clube do perdedor

bem-vindo ao clube dos perdedores! (— dizia o cartaz à entrada da pequena casa de árvore, (mal) construída no jardim atrás de onde passou toda sua vida, com seus pais e o irmão mais velho. incapaz de construir um bom telhado, desistiu depois de duas semanas de tentativas frustradas e simplesmente cobriu os disformes chão e paredes (duas, na verdade) com uma enorme lona, que precisava ser trocada de quando em quando, pois bastava um galho quebrar durante a subida e ela já entortava. sentava-se lá durante toda a tarde, esperando que algum colega de escola viesse visitá-lo e descobrisse sua geniosa casa-na-árvore, que com tanto ardor construíra. descia aos gritos de sua mãe, na hora de jantar, para só voltar lá na tarde seguinte, após o período escolar. durante a manhã, tentava concentrar-se na aula, mas não conseguia pensar em muito além de sua casa na árvore e como ela encheria-se com amiguinhos solitários como ele, que formariam com ele um belo time. chegou a tentar fazer alguns convites, mas a professora notava-o cochichando em meio à aula e, imediatamente, chamava sua atenção exigindo que respondesse alguma questão relacionada ao que ela estava lecionando. muito naturalmente, erraria ou nem tentaria responder, sendo zombado pela tutora, imediatamente seguida pelo resto da turma, numa espécie de gargalhada-geral-orquestrada. mas não foram poucas às vezes em que conseguiu responder corretamente à pergunta que ela lhe improvisasse. nesse caso, lhe lançava um olhar grave, e os colegas ainda assim riam dele. rir é bom. rir faz bem. voltava para casa, almoçava. seu pai perguntava como foi o dia na escola, dizia que foi bom. o irmão lhe chutava por baixo da mesa, ou jogava comida em seu rosto. ele gritava, de dor ou raiva, o pai o reprimia. a mãe dizia que tivesse modos à mesa. se acusasse o irmão, apanharia depois. sabia disso. mas vez que outra, dizia que ele começara. acusar é feio, diz a mãe. e o pai não queria um filho covarde. ninguém quer. mas podia terminar o almoço e levar um lanche, às vezes o caderno com os deveres-de-casa, até sua casa na árvore. e esperar por seus amigos. eles viriam.

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