2010

do inédito “Esqueça Tudo”, que estou editando pra publicar diretamente em pdf, gratuito, online.

Por que somos tão indiferentes ao mundo quando estamos sós e, ao mesmo tempo, notamos cada rosto e cada movimento daqueles que passam pela janela?

Bateu a porta atrás de si esperando encontrar algum tempo de solidão, de esquecimento. Começou a caminhada espalhando o gás de seu isqueiro a um cadeirante que lhe acenara pedindo fogo com seu cigarro apagado preso entre os lábios. ‘Esse é o bem que tenho a espalhar hoje?, indagou-se enquanto atravessava a rua para bater os olhos em um caminhão da companhia de gás. Pequenas coincidências não tinham graça como na infância. Seguiu para o centro da cidade. Havia solidão o bastante naquele entrevero de gente.

O centro é um lugar mágico onde ainda se pode comprar um pastel de carne + suco ou café por um real e cinquenta centavos. Por mais assustador que pareça, a maioria dos fregueses sobrevive. Um violino conectado a um amplificador com o reverb acionado maltrata a Carmina Burana. Um infortúnio para Carl Orff, mas “como a lua, a fortuna muda.”.

A uma quadra dali, sons de pássaros vespertinos são emitidos por outra caixa de som. A banca de onde vem os pios anuncia discos e partituras de músicas para relaxar. Fortuita seria a gralha que em rasante apanhasse os níqueis que dali provissem.
Acendeu um cigarro e notou duas mulheres à sua frente. Uma delas amamentava um bebê e o olhar daquela criança o impedia de fumar. Seria tão grosseiro pedir que se retirassem! E enquanto ele sujava o ar da cidade com o amontoado de químicos misturados ao tabaco do cigarro industrializado, partidaristas sujavam a cidade combuttons, bandeiras, impressos diversos distribuídos entre voluntários e remunerados. Uma guerra de bugil se travava ali enquanto aquele mesmo violino arranhava a melodia que fora tema de um cigano apaixonado em uma telenovela da ante década anterior. Trilha sonora adequada à revoada de pássaros notoriamente anti-higiênicos.

Caminhou em direção aos seus bairros, aos lugares em que já partilhou com alegria drinques, almoços e sorrisos sob diversas condições climáticas com os que considerou parte de seu mundo. Voltou à companhia da cidade por aqueles que considerava parceiros e coterrâneos.

Sob a sujeira e além dos cartazes, ainda temos uma bela cidade.

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