conto de natal

o natal chegava na casa dos Brande-Salgado carregado de tristeza. o pai falecera recentemente, e a família inteira estava longe de se conformar. Katrina, a mais jovem das crianças, não falara uma só palavra no velório nem nas semanas seguintes. era véspera de natal e a árvore, montada no mês anterior, continuava solitária e sem brilho no canto da sala de jantar, sem os usuais presentes à sua volta. para todos, nunca mais haveriam festas. antes da meia-noite já estavam em seus quartos tentando dormir, e à uma da manhã já encerravam suas mentes em sonos desprovidos de sonhos.

foi quando aconteceu.

o Grupo Alegria de Viver invadiu a sala pela porta da frente, em mais uma de suas surpreendentes estripulias! o mestre do bando cantarolava um grave e intenso hohoho trajando a fantasia do famoso personagem folclórico brasileiro saci pererê (por mera conveniência, já que o tabagismo de quarenta anos levara à amputação de uma perna, motivo principal de seu atual prezo à vida e que levou-o a formar o grupo). os outros corriam e dançavam pela sala: uma princesa, duas duendes, o gordo vestido como halterofilista e um amável bobo-da-côrte. os donos da casa desceram as escadas e ficaram à soleira da entrada da sala, talvez mais assustados que entristecidos. Katrina desatou a chorar, mas os queridos atores não desistiram. já fizeram pacientes de institutos para portadores do vírus hiv e de hospitais de tratamento de câncer infantil levantarem e celebrarem com eles, por que com essa família seria diferente? a menina chorava, os outros dois irmãos se abraçaram sentados no último degrau da escada. a mãe, agarrada ao corrimão, desesperava-se sem saber controlar as crianças ou seus próprios pensamentos remontando memórias do ente perdido.

mas eis que surge a maior das surpresas: o marido, vivo, a entrar correndo pela porta da sala! de fato, ele mesmo havia feito o pedido ao grupo teatral, uma semana antes de forjar sua morte — auxiliado pelo médico e amigos de anos, que anunciara a morte à família. o bobo-da-côrte, que gargalhava na sala, era o único do grupo ciente do plano — ele mesmo interpretara o assaltante nervoso que, num impulso, atirou contra o pai de família na mal sucedida tentativa de assalto.
agora, a esposa acordava do súbito desmaio, mas catatônica. o marido, crente da alegre surpresa que com tanto preparo trouxera à mulher e aos filhos, dançava com o resto dos atores, que não entendiam a tristeza dos outros mas insistiam em dissipá-la dando continuidade à sua performance. Katrina corria para abraçar o pai enquanto os irmãos permaneciam no degrau da escada, ainda mais assustados. assim, seguiu-se a cantoria natalidade madrugada adentro, até que o grupo despediu-se num canto de adeus uníssono e o marido, cansado, deitou-se para dormir.

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