caindo das escadas (2006)

no primeiro degrau, via o mundo girando ao seu redor. uma lâmpada, o branco esvaescendo em reflexo, a parede cor-de-madeira, os degraus, outra vez branco, a lâmpada. apenas isso, com alguma dor que mal notava.
no segundo, via os últimos segundos, o passo em falso, o susto ao perceber que escorregava, o desespero por não conseguir-se equilibrar-se, a esperança de cair e parar.
no terceiro, era o mundo que a via girar, e ela era apenas um corpo que se debatia enquanto caía, um fragmento de carne, uma pequena forma humana ocupando parte de uma sala, dentro de um prédio, um mundo inteiro ao redor, todo o universo.
via seus anos passando, seu passado, pessoas olhando para ela, conversando com ela, rostos esquecidos, brincadeiras, incomodações.
em seguida, via de vez os anos que passaram-se antes, seus pais, os encontros deles, os encontros de outros, desconhecidos; o nascer de uma criança em tempos imemoriais, a vida selvagem sobre a terra, transformações climáticas brutas, vegetações, seca, gelo, pedras, um gigantesco amontoado de escuridão e lava. escuridão.

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