credo besta

não podia acreditar nos incrédulos. acreditava radicalmente que o ceticismo de uma pessoa é diretamente proporcional à sua falsidade. não eram de confiança, então. tampouco podia acreditar nas versões alternativas, ou no já tornado jargão mesmo que fosse uma simples menção de nietzche de que “deus está morto”. e onde está o cadáver para provar?, perguntava a si mesmo, nunca tendo assistido à esquete “deus está morto!” do grupo Kids in the Hall. assim sendo, sabia para si mesmo: deus há!

não podia mais ficar ali, em meio a todos aqueles católicos com sua adoração forçada, fingida, com todos aqueles ateus e sua concepção ridícula de um mundo sem deus, e foi à sua solitária luta. pois ele era o definitivo crente, o supra-sumo filho do homem. contratou detetives particulares para sua busca pelo Pai, pagando-lhes honorários de valia razoável — sem imaginar que virara assunto de piadas quando estes iam para casa comentar o assunto com suas famílias. porque sou criativo o suficiente para criar detetives particulares que passam o dia enrolando contas atrasadas no escritório para ir a um bar depois do expediente gastar em doses de uísque o dinheiro que não tinham. de volta ao protagonista, que não dependeria dos outros para sua busca – seguiu suas próprias investigações. e como se encontra respostas que não podem ser achadas? questionando-as. de onde teria vindo deus, que motivos o levaram a criar os homens, o mundo, os bichinhos na floresta, a floresta e as savanas, que não devem ser deixadas de lado? assim, chegou ele à capital do continente-mãe, norte da áfrica. o continente-mãe só nós pangeístas podemos citar. mas a única crença do nosso protagonista era o Criador. lá, perguntando por deus, viu-se cercado de mais crenças, teorias e estudos absurdos sobre Sua existência. continuava sozinho em sua busca, como era de se esperar. anos perambulando por terras remotas, montes, declives, e por aí vai, finalmente chegou a uma morada rústica no centro de um enorme matagal, onde encontrou deus. abraçou-o, agradeceu-lhe, e antes que perguntasse porque não se misturava ao resto dos filhos, já tinha a resposta. afinal, ele era o Homem. sua presença entre os filhos seria polêmica, e atrapalharia a vontade livre do homem, que já praticamente inexiste.

“posso ficar aqui com você?”
“é um mundo livre”, disse deus em sua voz tenor, aparentemente não desgastada pela passagem do tempo.

ali ficou o homem (com H minúsculo, lhe digo) até seus 84 anos, gozando de boa saúde. era uma vida saudável, ali naquele canto no canto do norte africano. certa noite, em meio a tosses, dores musculares, deus chamou seu seguidor.

“sabes tua missão, não sabes? agora que meu corpo se enfraquece e morre.”

ó, honra! trabalhar em nome do Senhor. assim, foi ele incumbido de passar o resto dos seus dias ali, sob a alcunha de Deus, até que o próximo crente ali chegasse na busca pelo senhor. não apareceu ninguém, só percebendo no leito de morte a piada daquele velho pantaneiro irônico, que nem sequer acreditava em deus.

credo besta.

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