baseado (julho/2006)

a primeira vista, qualquer reduto de alguma árvore caído no chão junto a tantos outros. de uma visão mais próxima, um graveto fino, seco e consideravalmente alinhado. então descobre-se como um utilitário para pressionar a erva e acomodá-la dentro do papel-para-fumo. jonas acende o baseado e depois de poucas e longas tragadas estende-o para o amigo ao seu lado, cujo nome insisto em esquecer. se a expressão parece irracional, corrijo afirmando que não insisto em lembrar.
as aulas da manhã já estão terminadas, embora alguns tenham de retornar ao prédio após o almoço. longe de mim menosprezar todo o problema que não o meu, mas esse dia letivo está terminado para mim. é minha vez. depois de algumas tragadas devolvo o baseado para jonas, que argumenta sobre a universalização do conhecimento. também sou a favor do conhecimento público e independente do que as pessoas em geral digam elas também são contra. não há melhor exemplo do que os direitos estudantis. obviamente não há vagas suficientes em todas as instituições de ensino para que vontade de aprender signifique acesso a isso, e por isso a classe estudantil torna-se, de certa forma, uma elite e é tratada como tal – eticamente, não estamos longe de legisladores e diplomatas que, independente de abusarem ou não do poder, detém-no e assim querem manter. não é difícil entender o absurdo que é pagar por uma condução a metade do valor pago por uma pessoa que trabalha para sustentar a si ou a família – talvez pelos seus estudos ou os de seus filhos.
jonas gosta dessas conversas e discussões. aliás, ele é uma das poucas pessoas com quem discutir pode ser produtivo. a maioria delas está exclusivamente disposta a falar e por tal ignorante aos argumentos que lhe são oferecidos. tal pessoa acredita estar numa competição e que tem um oponente a vencer. sua idéia está fixa e ela não tem vontade de aprender ou não está disposta a aprender por recusar a possibilidade de estar errada. talvez seja daí nosso gosto especial por discussões; buscamos conhecimento e sabemos encontrá-lo uns nos outros. o amigo, a quem para meu alívio jonas referiu-se como ricardo para retomá-lo de suas ponderações, entrega-me novamente o baseado. depois de algumas longas tragadas, devolvo para jonas e despeço-me dos dois.

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