presença online/offline: lain, neuromancer, as drogas e a internet

presença online/offline: lain, neuromancer, as drogas e a internet

A presença física de um indivíduo é irrelevante do ponto de vista maior, se nos puséssemos no lugar do espectador ou de personalidade presente – esta, em si, também um espectador.
A forma física de uma criatura, animada ou não, é apenas a interpretação que cada indivíduo pensante formula para indexar o dado recebido pela presença de uma e, eventualmente, pela lembrança da mesma. Assim sendo, um ser que originou essa imagem (onde ‘imagem’ é essa definição material que se tem armazenada: formas físicas propriamente ditas, registros de voz, etc.) não precisa estar presente em momento algum para que os indivíduos que já tiveram sua existência assimilada o tenham em seu banco de dados constantemente. Uma vez feito o registro, ele dificilmente pode ser apagado.

Ligações: dualismo material, S.E. Lain (série de animação japonesa)

Dias longe da internet internet e mesmo assim postei. Acho que estou conseguindo conectar o mundo físico à wired sem o auxílio de aparelhos, como Serial Experiments Lain profetizou.

Aliás, quanto mais a tecnologia se desenvolve mais tenho certeza do que digo há anos: o mundo inteiro sempre esteve nas mãos dos nerds e dos junkies. Sim, boa parte da literatura sci-fi recente que deu origem não só a diversas obras artísticas novas mas inspirou o desenvolvimento de sistemas de comunicação e toda a sorte de progressão tecnológica prática de hoje e do futuro foi profetizada por algumas pessoas, foi escrita há décadas atrás por pessoas extremamente criativas, fascinadas por tecnologia e, em alguns casos, drogadas.

Mas o mais importante, é claro, é o nerd em geral. De Asimov (percursor profético de uma série de ocorrências de robótica e inteligência artificial) a Gibson (a própria palavra “ciberespaço” é de cunho dele, para se ter uma idéia do mínimo que ele criou) a Phillip K. Dick (que ainda não tive o prazer de ler, mas, pô, as adaptações Blade Runner e O Homem-Duplo já dizem bastante) a Douglas Adams (alguns dos conceitos de suas histórias deram origem a utilitários que usamos hoje, como os sistemas wiki), todos eles seriam facilmente tachados de ‘nerds’ justamente pelo fascínio dos mesmos pelo imaginário futurista.

Em suma, acho que nada do que vemos em matéria de tecnologia, por mais inconcebíveis que algumas criações nos pareçam, não foi imaginado há décadas atrás por algum nerd, fosse ele um professor de ciências naturais obcecado por robótica ou um escritor de ficção-científica perigosamente entregue às drogas.
Já tenho atualizações agendadas no blog até o próximo ano, pelo menos.
Se eu morrer, continuo blogando.
Qual a vantagem disso? Agora, nenhuma prática. À exemplificação, os mais atrasados entenderão que não existe separação entre a vida online e offline. O sentido da vida é presença, como e onde for.
A memória é apenas um registro, afirma o texto da animação S.E. Lain. E presença só é percebida e assimilada pela memória.
Enfim, nesse exato momento estou longe de um computador com acesso à internet. E tu, não. Mas estamos nos comunicando.
Por isso, recito Lain novamente: todos estamos conectados.
Isso foi uma espécie de rascunho que escrevi para eventualmente elaborar um artigo sobre duas das obras de ficção científica mais originais – provavelmente as duas mais originais, de fato – de que tive conhecimento em mais de vinte anos. Como pode ser notado, as idéias básicas foram meio que jogadas no texto, escrito às pressas para não esquecer completamente a idéia. Engavetada, não terei tempo para reler o livro e rever o anime antes de publicar, então vou colocar aqui e torcer para que pelo menos alguma pessoa que ainda não tenha lido Gibson nem assistido Lain possa optar por aumentar substancialmente sua base de conhecimento sobre o mundo atual, sobre sua própria existência (vide Lain) e cultural.

Esse artigo intenta observar e analisar os elementos em comum que compõem o livro Neuromancer1, escrito por William Gibson e publicado originalmente em em 1984, e a animação Serial Experiments Lain2, escrita por Chiaki Konaka e exibida inicialmente em 1998 pela emissora TV Tokyo.

