A deriva noturna de D.K. Mosrite: uma parábola irônica

Duas mesas distantes da minha, parecia taciturno em sua quietude. Os olhos concentrdos na folha à sua frente por vezes direcionavam-se aos arredores, mas fugiam quando encontravam outros.

Foi depois do terceiro chope — o meu, não o dele — que dei vazão à minha curiosidade.

“Descculpe interromper”, perguntei tão logo me aproximei, “mas o que você escreve?”.
“O que vem à cabeça. E nã se desculpa. A melhor forma de pedir desculpas a alguém é pagando-lhe uma cerveja.”

Sentei ao seu lado e pedi uma garrafa ao atendente do bar. Tomara apenas uma antes, revelou. Pelo menos naquela casa.

“Como assim?”
“Já tomei outras, n’outras ocasiões.”
“Entendo. Então você é um escritor?”
“O que você faz da vida?”
“Eu? Eu sou publicitário. E músico. Sou professor de teatro, ocasionalmente.”
“Então tu é um publicituário-músic-instrutor teatral?”
“Entre outras coisas.”
“Muito limitador. Não sente falta de ir além?”
“Estou realizado em minha profissão, mas…”
“Peraí, qual profissão, exatamente?”
“Comunicação.”
“Então você é um comunicador?”
“Resumindo, sim.”
“Limitado.”
“Por que limitado?”
“Se quiser ir além, não seja um comunicador.”
“Vou ser o quê, então?”
“Tu quer ir além e ainda faz perguntas que denotam tua volta a um ponto anterior?”

Me irritei. Respondi, em tom sarcástico, um seco “Obrigado.”.

A melhor forma de agradecer alguém é lhe pagando uma cerveja e indo embora.

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