consumo de carne como luxo egoísta

Não vejo o suposto luxo de se comer lagostas tão diferentemente do luxo de se comer animais em geral, embora entenda que, de fato, há mais do que tradição na alimentação através da carne, pra muitas pessoas, embora duvida que seja o caso de qualquer uma que eu conheça. A verdade é que, desde que descobrimos que podemos viver sem o consumo de carne, seguimos nos alimentando do produto da morte de animais porque o poder de tirar uma vida e nos alimentarmos dessa ceifa nos fascina. Esse é o verdadeiro estímulo para que se queira alimentar-se de outro animal: eles sangram como nós, sofrem como nós, e nossa mórbida curiosidade e vontade de estar em posição de decidir sobre a morte alheia, como se assim tivéssemos algum tipo de controle sobre a vida, é o que nos leva a desejos tétricos como o de arrancar a cabeça de alguém e comer o que acharmos ali dentro ou conduzirmos uma vaca a um matadouro e dividir o que houver de alimento sob seu couro.

O parágrafo abaixo é de David Foster Wallace, do texto “Pense na Lagosta”, publicado em português na coletânea “Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo” (seleção de Daniel Galera)

“Mas também são boas de comer. Ou pelo menos é o que achamos agora. Até certa altura do século XIX, todavia, a lagosta era literalmente um alimento de classe baixa, consumido apenas pelos pobres e encarcerados. Até mesmo no rude ambiente penal dos primórdios da história americana algumas das colônias tinham leis limitando o uso de lagostas na alimentação dos detentos a uma única vez por semana, porque isso era julgado cruel e incomum, semelhante a obrigar pessoas a comerem ratos. Uma das razões para esse baixo prestígio era a fartura de lagostas na Nova Inglaterra de então. “Abundância inacreditável” são as palavras com que uma fonte descreve a situação, inclusive com relatos de peregrinos de Plymouth capturando lagostas à vontade com as mãos nuas ou do antigo litoral de Boston coberto de lagostas após uma série de tempestades. Elas foram consideradas um incômodo fedorento e moídas para serem usadas como adubo. Também é preciso levar em conta que as lagostas pré-modernas eram cozidas mortas e em seguida postas em conserva, geralmente em sal ou embalagens herméticas primitivas. A indústria da lagosta no Maine teve início com uma dúzia dessas fábricas de conserva nos anos 1840, de onde as lagostas eram enviadas a lugares tão distantes quanto a Califórnia, e a demanda existia somente por serem baratas e possuírem um alto teor de proteína, basicamente um combustível mastigável.”

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