O argumento básico de Neuromancer se liga diretamente e facilmente à história que se desenrola ao longo do livro, e por tal não é problemático explicá-lo sem correr o risco de confundir um leitor quanto ao que se pode esperar da obra.
A história começa e se desenvolve em torno de H.D. Case, um entusiasta da computação e ex-hacker impedido, através de ataques ao seu sistema nervoso, de acessar a rede de comunicação digital que, na ficção, Gibson chamaria de Matrix. Uma companhia interessada em suas habilidades consegue reverter o efeito exigindo dele, em troca, alguns favores que envolvem a utilização de seu conhecimento para invadir a rede.
Em Lain, a história começa a partir de uma estudante que, ao contrário da maioria de seus colegas, não costuma utilizar a rede de comunicação conhecida, nesta obra, como Wired. Quando uma aluna de sua escola se mata e, um dia depois, envia emails para todos os colegas, a curiosidade de Lain faz com que esta comece a utilizar o computador que ganha de seu pai e descobre, na Wired, uma possível nova versão dela mesma – uma réplica virtual, digamos.
Muitos dos elementos criados e utilizados em Neuromancer estão presentes em Lain – bem como em quase todas as obras cinematográficas de ficção científica que surgiram depois da publicação do livro. O funcionamento da Wired é uma reinterpretação daquilo que Gibson chama de ciberespaço. O termo, cunhado pelo próprio autor, é utilizado até hoje como referência à internet. Mas a Wired e o ciberespaço de Gibson funcionam como uma simulação hiper-realista na qual o usuário visualiza suas ações, podendo ser utilizada para jogos tridimensionais ou apenas para comunicação casual entre colegas de escola, como é o caso em Lain.
Case e Lain, protagonistas das obras aqui mencionadas, têm poucas coisas em comum, mas o universo que gira em torno deles e sua relação com o mesmo são bastante parecidos – fato justificável pela supramencionada afirmacão de que Gibson influenciou obras de sua área que surgiram desde a publicação de Neuromancer. Entre essas obras, é importante mencionar Ghost in the Shell e a série de filmes Matrix, que até hoje é motivo de discussões entre fãs do autor de ficção científica quanto à suposição de que seria não uma homenagem, mas um plágio da criação original.
Case, ao contrário de Lain, é um adepto da rede de comunicação virtual desde antes da introdução de seu personagem à história contada ao leitor. De fato, ele é um informata renomado em seu meio, e muitos o ridicularizam por ter sido impedido de fazer o que mais gosta. Quando a história começa, ele é uma pessoa frustrada que esconde no hábito de usar drogas sua vontade inegável de voltar à atividade ilegal que exergia anteriormente ao início da história. Lain é ridicularizada apenas por ser a única aluna de sua escola – pelo menos em relação ao que conhecemos de todos os personagens apresentados – que não costuma acessar a rede. Embora o uso de drogas seja constante em Neuromancer, ele não é tão comum em Lain e, portanto, será considerado um elemento menor como comparativo entre as duas obras.
Por ser tão importante para o desenrolar da história que nos é apresentada em Lain, mencionarei primeiro a descobera de sua outra personalidade em versal digital na rede que ela recentemente descobriu quando assistimos aos primeiros episódios da série. Como a Wired é uma simulação hiper-realista de comunicação entre seus usuários, o que estes vêem conectados não são apenas apelidos ou nomes, mas versões digitais de sua própria fisionomia. Lain descobre, através de amigos que conhece na Wired, que ela já é bastante conhecida entre eles por ser uma das pessoas mais populares da rede, o que obviamente lhe causa espanto. Não demora a perceber que as pessoas que a reconhecem na verdade estão familiarizadas com um construto de personalidade idêntico a ela que se tornou uma garota popular – quase lendária, por tal – entre os diversos usuários. O que parece uma mera réplica de sua fisionomia descobrir-se-á, ao longo da série, uma personalidade inteira construída na rede.
Em Neuromancer, construtos de personalidade já são caso comum para o protagonista, Case. Um de seus melhores amigos do tempo em que costumava invadir espaços virtuais falecera há um tempo, mas ele continua vivo em um chip que armazena sua personalidade no que se chama construto. Ao conectar-se a ele, Case consegue manter conversas fluentes tais quais fossem realizadas pessoalmente com seu amigo. Este o auxilia em diferentes missões exigidas pela companhia que permitiu seu acesso à rede. Outra ligação importante entre as duas séries começa aqui: assim como o constructo, chamado Flatline McCoy, guia Case por suas missões na rede e seu entedimento sobre o que acontece ao seu redor, o constructo de Lain auxilia a Lain protagonista (ou seja, a versão física, tangível, da mesma pessoa) a entender os fatos que descobre pouco a pouco sobre si e sobre o mundo.

Drogas e internet: serão os antigos junkies do IRC os futuros caubóis do console?

Esse questionamento é válido, não se aplicando só ao sistema IRC, mas a uma certa relação do ‘underground’ com a internet. faz pouco tempo que entendi a expressão, desprezível, por sinal, web 2.0; a internet sempre esteve aí, e tem muita gente que parecia ignorar ela há anos atrás, mesmo que agora não perceba isso. Nesse sentido, vejo o ‘nerdismo’ de uns anos atrás – e não falo totalmente com conhecimento de causa, ainda me considero um novato, tendo começado em 1996 – como um ‘online underground’ que em muito se assemelha aos movimentos underground sociais, nos quais as drogas sempre estiveram presentes. Na verdade, se fazem presentes em todos os meios, mas na maioria isso nunca é mencionado. Enfim, a internet é mainstream há muito tempo, e acho que a turma do chamado 2.0 seria isso. Bom, chega de divagar, estou trabalhando.

