citações – carmen da silva

Que dificuldade não anotar cada frase, cada parágrafo, às vezes páginas inteiras das conclusões de Carmen acerca das relações e posições de gêneros. Pois bem, à medida que leio o livro, anoto essa ou aquela página, e vou transcrevendo o que me chamou atenção o bastante pra bastar uma segunda olhadela, ao rever essas páginas, e já destacar-se outra vez.

Histórias Híbridas de uma Senhora de Respeito, de Carmen da Silva, grifos deste que vos escreve.

“Não sei se por ingenuidade minha ou se por conhecer muito bem os exageros dramáticos dos adultos com relação à moral das moças, sempre imaginei que o casamento apressado de Luiza não se devia a graves transgressões sexuais: talvez apenas alguns beijos, um pouco de bolina: as meninas da minha geração viviam intimidadas demais para tentarem grandes audácias. De qualquer forma, isso bastara para precicpitá-la numa forçada e precoce maturidade. Os senhores conhecidos da família, que antes a cumprimentavam com um risonho “olá”, abanando a mão, passaram a tirar o chapéu, dando grandes barretadas para Luiza. Senhora: realmente, ela se instalara num pedestal de respeitabilidade.
Tive a impressão de que, em certo modo, uma jovem fora assassinada.”

“Recentemente, ouvi na televisão um ginecologista declarar muito lampeiro que a mulher, por sua natureza, não pode desempenhar tarefas que exijam objetividade e precisão, pois basta uma depressão pré-menstrual para perturbar-lhe seriamente o equilíbrio. Incidentalmente, ele só exemplificou com trabalhos bem remunerados e de prestígio; os outros, mal pagos, esses sim, mulher sempre pode.”

“Seria tão simples bater no braço de algum conhecido, às vezes o amigo íntimo de nosso irmão, que vivia enfiado em nossa casa, e dizer: ‘oi, vamos dançar?’. Simples, sim. Tão simples e tão impensável como acabar com a miséria distribuindo melhor a riqueza. Simples mas faria o mundo vir abaixo: a igualdade, qualquer tentativa de igualdade, é sempre subversiva. Não seríamos nós, as ‘jeunes filles en fleur’ da década dos 40, que iríamos explodir a Ordem Constituída.”

“De que me adiantava a nova liberdade de sair com quem quisesse, voltar à hora que bem entendesse, enfiar a chave na porta do apartamento que eu pagava com meu trabalho, se meu acompanhante de algum modo conseguia neutralizar essas conquistas reduzindo-me a uma ignóbil condição de coisa mediante uma cantada imbecil ou, pior ainda, uma cena aviltante de ‘catch as catch can’?

(…) Eu acreditava no diálogo civilizado entre homem e mulher. Acreditava na troca de idéias, no riso compartilhado, no prazer da dança, no fino exercício do flerte, no doce leite da cordialidade humana. Crasso erro de julgamento: induzida por esse equívoco e desconhecendo as regras do jogo, eu afrouxara defesas, suspendera barreiras, abrira comportas, relaxara, dera sopa, cutucara a fera com vara curta. Eu facilitara — e agora vinham-me cobrar o preço.
(…) Tratava-se de convencer-me, num jargão que provavelmente a própria faxineira de Freud passara a dominar à perfeição após alguns anos de casa, de que eu me achava antes o homem de meus sonhos, a resposta a minhas mais devotas orações, o objeto de meus mais recônditos e intensos desejos. E se eu era ainda muito inexperiente para reconhecê-lo, podia confiar no próprio, que sabia o que estava dizendo. Deus me concedera a extraordinária graça de encontrar pela frente o Bom em carne e osso, o Excelso Garanhão em pessoa. Aí, ao alcance da mão, e animada da mais benévola disposição de satisfazer meus secretos ardores juvenis. A mais feliz conspiração do destino a meu favor: nada mais, nada menos, ele me oeferecia a maior mordomia sexual, eu só tinha de abrir-lhe os braços, o leito e o resto. Oh, que ventura!”

