“compactuando com o demônio” (setembro/2004)

uma história sobre blues, ambição e aquele encontro na encruzilhada.

“eu só queria ter uma cramulhãozinho pra mode eu poder dar um pouquinho de terra pra minha joana e pros meus filhos, num sabe?”
-tião galinha (interpretado por osmar prado), da novela “Renascer”

sempre quis ser um grande bluesman. vinha de família pobre, tocava guitarra e botava seu sentimento nas cordas — nas suas e nas do intrumento. e decidira, a exemplo de outros de quem ouvira falar, dar-se ao máximo para ser o máximo: venderia sua alma ao diabo, em troca de tornar-se o maior bluesman da história. foram quilômetros de caminhada sob o sol quente (oquêi, muitos à noite também, mas caminhadas sob a lua são agradáveis ao corpo e tirariam a noção de esforço físico sobrehumano enjembrado na busca pelo objetivo do personagem obstinado) até encontrá-lo depois de uma placa borrada que dizia “400 quilômetros alguma coisa”. o diabo estava sentado em uma pedra, com seu bigode sujo pela poeira da estrada escondendo o filtro do cigarro que segurava entre os lábios. e ali nosso personagem, vendo o não-homem à sua disposição pronto a ceder-lhe qualquer que fosse seu desejo em troca apenas de sua alma, teve uma epifania. pensava no sonho que o carregara até ali e o quanto ele valia a pena, já que podia pedir muito mais. podia pedir qualquer coisa! lembrava-se de seus tios em rodas familiares ou festas da comunidade, tocando canções sobre os costumes locais, folclores populares e até anedotas musicais sobre incidentes entre viventes e parentes de sua pequena cidade. e decidiu que não queria ser simplesmente um grande bluesman, pediu ao diabo que o tornasse o melhor tocador de banjo de toda a existência.
certamente você nunca viu seu nome no encarte de alguma grande banda como músico convidado, tampouco citado em qualquer informativo musical como ‘o maior banjista do mundo’, mas se um dia encontrar caminhando sob o sol quente ou entre a calma brisa de uma estrada à noite um homem de olhar cansado, cheiro de gordura de churrasco e um banjo carregado às costas, e seu nome for Bill S. Trent III, saiba que estará cara-a-cara com o melhor banjista que o mundo já não viu.
grande merda, ein?
pelo menos fez melhor que um primo distante, que pediu para ser o maior músico do mundo. num trágico acidente entre o encontro com o diabo e a caminhada até a próxima cidade, perdeu mãos, pés e cordas vocais (não pergunte-me como, o destino pode pregar dessas de vez em quando — é uma espécia de licensa literária para as grandes decisões do curso dos fatos, saca?). só não saia por aí achando que o primeiro mané putamerdalmente deformado é a personificação da música, às vezes tem uns que são só azarados mesmo.

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