENSATEZ. São poucas pessoas, mas elas existem. Elas e eu somos como dois planetas que gravitam na escuridão do espaço, naturalmente se atraindo e se repelindo. Elas vêm a mim, relacionam-se comigo e um dia vão embora. Elas se tornam amigas, namoradas, esposas. Em certas situações, tornam-se minhas oponentes. De qualquer forma, todas acabam se afastando de mim. Algumas desistem, outras se decepcionam, outras silenciam e acabam indo embora.
(…) Provavelmente elas conseguiram enxergar uma imagem pouco distorcida do que sou realmente. Esse deve ser o motivo pelo qual elas se aproximaram de mim e depois se afastaram. Elas reconheceram meu esforço de ser sincero — não consigo encontrar outra explicação — e procuraram acreditar nele. Tentaram me dizer algo e fazer com que eu abrisse o meu coração. A maior parte dessas pessoas era dócil e carinhosa. No entanto, nada pude lhes oferecer. Mesmo que eu pudesse lhes oferecer algo, esse algo parecia insuficiente. Sempre me esforcei para dar o melhor de mim. Tudo que pude fazer eu fiz. Eu também desejava algo delas. Mas, no final das contas, nada dava certo. E, asssim, partiram.”

(7º capítulo)

Penso nos motivos que levam uma banda de rock a escolher um nome tão exagerado [GENESIS, do grego, “origem”]. Com os olhos fechados e o corpo imóvel, pude sentir o álcool circular lentamento pelo meu corpo. Desamarrei os cadarços dos sapatos, tirei a roupa e enrolei-me nas cobertas. Eu estava muito mais cansado e muito mais bêbado do que pensava estar. Esperava uma garota sentada ao meu lado dizer: Ei, você está bebendo demais. Mas ninguém disse nada. Estou sozinho. ORIGEM.

(11º capítulo)

Tome cuidado, viu? Se não quiser ser morto, é melhor ter cuidado. A guerra sempre existe. Em qualquer época. Não há razão para deixar de existir. Mesmo que não pareça, ela existe, entende? No fundo, os seres humanos gostam de matar uns aos outro. E todos se matam até cansar. Quando se cansam, fazem uma pausa para repousar. Depois começam de novo. É assim. Não se pode confiar em ninguém e nada se sabe. Por isso, não tem jeito. Se você não gosta disso, só lhe resta fugir para outro mundo.

(13º capítulo)

Sinto que temos algo em comum. Tenho a impressão de que se quiser dormir com ela, conseguiria fazê-lo. Mas, e daí? Provavelmente, ficaria mais perdido ainda, pois não consigo apreender o que eu devo buscar. Como minha ex-mulher dizia, enquanto for capaz, só irei magoar mais e mais pessoas.

(15º capítulo)

Antigamente, eu era louco por rock’n roll, assim como você também curte suas músicas — expliquei. Quando eu tinha mais ou menos a sua idade ficava todos os dias grudado no rádio, juntava uns trocadinhos e comprava um disco. Rock ‘n Roll. Achava que no mundo não existia nada melhor que isso. Só se ouvir essas músicas eu me sentia feliz. –E hoje? –Também escuto. Tenho algumas músicas preferidas. Mas não ouço com tanta dedicação a ponto de decorar as letras. Hoje não me emociono tanto quanto antes. (…) Acho que é porque descobrimos que existem poucas coisas que realmente valem a pena. Tudo é assim. Livros, filmes, concertos… são poucas as coisas boas. O rock é um exemplo disso. Se você ficar ouvindo rádio por uma hora, vai encontrar apenas uma música realmente boa. O resto não passa de refugo da produção em massa. Antigamente, eu não estava nem aí com essas coisas. Tudo que eu ouvia me agradava. Eu era jovem, tinha muito tempo e estava apaixonado. Coisas chatas, coisas insignificantes já eram motivos mais que suficientes para sentir aquela emoção.

(27º capítulo)

(…) seria bom sair de Tóquio, ir para um lugar completamente diferente, trocar de ares. Aqui em Tóquio, eu estava num tremendo impasse. Não consegui ter nenhuma idéia boa. O fio da meada tinha se perdido e não tinha nenhum indício de que um novo podia ser resgatado. Sentia que não estava no lugar certo nem fazendo a coisa certa. Nada que eu fizesse me fazia sentir confortável. Eu me sentia mal, como se eu estivesse sempre me alimentando de modo errado e conquistando coisas erradas. (…) Em outras palavras, eu estava cansado.

(28º capítulo)

(…) naquela hora, estava cansado e não conseguia pensar direito, Siu um ser humano totalmente imperfeito. Sempre cometo falhas. Mas também aprendo. Decido nunca mais repetir o mesmo erro. Mesmo assim, muitas vezes acabo cometendo-o. Por que será? É simples. Porque sou bobo e imperfeito. Nessas horas, fico um pouco com raiva de mim mesmo e decido não cometer a mesma falha uma terceira vez. Vou progredindo aos poucos. Pode ser um pouco de cada vez, mas progresso é progresso.