“Já na faixa dos vinte anos comecei a suspeitar (só bem mais tarde passei da suspeita à certeza) de que o prazer do Excelso Garanhão consiste precisamente nisso, na sensação de poder que lhe advém de impor a outrem o insulto, a vergonha, a humilhação, o ódio impotente. Covardemente baseado na segurança da impunidade: ele sabe que não está correndo qualquer risco, vai sair sem o mínimo arranhão físico ou psíquico, graças ao maior aliado do machismo: o condicionamento feminino. Aprendemos a ser boazinhas, respeitosinhas, delicadinhas porque é-disso-que-os-homens-gostam. Cabeça de mulher vem sendo feita ao longo dos séculos para que eles possam abusar à vontade e sair incólumes.
Mulher pode ferver de raiva, pegar talvez traumas terríveis, perder o rebolado e a fé na humanidade. Pode até sofrer um infarto de tanto engolir o furor. Mas tudo isso para dentro, sem perder a linha. Ela não vai botar a boca no mundo, pedir socorro, alertar a vizinhança ou o guarda-noturno da esquina, ela não vai fazer nada que chame a atenção sobre si: ensinaram-lhe desde pequenininha que moça correta não faz escândalo.
Eles se jogam em cima de nós como uma tonelada de cimento, com a tranqüila certeza de que não vão levar um sopapo, um dedo no olho, um pontapé na canela, uma joelhada nos testículos: mulher feminina não reage assim. Qualquer coisa é menos grave do que transgredir o figurino da feminilidade que eles desenharam para nós.
Mulher esconde a repugnância, trinca os dentes para disfarçar os engulhos, agüenta calada o asco que lhe causam as mãos invasoras, os contatos suarentos, a baba pegajosa. Engole sua repulsa em silêncio, mordendo a língua para não dizer uma só palavra que possa machucar o ego masculino. Quer mais é que ele caia morto a seus pés — mas sua terna alminha feminina continua de joelhos frente a sacrossanta vaidade do macho. ‘Cai fora, nojento, por que não vai manusear sua mãe que é até capaz de gostar?’ Não, oh não, decididamente não. Deus te livre dos palavrões, dos gestos de machona, das atitudes vulgares. Deus te livre de ofender um homem. Antes se esperava que a mulher defendesse sua virgindade, hoje se espera que ela defenda seu direito de escolha. Mas que o defenda com bons modos, seja qual for a violência do ataque: na base da elegância, com palavras recatadas, luvas de pelica e reverências de gueixa. ‘Não tome a mal, nobre cavalheiro, data vênia eu agradeceria que tivesse a gentileza de afastar de minha humildade pessoa seu Honorável Pau, do qual, por desgraça, não me considero nem remotamente digna.’
Durma-se com um barulho desses.”

“Escrevi, páginas atrás, que ninguém programa sua vida a partir das exceções. Refletindo melhor, chego à conclusão de que disse uma besteira: é justamente com as exceções que a gente conta: fazer sozinha treze pontos, acertar na quina da loto, desencavar o companheiro certo para uma relação madura. Esse homem com o qual todas sonhamos essa união plena e satisfatória que a fada madrinha nos prometeu desde o berço e que até hoje ainda está em veremos. Não duvido de que haja, sim, homens maravilhosos, mas quando se convertem em maridos acabou-se a maravilha: as exiegências do papel reduzem todos eles a um denominador comum — e desconfio que eles encontram certa volúpia no desempenho. Os bons maridos são o prêmio das mulheres certinhas, que têm a cabeça no lugar. Isto é: ao nível do tanque e do fogão. Ser marido é uma função didática: marido está aí para mulher aprender com quantos paus se faz uma canoa.
Azar o dele quando ela descobre que, com um pau só, sua canoa está mas é afundando.”

“A falocracia reinante incita o homem ao desempenho, ao sucesso: menos do que isso é o vexame, denigra sua famosa imagem: daí sua incapacidade de rir de si mesmo. Ou de abdicar, quando sua inépcia já ficou mais do que comprovada: ele teima, vai até o fim, mesmo que se arrebente. Pior ainda quando arrebenta os outros: haja vista os ilustres donos do Brasil que continuam vomitando suficiência após terem levado o país à mais sinistra bancarrota de todos os tempos.”

“Não me olhem atravessado, não estou fazendo a apologia do celibato — pelo menos, não de modo incondicional. Nem despejando mágoas de mal-amada, como costumam pensar os homens quando alguém faz a mínima restrição a suas sagradas pessoinhas. (…) O diabo é que a gente se prepara para ir ao encontro do ‘mate’ e acaba embrulhada, selada e lacrada nas mãos do patrãozinho. Casamento é feito a América Latina: você escolhe o melhor, põe toda sua esperança no voto — e, quando dá por si, tem um ditador pela frente.”

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