As Camadas de Lain: uma introdução e plano geral.

Esse próximo é um artigo escrito a partir de algumas interpretações a respeito do anime escrito por Chiaki J. Konaka e dirigido por Ryutaro Nakamura. Meu artigo contem o que alguns considerariam spoilers de partes da história e, acho mais importante avisar, é destinado a quem já assistiu e portanto não contém referências explicativas da série em si.

Lain, ao contrário do que muita gente pensa, é um anime que pode ter uma interpretação mais unidirecional: o filme segue uma ordem cronológica início-fim padrão, mas usa técnicas de corte que permitem menções a eventos passados.
Imagine que cada vez que tu ouve uma palavra que não conhece a sua vida subitamente pára e um artigo enciclopédico é exibido: assim acontece o roteiro e edição do anime. Só que essa edição é feita em forma de continuidade; invés de ser brusca ela é feita em sequência contínua com gráficos anime sempre ricos em detalhes de cena e simbolismos ligados às discussãos filosóficas sendo citadas ou interpretadas na história.
No momento em que Lain é apresentada a um artefato novo utilizado por adolescentes, e ele é entregue a ela de forma sutil e mencionada como iguaria rara ou ilícita, um desses “cortes” explica, ao surgir na forma de um artigo da Wired, que aquela é uma ferramenta de proporções minúsculas que entra no nosso organismo e consegue conectar nossa rede neural interna à própria Wired.
A Wired é a internet?
Não, a internet é a atual emulação da Wired, embora seja bom mencionar que mesmo uma emulação possa evoluir o bastante para aproximar-se cada vez mais do conceito maior que representa, da mesma forma que a nanotecnologia em um estágio mais avançado nos permitirá mais fiéis emulações até de nossas funções mais básicas.
A Wired é um conceito que nos parece tecnologicamente viável. O ciberespaço criado por William Gibson em Neuromancer em 1984, provavelmente inspirado por outro percursor da internet.
A Ressonância Schumann é outro exemplo para o uso de cortes na linha sequencial de Lain. De forma sucinta, outra interrupção nos explica com som e imagens da terra, fazendo uma ligação visual entre a teoria e a comunicação humana, e como essa ressonância foi entendida por muitos como a possibilidade de uma ligação mundial da consciência humana – até hoje há pessoas que usam essa frequência para embasar a teoria de que, ao emitir um mantra vocalizado de baixa freqência, poderão alcançar a frequência que liga todas as consciências humanas.
De certa forma, a sugestão sobre o que ocorre entre Wired e o assim chamado “mundo real” e as infinitas possibilidades geradas a partir disso já surge aí, facilitando o entendimento da história.
A Lain existe ou não?
Tu se refere à Lain que vemos como protagonista? Categoricamente digo que não, porque essa nós acompanhamos até o último episódio para aí entendermos, a partir das teorias a própria existência ser relativa e podemos saber como ela se apresenta para o mundo e o mundo para ela e as diferentes possibilidades de existência que ela mesma descobre a partir das frases sobre memória e existência e o controle das memórias alheias. Ela é uma projeção nas mentes humanas.

Existe uma Lain original? Talvez, mas acredito que o mais perto disso tenha sido as informações básicas humanas usadas no projeto KIDS para superar Eiri como Kami Sama da Wired, criando uma nova entidade capaz de eliminar a presença dele. Essa entidade pode se ligar à memória das pessoas e à Wired. E como ela foi desenvolvida para não precisar de aparelhos tecnológicos (como o mencionado anteriormente) à rede, ela está constantemente ligando todos à Wired; a wired e o mundo real, nesse caso, tornam-se um só.
Se o que sentimos e todo o conjunto de troca de informações neurais a cada momento é o conjunto de memórias que compõe o exato momento (e vale lembrar que exato é relativo, já que considerando-se a idéia de continuidade naquilo que conceituamos como tempo não existe zero absoluto) em que nos percebemos, em que estamos; e a partir da idéia de que ela pode alterar as memórias das pessoas, então ela pode reescrever todas as memórias instantaneamente e criar um mundo no qual ela nunca existiu.

http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_the_Internet
http://en.wikipedia.org/wiki/Neuromancer
http://en.wikipedia.org/wiki/Schumann_resonances#Basic_theory

Anúncios
Esse post foi publicado em sem categoria e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para presença online/offline: lain, neuromancer, as drogas e a internet

  1. Lucas Palhão disse:

    Eu gostei muito de Lain, mas ainda não li Neuromancer.
    Parece que ainda tenho umas tantas leituras obrigatórias antes de começar a escrever ficção científica.

    Valeu pelo artigo.
    Abraço,
    Lucas Palhão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s