dos diários recentes (2)

Hoje finalmente recebi confirmação da minha alta: na primeira semana de outubro, estarei livre. Out of rehab confinement. Captive in voluntary rehab. Porra caralho buceta esmegma, que língua eu falo mesmo?

Mas não é sem um toque de classe que me despeço da clínica, claro. Fui convidado por N. para tomar o lugar de seu ex-colega de quarto (outra alegria que tivemos nessa semana: a alta de L.), que chamamos de suíte presidencial por ser o único com banheiro privativo, e o chuveiro com a água mais quente da clínica.

Bem, isso foi bacanérrimo e tudo, mas faltando poucos dias para minha saída, era mais prático que convidasse outro. Concordamos.

Portanto não é daí o toque de classe a que me referi. Um colega de confinamento, que para fins de preservação de privacidade e amar por anagramas chamarei de NIAO TAROG TUXORO, por motivos ainda desconhecidos surtou em um extremo de bipolaridade que eu nunca vira antes. Não com ele. Tentei, algumas vezes, lhe oferecer conforto ou conselhos. Descompromissados, é claro, mas carregados com o metaconselho de levar em conta tudo aqui eu não soubesse do assunto. Fiz-lhe companhia quando minha paciência e minha desocupação o permitiam, enfim, fiz o que tantos fizeram tantas vezes por mim.

(por “tantos” quero dizer um bocado desses que mal fecha uma boa mesa de Texas Hold’em e se o júri permitir gostaria de trocar “tantas vezes” por o exato número que tu deve contar antes de lançar a Santa Granada de Antioch somado ao número de andorinhas necessárias para carregar um côco à Inglaterra)

Pois o que aconteceu na antevéspera de minha liberação foi o surte deste NIAO TAROG TUXORO. Num momento, eu visitava N., que estava enfermo na suíte presidencial, e quando voltei para minha partida de xadrez, lá estava ele, há alguns metros, com o olhar de quem estava prestes a — ou ao menos precisando — matar alguém. Pedi que se acalmasse, porque senão não teria como a equipe dialogar e — ameaças interromparam, ou melhor, irromperam. Uma tentativa patética de tapa, da qual desviei, sem levantar da mesa. Retornei o foco ao xadrez. As ameaças seguiam. Gritos. Movimentos bruscos. Ah, sim! Esqueci de mencionar o óbvio: N.T.T. estava decidido contra mim. Era eu que devia morrer. Fiquei preocupado, claro, afinal, fazia minutos que não checava o estado de saúde de N. Deitei na cama extra da suíte e comecei a escrever esse texto até a chegada da ambulância.

NIAO já havia sido contido (situação infeliz com a qual tive que concordar, já que ele representava ameaça não só a nós, outros internos, mas a si mesmo).

Agora, já em meu quarto, vou checar o estado de saúde de Presidente N.. Espero que as enfermeiras não me xinguem por ainda estar acordado e saindo banheiro onde me escondi pra escrever (sim, às vezes é preciso fingir que to cagando pra pegar uma caneta e botar pra fora tudo que tenho aqui dentro –– pun intended).

BOA NOITE
  ou bom dia
    ou boa tarde
MAS QUE SEJA BOM, POR FAVOR
VOCÊ MERECE;
VOCÊS MERECEM.

Porto Alegre, 02 de Outubro de 2016

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