um conto em andamento

esse é um conto que eu comecei a escrever em 2006. vou postar o início aqui, não terminei ele mas o que boto aqui é literalmente o rascunho da introdução (sério, eu não corrigi nem os erros de português). já escrevi muito mais do que isso, mas não posso publicar ele aqui porque ano que vem meu livro vai ser lançado e nenhum conto pode ter sido postado na internet (dessa vez é quase verdade).
enfim, é a melhor história que já elaborei em toda minha vida de escritor ruim.

resumindo, jesus é um cara rancoroso por ter sofrido tanto e desconta isso, de vez em quando, nos humanos. ele atinge um humano de forma não calculada, o diabo fica brabo, deus fica brabo, e o cara não sabe de porra nenhuma. basicamente, deus não joga dados com o universo. deus o diabo apenas observam.

sem título parte I

em seu pesadelo, arrastava-se com dificuldade por uma terra vasta, oras sozinho, oras como se tivesse sendo exibido para um grande grupo de espectadores. suas costas doíam, sentia ardências e o calor do sangue escorrendo até as pernas. acordou ofegante, de novo. aquele sonho repetia-se há dias, e já ocorrera antes em noites ocasionais. agora se tornara rotina e, pra piorar, suas costas realmente doíam ao acordar. aquela manhã era apenas um prelúdio para o dia longo que seguiria. percebeu isso ao entrar no banho. a água escorrendo sobre suas costas atenuou a ardência e, ao olhar no espelho, percebeu que estava lanhado da nuca ao cóccix, cortes verticais e alguns em diagonal intercalando-os. lembrou-se remotamente de ser chicoteado em algum momento do sonho.

a revolta de jesus cristo agora irritava o demônio. já havia um tempo que o filho de deus vingava sobre seus outros filhos a dor que sentira e até agora nada foi dito, não com grande entusiasmo, a esse respeito. muitas vezes, o castigo que ele impunha aos homens era conveniente a lucifer, assim como n’outras seus caprichos vingativos serviam aos propósitos de deus. mas agora, o diabo pensava, ele estava indo longe demais. atacava uma alma que seria sua, e essa alma em arrependimento purificava-se. isso seria um problema para o criador e para o anjo do inferno, pois esse homem a quem cristo decidira atormentar já tem seu lugar entre os escolhidos do anjo caído e já tem sua entrada vetada no reino de deus. se absolvido dos pecados, não haveria para onde ir.

cássio era especial, sem dúvidas. não que fosse um criminoso de importância maior, não que tivesse cometido assassínios friamente ou enfrentado todas as forças divinas e vencido com a sagacidade de um verdadeiro demônio. ele era um homem com todos os talentos de um anjo. tinha o carisma, tinha o poder sobre as pessoas, tinha a beleza. usava isso para si, mas não inteiramente. sentia mais prazer na capacidade de destruir do que dando a si o prazer. quando adolescente, e até os primeiros anos de sua vida adulta, ocupava-se em conquistar mulheres inocentes, a amar-lhes (com uma convicção que podia convencer a ele próprio) e ser amado por elas. depois de desvirginá-las, cuidava cada passo da relação para que essa chegasse a um fim. nunca abruptamente: ele deixava-as pensar que o relacionamento tivesse seguido até onde podia. de todos os vícios, o maior era o de arrastar outros para eles. divirtia-se com o deleite que sentia ao cheirar cocaína mas era sua alma que regozijava quando levava outro a usufruir da droga até que adquirisse o hábito. depois , deixava por conta de cada um que se viciasse ou não. dificilmente acompanhava o desenvolvimento a partir daí, mas em algumas ocasiões ouviu a respeito do que acontecera eventualmente a seus iniciados e gostava de ter tido participação nisso.

passaram-se meses desde que perpetrara alguma brincadeira cruel a alguém, e nesse momento preocupava-se apenas em voltar do trabalho, comprar uma garrafa de vinho e rezar para que uma taça o ajudasse a dormir em paz. ‘preces não lhe salvarão’, ouviu em sua mente e, sentindo num momento só uma fadiga das que se assemelham a longas horas de caminhada sob o sol, tombou. levantou-se apoiando primeiramente no chão e depois na parede a seu lado. olhou para os dois lados, ninguém parecia ter dado especial atenção a seu lapso, e ficou feliz por isso. seguiu caminho para casa sem outras interrupções. ‘preces não me salvarão?’, pensou.

não, preces realmente não o salvariam. ele se perdera em vícios. tudo que ele fizera até então serviu unicamente para destruir sua alma — unicamente não, serviu também para lhe trazer momentos de grande contentamento. agora sentia as dores pelo que passara. não estava sendo castigado, estava sendo apenas punido. qual a diferença? a diferença é que jesus não distingue; ele fazia aquele homem sofrer não pelos seus pecados, mas pelo fato de que o próprio filho de deus já pagara pelos pecados do homem. isso não só o irritava como o levava a tornar a vida de algumas pessoas um pago constante. e agora quem sofria era cássio, um homem a quem jesus nunca quis conhecer e, justamente por isso, castigava. era um pecador, e sempre fez questão de ser. aquele homem bonito, inteligente, carismático e que gostava de trazer mal a quem estivese perto dele e levar a quem estivesse longe. enquanto cristo fazia-o sofrer, o diabo pensava em suas atitudes.

sim o diabo pensa. e ele observa e pondera sobre o comportamente humano, quase constantemente. jesus estava indo além dos limites. aquele homem a quem ele atormentava era um futuro discípulo do inferno, seus pecados o levariam, sem dúvida alguma, aos braços dele. mas jesus o fazia sofrer, e às vezes o sofrimento leva ao arrependimento e esse à redenção. o diabo, inteligente como é, sabia que cássio tinha uma propensão a se redimir. era, por natureza, um bom homem. não sabia (o diabo) se deveria recorrer a deus ou não, mas em pouco tempo seu próprio pai interviria.

deus observou, a princípio. não iria interagir. viu o que seu filho fazia e dava-lhe permissão pra isso — mas nunca aprovação. quando chegou a este pecador, muitos olhos viraram-se para ele. cássio chegou ao extremo da dor, e arrependeu-se de todos seus pecados. não era essa a intenção de jesus, ele só queria ver a dor entre seus irmãos-humanos — nem o arrependimento fazia parte de seus planos. mas cássio, arrependido, tentava, quase em vão, pagar por seus pecados. começou do modo óbvio, piegas, quase infame, mas útil: doava, sempre que possível, algumas finanças para hospitais populares. em poucos dias começou a visitar esses mesmos hospitais para passar algum tempo com os pacientes. tais atitudes, por si só, não garantiam sua redenção, mas sua intenção, honesta mesmo que provocada, era ter o perdão divino e compensar as maldades que já cometera.

cássio estava perdoado. ainda assim, não entraria no reino de deus. sua entrada fora vetada já fazia um bom tempo. no entanto, ele não merecia a punição do inferno. em suma, cássio, ainda em vida, já não tinha destino post mortem. deus não o receberia e o diabo não o aceitaria.

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