citações – “Paraíso”, de Toni Morrison

“Homens libertos que andavam de cabeça erguida em 1889 estavam de joelhos em 1934 e rastejavam em 1948.”

O trecho a seguir eu anotei por evocar uma cena que achei especialmente bonita. Não é por si uma citação que chama atenção, entenda, mas é a descrição, o carinho, a referência musical (que me fez tentar imaginar, mentalmente, a música criada pelo personagem sendo cantada)

“Enfiou as cerdas fundo no pêlo de Good, escovando macio e cantando, suavemente num falsete de Motown, a canção que inventou para ela quando era uma filhote: ‘Hey good dog; stay good dog; old good dog, my good dog. Everybody needs a good good good dog. Everybody needs a good a good a good good dog.’.
Good espreguiçava de gosto.”

“‘Grace. O que pode ser melhor?’
Nada. Nada mesmo. Se alguma vez acontecesse numa manhã de a misericórdia e a simples sorte darem no pé e fugirem, a graça sozinha ia ter de bastar. Mas de onde viria e com que velocidade? Naquele vazio sagrado entre a visão e o ato, conseguiria a graça penetrar?”

“Ali a liberdade não era um divertimento, como um carnaval ou uma quermesse com que se pode contar uma vez por ano. Nem era migalha caída da mesa dos proprietários. Ali a liberdade era um teste que o mundo natural aplicava diariamente ao homem. E se esse homem passasse nos testes durante tempo suficiente, seria rei.”

“Não estava pensando em andar até cair ou desmaiar ou congelar e aí deslizar para o nada por um momento. O pouco que desejava não era o café do amanhecer, o banho já pavia insironto, a camisola dobrada e depois o sono vigilante, nessa ordem, para sempre, todo dia e nesse dia em particular. O único jeito de alterar a ordem, pensava ela, não era fazer algo em ordem diferente, mas fazer uma coisa diferente. Só lhe ocorreu uma possibilidade: sair de casa e ir para uma rua em que não pisava fazia seis anos.”

“Havia insinuado aos bispos que estava pretendendo outra paróquia. Nada urgente. Mas não tinha certeza de estar sendo bem usado em Ruby. Achava que qualquer lugar valia a pena, contanto que houvesse jovens para aprender que Cristo era juíz e guerreiro também. Que os brancos não só não tinham patente do cristianismo, como muitas vezes eram um obstáculo à sua prática. Que Jesus tinha se libertado da religião branca, e ele queria que aqueles meninos soubessem que não precisavam implorar respeito; que o respeito já estava dentro deles e que só precisavam exibi-lo.”

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