(32º capítulo)

(…) a necessidade se cria assim de forma artificial. Não é algo que nasce naturalmente. SOMOS ILUDIDOS. Aquilo que não é necessário para as pessoas é fantasiado de modo a parecer necessário. (…) Não tinha a intenção de obrigá-lo a me fazer companhia, mas só tenho você para conversar. É verdade. Não sou capaz de falar com ninguém. (…) Estou cercado por um bando de idiotas — disparou Gotanda, como que vomitando tudo para fora — São uns vampiros que vivem sugando os anseios das cidades. Não quero dizer que todos sejam horríveis. Existem algumas pessoas decentes. mas os terríveis são a imensa maioria. Aqueles muito bons de lábia. Aqueles que usam a posição para ganhar dinheiro e mulheres. Esses seres visíveis e invisíveis sugam a nata dos desejos do mundo e vão engordando. Engordam de maneira horrorosa e se vangloriam. É nesse mundo que eu vivo. Você pode não saber, mas exitem realmente muitos indivíduos terríveis. Às vezes, preciso até beber com essa gente. Enquanto estou com eles, sou obrigado a ficar dizendo para mim mesmo, sem parar: “Olha aqui, mesmo que fique irritado, não vá pular no pescoço dele. Matar um sujeito desses é desperdício de energia.”.

(33º capítulo)

–Que complicado, meu caro Watson! — disse, olhando para o cinzeiro sobre a mesa. É claro que ele não respondeu. O cinzeiro é inteligente e, por isso, nesses casos, procura não se envolver. Tanto o cinzeiro como a xícara de café, o açucareiro, o recibo da conta, todos são inteligentes. Ninguém diz coisa alguma. Todos fingem não ouvir. Acho que, de bobo, só eu mesmo. Sempre me envolvo em coisas estranhas. É por isso que acabo sempre sozinho.
(…)
Se ela ficar comigo, será que um dia irá se magoar? Será que vou acabar magoando todas as mulheres que ficarem comigo, como profetizou minha ex-esposa? Será que sou incapaz de gostar de alguém, por pensar somente em mim?

(34º capítulo)

Em certo sentido, era até digno de respeito. Mas às vezes, deve ter sido tratado como uma lata de lixo de boa qualidade. Várias pessoas iam jogando diversas coisas ali. Era uma atitude automática. Não sei por quê. Talez essa tendência seja inata.

(36º capítulo)

O tempo passa muito rápido. Aumentando o passado e diminuindo o futuro, reduzindo as possibilidades e aumentando os arrependimentos.

(39º capítulo)

Todas às vezes que o telefone tocava, lembrava-me da minha namorada que trabalhava na companhia telefônica. Ela me dizia: ‘Ei, você! Volte para a Lua.’ O as daqui é denso demais para mim. A gravidade, grande demais. Fique quatro ou cinco dias remoendo esses pensamentos. Por quê? Nesse período, comi e dormi muito pouco e não ingeri uma gota de álcool. Resolvi também não sair porque minha coordenação motora não estava boa. Tinha a impressão de que diversas coisas estavam se perdendo. CONTINUAM SE PERDENDO. Sempre acabo sozinho. Dessa maneira. Sempre dessa maneira. Em certo sentido, tanto eu quanto Gotanda pertencemos à mesma espécie. Somos seres humanos que continuam perdendo as coisas e agora estávamos para perder um ao outro. (…) [fiz questão de transcrever o grifo que segue, de D.L., que me emprestou o livro] O que eu sentia chamava-se resignação. Era uma resignação silenciosa como uma chuva que cai na vasta superfície do mar.”

(…)

Até onde tudo isso é real? Será que não estou com problemas mentais? SERÁ QUE EU SOU NORMAL? Sentia como se todas as coisas acontecessem numa sala irreal e fossem trazidas para dentro da realidade depois de estarem completamente deformadas.

(41º capítulo)

“—Não é culpa de ninguém. As pessoas têm suas próprias razões para morrer. Mesmo parecendo algo simples, não é. É como uma raiz. A parte que fica exposta pode ser pequena, mas quando começamos a puxá-la, parece não ter fim. A consciência humana vive em trevas profundas. Nós estamos continuamente em movimento e, conforme esses movimentos, muitas coisas ao nosso redor podem desaparecer. É algo que não podemos evitar. Nada é imutável. As coisas podem permanecer iguais em nossa consciência, mas, mesmo assim, tudo o que existe neste mundo um dia desaparecerá.
Não tem perigo. Não há nada o que temer. Este mundo existe para mim. Não acontecerá nada de ruim. Você foi a primeira a falar sobre essas trevas comigo. Foi por isso que nos conhecemos.

(44º capítulo)

Eu, no entanto, não estava confiante. Sentia um medo irreprimível. Um pavor real que não tinha lógica. Ele estava gravado em meus genes e havia sido transmitido vivamente desde os tempos antigos. Seja qual for a razão de sua existência, as trevas não deixam de ser algo pavoroso e aterrorizante. São capazes de engolir as pessoas, deformar suas existências, dilacerá-las e fazê-las desaparecer. Quem, afinal, seria capaz de ficar confiante no meio delas? (…) Nelas, tudo pode ser distorcido com facilidade, transformado, destruído… O vazio, que é a lógica das trevas, encobre tudo.
–Não tem perigo. Não há o que temer. — disse para ela, mas era pra mim mesmo que dizia essas palavras.

Todos os textos por Haruki Murakami, no livro “Dance Dance Dance”, editora Estação Liberdade

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