paisagens

Falta pouco. Depois do embarque, fecha-se a possibilidade de lugar conforto parada falta-de-movimento; sinto-me preso a uma caixa em trânsito. A partir dessa percepção, desse medo de estar trancado, extinge-se a noção de tempo como divisórias de ações lembranças e anseios; existo apenas naquele lugar de onde não posso sair.

Nem sempre é assim, claro. Às vezes, um ônibus é só um ônibus. Mesmo assim, só sobrevivo com a idéia de que a qualquer momento posso escapar pela janela.

Prefiro morrer do que estar preso a uma decisão de meia hora atrás.

Tudo que tu não pode ter, tudo que tu só vê do detalhe ao geral na paisagem em movimento. É um constante apaixonar-se pelo que se percebe. Já tentou rever a última paisagem à janela virando o pescoço e olhando para trás procurando ela? Estava tudo morto, não?

E fica a perda do que tu amou, e tu nem olha pela janela mais. O vislumbre acabou. Toda criança vivencia todas essas emoções em uma simples viagem de carro. Euforia contemplativa, perda, tristeza, luto, isolamento pra trabalhar todas essas descobertas ou negá-las ou esperar a próxima sensação ou estímulo que chame teu foco ou tua energia.

Até se tornar “adulto” e pensar nas possíveis emoções despertadas por uma janela de ônibus em viagem, ela não vai lembrar desses momentos. Em suma, uma criança tem tanta resposta à própria sensibilidade quanto terá seu eu adulto. Só que ela está mais desorientada, mais confusa, mais suscetível. Ela está menos preparada. Sua depressão ou o que for calará porque ela não sabe perguntar o que está acontecendo.

Alguém se apoia sobre as panturrilhas, olha a criança nos olhos e diz algo.

A voz suave, convidativa, e a frequencia que tremula usada nela, parece distante, não faz sentido, não merece reposta. A criança corre para longe.

“Como são agitadas, né?”

algum ponto entre Porto Alegre e Rio Grande, 10 de dezembro de 2016

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